"Parte da sociedade brasileira voltou a desejar valores autoritários"

População brasileira está dividida em dois polos. Estes são personificados por Bolsonaro e Haddad. Mas o futuro do Brasil é incerto. Certo é que quem ganhar essas eleições não terá como certa a governabilidade deste país

O Brasil começa este domingo a escrever um dos capítulos mais marcantes da sua história: os brasileiros terão de eleger aquele que irá governar (ou tentará governar) o país nos próximos quatro anos. O cenário que se avizinha é o de que, independentemente do resultado, essa governação não será nada fácil.

Ao contrário das eleições anteriores, as deste ano não irão eleger o candidato a presidência que apresentou as melhores propostas de governo, já que durante o curto período de campanha eleitoral (45 dias), isto se revelou parecer secundário. Os programas de governo e os debates sobre os mesmos deram lugar a uma discussão moral que tomou conta do cenário político e dividiu a população brasileira em dois polos: de um lado, os que defendem valores como tolerância, menos violência, igualdade de género e a aceitação do outro como ele é. Do outro lado, aqueles que consideram que a tolerância deve ser diminuída, que a violência só será controlada com o armamento legal da população, que homens e mulheres não devem ser empregados com os mesmos salários, e que a homossexualidade não deve ser aceite, mas apenas tolerada. Ou seja, parte da sociedade brasileira voltou a desejar valores autoritários, acreditando que esta será a única forma de submeter, controlar e oprimir aqueles que esta sociedade deseja excluir.

Foi neste cenário que o candidato do Partido Social Liberal (PSL), Jair Bolsonaro, foi crescendo, chegando, no passado dia 4, aos 35% das intenções de voto (de acordo com o Instituto Datafolha). Se este resultado se mantiver, Bolsonaro terá de disputar uma segunda volta com quem ficar em segundo lugar. Portanto, como já havia referido a filósofa brasileira Marilena Chauí, o autoritarismo e a aceitação do mesmo por parte da sociedade mostra que, neste momento, as pessoas preferem "ordem e a segurança", em vez de "democracia e liberdade".

Apesar de muitos opinion makers atribuírem a grande adesão aos valores autoritários propagados por Bolsonaro ao ambiente de desespero causado pelo "naufrágio" ético do Partido dos Trabalhadores (PT), o facto é que o candidato à presidência do Brasil pelo PT, Fernando Haddad, conseguiu alcançar o segundo lugar nas intenções de voto, abarcando 22% da preferência (segundo a sondagem acima citada).

Portanto, ainda que muitos eleitores não mais se revejam no PT, o apoio à Haddad pode ser visto como uma tentativa de se evitar a vitória do autoritarismo, uma vez que nem a esquerda e nem a direita foram capazes de se aliar para fortalecer outro candidato. Assim, o Brasil divide-se hoje entre o "anti-petismo" - aqueles que não querem o PT (custe o que custar) - e aqueles que temem e tentam evitar um governo de extrema-direita (custe o que custar).

Neste sentido, tudo indica que os candidatos do PSL e do PT deverão enfrentar-se numa segunda volta, a menos que os votos dos indecisos consigam mudar este cenário.

Se Bolsonaro vencer, isto poderá ser uma ameaça à jovem democracia brasileira, pois o seu discurso já deixou bem claro que fará um governo autoritário. Deste modo, é provável que os restantes partidos se unam, tornando a governabilidade impossível, ou que ainda tentem impedi-lo de governar. Mas como explicou o filósofo brasileiro, Paulo Ghiraldelli Júnior, uma vez que a candidatura de Bolsonaro foi financiada por poderosos grupos económicos (entre eles, mineradores, produtores rurais e evangélicos) - dos quais a atenção foi desviada por conta do debate moral que se instalou - o mais provável é que esses grupos exerçam pressão para que este candidato se mantenha no poder.

Se a maioria da população brasileira eleger o candidato do PT, isto poderá ser visto como uma resposta a destituição da ex-presidente, Dilma Roussef (ainda que o voto em Haddad represente não só um voto no PT, mas também um voto anti- Bolsonaro). No entanto, não se pode excluir a hipótese de que o restante da população poderá insurgir-se, pedindo o impeachment deste presidente, e de que, neste caso, os partidos de centro-direita, e os grupos económicos que tentaram eleger Bolsonaro, se possam unir contra o PT.

O futuro do Brasil é incerto. Mas certo é, que quem ganhar essas eleições, não terá como certa a governabilidade deste país.

Jornalista brasileira freelancer e membro da Associação de Imprensa Estrangeira em Portugal. Doutoranda em Geografia Humana/ Migrações (IGOT/ ULisboa/ Bolsista FCT) e mestre em Comunicação e Indústrias Culturais (UCP)

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