Os sete fantasmas que assombram a quarentena de Bolsonaro

Isolado, desta vez literalmente, no Palácio do Alvorada, o presidente está na mira de dois tribunais, com amigo explosivo preso, sob cerco do Facebook, dependente politicamente dos deputados mais oportunistas do Congresso e a ver a oposição organizar-se. Além de enfrentar a covid-19 no corpo.

O Supremo Tribunal Federal (STF) e o caso da interferência na polícia denunciado pelo ex-aliado Sérgio Moro, as cinco ações contra a sua candidatura a tramitarem no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o potencial explosivo do preso Fabrício Queiroz, as investidas de Mark Zuckerberg contra a sua máquina de propaganda, as exigências dos deputados sanguessugas do Congresso para o proteger de um impeachment e os movimentos cada vez mais organizados da oposição nas redes e nas ruas devem assombrar as noites de Jair Bolsonaro.

Confinado, desta vez literalmente, ao Palácio do Alvorada por causa do vírus que diz ter contraído, o presidente da República que já disse dormir com uma arma ao alcance da mão junto à cama para se defender de eventuais ataques desta vez tem razão para ter medo: em ano e meio de governo, vive o seu momento mais dramático.

A "Gripezinha"

Bolsonaro tornou-se o principal exemplo à escala global de como não se deve combater a pandemia de novo coronavírus.

"Muitos governos responderam rapidamente, mas muitos ainda não levam a sério a ameaça da Covid-19, ignorando a recomendação da Organização Mundial da Saúde contra aglomerações. O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, tem sido fortemente criticado por especialistas da área da saúde e enfrenta uma intensa reação pública por sua fraca resposta", escreveu em editorial a The Lancet, uma das revistas científicas mais conceituadas do mundo.

Se a opinião de cientistas não é normalmente levada em conta por Bolsonaro e pelos bolsonaristas, a de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos e sua principal referência, é religiosamente ouvida. "Se você olhar para o Brasil, eles estão a passar por um momento muito difícil. A propósito, eles estão a seguir o exemplo da Suécia. A Suécia está a passar por um momento terrível. Se tivéssemos feito isso, teríamos perdido talvez até 2,5 milhões ou mais de vidas", disse Trump em plenos jardins da Casa Branca.

Nas fronteiras do Brasil, o presidente que disse não ser "coveiro" e reagiu com um "e daí?" aos números crescentes de óbitos de compatriotas com a famosa "gripezinha", é considerado o maior responsável por essas mortes. Em sondagem de maio da Paraná Pesquisas, 35% dos brasileiros atribuíram-lhe a culpa. Os que apontaram o dedo aos governos estaduais (12,7%) ou ao comportamento da população (9,4%) ficaram muito atrás.

Depois de anunciar estar contaminado a maioria da população viu o diagnóstico como uma ironia do destino. O presidente vem, entretanto, fazendo publicidade à hidroxicloroquina, remédio cuja eficácia no combate à doença não é confirmado pelas autoridades científicas e apresenta contra indicações graves.

CRIMES DE CAMPANHA

Na justiça, três casos e os seus desdobramentos assombram a quarentena do presidente. No TSE correm, no mínimo, cinco ações sobre eventuais crimes de campanha cometidos pelo vencedor da eleição de 2018.

Um ataque contra o grupo "Mulheres Unidas Contra Bolsonaro", instalação de dezenas de outdoors ilegais, financiamento por empresários bolsonaristas de mensagens em massa contra o rival da segunda volta Fernando Haddad, uso fraudulento de números de contribuinte fiscal para disparo de mensagens, tratamento privilegiado à TV Record, emissora do pastor Edir Macedo, e coação a funcionários de firmas lideradas por apoiantes seus.

Caso algum destes casos prospere para denúncia ainda em 2020, são marcadas novas eleições. Se for a partir de 2021, haverá eleições indiretas no Congresso.

IMPEACHMENT À ESPREITA

As acusações de Sérgio Moro de interferência na polícia federal do Rio de Janeiro levaram à abertura de uma investigação que pode, no limite, culminar com o afastamento do chefe do executivo. Se Bolsonaro for, de facto, denunciado, o caso segue para a Câmara dos Deputados onde dois terços dos parlamentares podem levar a ação penal para o STF. Nesse caso, o presidente será afastado por seis meses e substituído pelo vice-presidente Hamilton Mourão, um general com quem mantém relação de altos e baixos.

Ainda na Câmara dos Deputados, o presidente da casa, Rodrigo Maia, tem na sua secretária mais de 30 pedidos de impeachment. Maia, que já foi acusado de "péssima atuação" por Bolsonaro e é um dos alvos das manifestações pela ditadura de apoiantes do presidente, espera o momento certo para aceitar um desses pedidos.

Nesse caso, Bolsonaro estaria novamente dependente do apoio de um terço dos deputados - razão pela qual, além dos tribunais, também os deputados o assombram.

