Partido pró-curdo acusa Erdogan de querer iniciar a "guerra civil"

Prisões ontem efetuadas atingem o HDP, terceira força política no país e resoluto adversário do presidente. Prisões foram possíveis após levantamento da imunidade parlamentar.

Críticas da União Europeia (UE), Estados Unidos e de diferentes capitais europeias, a explosão de uma bomba em Diyarbakir, onde horas antes o procurador desta cidade ordenara a prisão dos dois principais dirigentes do Partido Democrático dos Povos (HDP, esquerda laica, pró-curda) - o dia foi vivido ontem numa atmosfera de forte tensão na Turquia, avolumando os sinais de uma crise política sem precedentes nos últimos anos.

Os dois copresidentes do HDP, Selahattin Demirtas e Figen Yüksekdag, e dez outros deputados do partido, entre os quais o presidente do grupo parlamentar, Idris Baluken, foram detidos na noite de quinta para sexta-feira no quadro de uma investigação "antiterrorista" ao Partido dos Trabalhistas do Curdistão (PKK, independentista curdo). O HDP é a terceira força política no Parlamento turco, com 59 deputados num total de 550, seguindo uma estratégia de oposição incondicional ao presidente Recep Tayyip Erdogan, que acusa de estar a realizar "um golpe de Estado". No site do partido lia-se ontem que a atuação do presidente ameaça "levar o país à guerra civil", posição repetida por um porta-voz do partido citado pela Reuters.

Os deputados do HDP foram privados de imunidade parlamentar num voto secreto na Assembleia Nacional, em maio, com 376 eleitos a pronunciarem-se a favor. O AKP tem 317 lugares e 40 os nacionalistas do MHP, adversários da concessão de direitos aos curdos. O resultado prova que também entre os republicanos do CHP houve deputados a votarem o fim da imunidade para os eleitos do HDP.

A Turquia vive sob estado de emergência desde a tentativa de golpe de 15 de julho, que as autoridades de Ancara atribuem ao movimento Hizmet, do clérigo muçulmano Fethullah Gülen. O clérigo vive exilado nos EUA e a Turquia já pediu a sua extradição.

Desde o golpe falhado, diferentes ONG, representantes da UE e dos EUA têm chamado a atenção para o que definem como a sistemática perseguição a opositores e media críticos de Erdogan e do partido no governo, o AKP, a que o presidente pertence, sob pretexto de erradicar a influência do Hizmet. Segundo a ONG Repórteres Sem Fronteiras, foram encerradas 70 publicações, 36 canais de televisão, 29 editoras e 23 estações de rádio.

Poucas horas após as detenções, uma bomba explodia junto a uma esquadra da polícia de Diyarbakir, no sudeste da Turquia, provocando nove mortos, cerca de cem feridos e avultados danos materiais. Um dos principais chefes militares do PKK, Murat Karayilan, garantiu que irá intensificar-se a luta armada contra o exército turco. Após a divulgação desta mensagem através de um site pró-curdo, tornou-se virtualmente impossível aceder às redes e plataformas da Internet na Turquia.

O primeiro-ministro Binali Yildirim justificou a detenção de Demirtas e Yüksekdag com o argumento de que "ninguém tem tratamento preferencial perante as leis (...) e o que está a ser feito corresponde ao Estado de Direito". Opinião distinta é a do presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, para quem os últimos acontecimentos "põem em causa as bases para uma relação duradoura entre a UE e a Turquia". Também a responsável pela diplomacia da UE, Federica Mogherini, se pronunciou em termos semelhantes, considerando a situação "extremamente preocupante". Nos EUA, o secretário de Estado adjunto, Antony Blinken, considerou "muito grave" as detenções dos eleitos do HDP.

A anteceder as detenções de ontem, os dois principais dirigentes do município de Diyarbakir tinham sido afastados de funções e presos, tendo Ancara nomeado um substituto oficial.

Quanto aos principais detidos, Yüksekdag tem estado envolvida em campanhas a favor dos direitos das mulheres e dirigiu uma organização socialista que viria a fundir-se em 2010 com o HDP, onde chegou à liderança em 2014 em conjunto com Demirtas. Este tem formação jurídica, foi um dos fundadores da Associação de Direitos Humanos Turca, antes de enveredar pela política ativa em 2007 num partido ilegalizado dois anos depois. Dirigente desde 2010 da formação que se sucedeu ao partido ilegalizado, Demirtas é uma das personalidades na origem do HDP. Concorreu às presidenciais de 2014, onde ficou em terceiro com 9,77% dos votos.

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