Para Lisboa em tempos de guerra

Natasa nasceu em Sarajevo, em 1972, na então Jugoslávia, governada pelo marechal Tito. O conflito na Bósnia empurrou-a para Portugal em 1995

As bombas começaram a cair em Sarajevo em abril de 1992. Natasa vivia com a mãe e o irmão, o chef Ljubomir Stanisic, num prédio de 16 andares no centro da cidade bósnia. Os três fugiram da guerra durante os primeiros meses do conflito. Partiram para a Sérvia. Três anos volvidos, em 1995, ela voltou a fazer as malas e apanhou o avião para Lisboa.

Acasos do destino, a filha de uma amiga da mãe de Natasa apaixonara-se por um português que servira na Bósnia com os capacetes-azuis e partira para Portugal. No verão de 1994, regressou à ex-Jusgoslávia com o marido, a filha que entretanto nascera e a cunhada, que fez amizade com Natasa durante os dias que passaram em Belgrado. Convidou-a para passar férias em Lisboa. Mas ela disse que não. Não podia. As férias teriam de ser passadas a trabalhar, para ajudar a família.

Algum tempo depois, o convite voltou a ser feito e desta vez incluía a oferta de um trabalho temporário na capital portuguesa. "Cheguei a Lisboa a 4 de setembro e no dia 6 comecei a trabalhar na Rua das Janelas Verdes, num restaurante. Comecei a aprender a língua e um mês depois assinei um contrato de trabalho. Acabei por trabalhar nessa casa durante oito anos e meio", conta Natasa.

"Liberdade em todo o sentido da palavra." Foi esta a primeira impressão que teve à chegada. "Ainda hoje o céu de Lisboa tem uma cor que nunca vi noutros lugares. E depois o pacifismo dentro das pessoas é impressionante. Tudo é acolhedor. Isso dá uma sensação de liberdade em todos os aspetos", explica.

Natasa nasceu em Sarajevo, em 1972, na então Jugoslávia, governada pelo marechal Tito. O pai trabalhava na companhia das águas e a mãe no departamento financeiro de um jornal, o Oslobodjenje. Os dois eram ortodoxos, mas nunca ninguém deu importância às religiões. Na família mais alargada havia gente de todos os credos. Os Stanisic viviam bem e as memórias que Natasa guarda da infância são feitas de paz, de convívio, de férias passadas nas praias na Croácia. Por influência de uma tia oftalmologista, queria estudar Ótica. Mas isso obrigá-la-ia a ir para a faculdade em Zagreb. Optou pelo curso de Engenharia Mecânica em Sarajevo. Conta que era a única mulher em 400 estudantes. Mas as armas vieram pôr um ponto final nas aspirações académicas.

A maioria dos habitantes de Sarajevo nunca pensou que a guerra chegasse à cidade, "porque a Bósnia era um sítio com ainda mais misturas" étnicas e religiosas. Natasa estava na grande manifestação pela paz que a 5 de abril de 1992 foi interrompida com disparos de snipers, vindos do cimo de um prédio. Duas mulheres morreram. Suada Dilberovic, muçulmana, tinha 23 anos e estudava Medicina. Olga Sucic, dez anos mais velha, era católica e mãe de duas filhas. São hoje consideradas as primeiras vítimas do cerco de Sarajevo. A partir desse momento o futuro de Natasa deixou de ser aquele que teria sido se não fosse a guerra.

Em 2005, depois de dez anos em Portugal, começou a pensar que queria novas experiências e rumou ao Canadá, onde moravam uns primos que também haviam abandonado a Jugoslávia nos anos 90. Primeiro, como voluntária, cuidou de uma criança com síndrome de Apert e depois de uma pessoa de idade paralisada devido a um AVC. Enquanto estava no Canadá, a família achou que era tempo de Natasa encontrar um marido. Decidiram publicar um anúncio na internet . "No dia seguinte tinha mil e-mails", conta. Um dos correspondentes prendeu-lhe a atenção e começaram a conversar. Sete meses depois, Natasa pagou-lhe um bilhete de avião para que ele a fosse conhecer. Decidiram que sim, que queriam fazer vida em conjunto. Ela viajou para a Sérvia e casaram-se, mas regressou ao Canadá para ficar durante mais um ano, até ao fim do visto. Só então é que se juntou definitivamente ao marido e passaram os anos seguintes em Pozarevac, a mesma terra onde nasceu o ex-líder sérvio Slobodan Milosevic. Agora estão em processo de divórcio.

Natasa regressou a Portugal em 2015 e agora trabalha com o irmão, o chef Ljubomir Stanisic. Ocupa-se da gestão do restaurante 100 Maneiras.

Diz que os portugueses e os bósnios têm muitas semelhanças. A alegria natural, o gosto pelo convívio e as constantes conversas sobre comida são três desses pontos de encontro. Para Natasa são as pessoas que fazem os lugares. "As cidades em si são como a maquilhagem. É possível pintar os prédios para ficarem mais bonitos, mas, à primeira chuva, a tinta cai. Já aquilo que as pessoas são não é possível pintar e são elas que fazem os sítios."

Os elogios são muitos quando fala de Portugal. Ainda não encontrei um país como este, em que cada pedra tem uma história. Aquilo que a natureza fez em Portugal foi mesmo bem feito, como um filho bem programado. Sou muito grata a Portugal. Sempre me ajudaram. Toda a gente. E nunca ninguém me disse que o meu lugar não é aqui", resume.

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