REFÉM DO CENTRÃO

Pressionado na esfera judicial, para consolidar uma base parlamentar que o ponha a salvo em caso de denúncia ou pedido de impeachment, o presidente vê-se obrigado a investir cada vez mais no chamado "centrão", as centenas de deputados de partidos ideologicamente neutros que, de forma assumida, trocam o seu apoio ao governo de plantão por cargos públicos - foi assim com Fernando Henrique Cardoso, Lula da Silva, Dilma Rousseff, Michel Temer.

Como neste momento, ninguém é capaz de calcular, com exatidão, qual o número de aliados do Planalto há no Congresso, Bolsonaro está, portanto, refém dos caprichos desse grupo se quiser sobreviver politicamente.

Para tal, já ofereceu 76 mil milhões de reais do orçamento para deputados membros do "centrão" gerirem. Mas a gula do "centrão" é, sabe-se em Brasília, insaciável. E quanto mais frágil Bolsonaro fica no plano jurídico mais caro se tornará o seu apoio no plano político.

EXPLOSIVO QUEIROZ

Outro caso jurídico de tirar o sono, é o das "rachadinhas". O senador Flávio Bolsonaro, filho mais velho do presidente, é acusado de liderar uma organização criminosa que desviava o salário de assessores fantasmas - estima-se que pelo menos 2,3 milhões de reais ao longo de anos - para seu benefício. Para o ajudar, contava com o operacional Fabrício Queiroz, apanhado por órgão de controle estatal a realizar movimentações financeiras suspeitas.

Queiroz, que é amigo do presidente há 30 anos e nessas movimentações colocou dinheiro na conta da primeira-dama Michelle Bolsonaro, foi preso na casa de Fred Wassef, advogado de Jair e Flávio, onde esteve escondido por cerca de um ano. A polícia procura ainda Márcia Aguiar, mulher de Queiroz e envolvida no esquema.

Uma delação premiada - diminuição de pena em troca de informações - do operacional ou da sua mulher assustam o clã presidencial.

Decisão de um juiz do Supremo Tribunal de Justiça aliado do presidente a determinar prisão domiciliar de Queiroz na quinta-feira deu, entretanto, um alívio aos Bolsonaro.

FACEBOOK REAGE

No dia anterior, o Facebook anunciou a remoção de uma rede de contas e páginas, tanto naquela rede social quanto no Instagram, ligadas ao Partido Social Liberal (PSL), pelo qual o presidente se candidatou, e a gabinetes da família Bolsonaro.

Segundo a empresa, essas contas estavam envolvidas na criação de perfis falsos e com "comportamento inautêntico" - quando um grupo de páginas e pessoas atuam em conjunto para enganar outros usuários sobre quem são e o que estão fazendo.

Mesmo com os responsáveis tentando ocultar as suas identidades, as investigações da rede social de Mark Zuckerberg encontraram ligações de pessoas associadas ao PSL e a alguns dos funcionários nos gabinetes do deputado federal Eduardo Bolsonaro, do senador Flávio Bolsonaro e do presidente Jair Bolsonaro, além de Anderson Moraes e Alana Passos, ambos deputados estaduais alinhados ao governo federal.

Foram apagadas 35 contas, 14 páginas e um grupo no Facebook, além de 38 contas no Instagram. Cerca de 883 mil pessoas seguiam uma ou mais dessas páginas no Facebook. Em torno de 917 mil seguiam contas do grupo no Instagram. O grupo removido reunia cerca de 350 pessoas.

OS 70 POR CENTO

A oposição, entretanto, organiza-se em grupos heterogéneos cujo denominador comum é o repúdio ao presidente.

O "Estamos Juntos" pretende recriar o espírito do "Diretas Já!", movimento apartidário de 1983 que pedia a realização de eleições democráticas no país então sob ditadura militar.

"A onda de esperança se formou: somos muitos e diferentes, e estamos juntos", escreveu em artigo publicado pelo jornal Folha de S. Paulo a argumentista Carolina Kotscho, uma das fundadoras do grupo. "Estamos vivendo uma tragédia sem precedentes e agora estamos finalmente juntos, com tudo o que temos de mais humano e sincero. Como no movimento "Diretas Já", temos que deixar velhas disputas para criarmos condições de enfrentar e superar o drama atual".

Outro grupo, o "Somos 70%" partiu de uma iniciativa virtual do ex-banqueiro e hoje economista ligado às classes mais desfavorecidas Eduardo Moreira. O nome deriva das sondagens que atribuem só cerca de 30% de aprovação a Bolsonaro.

"70% acham Bolsonaro péssimo, ruim ou regular, 70% rejeitam a aproximação ao Centrão [grupo de partidos assumidamente oportunistas do Congresso Nacional], 70% apoiam medidas de isolamento e mais de 70% sabem que a terra é redonda, #somos70%", notou Moreira.

"O curioso é que agimos como se fossemos minoria e eles agem como maioria. Falam, gritam, colocam medo em todo mundo. Mas somos maioria, quem tem que ter medo são eles", concluiu.

Além de mais um punhado de grupos - "Pacto pela Democracia", que reúne 150 entidades da sociedade civil, como ONGs ou grupos ambientalistas, "Esporte Pela Democracia, lançado por ex-atletas como os antigos futebolistas Casagrande, com passagem pelo FC Porto nos anos 80, e Raí ou o ex-tenista Gustavo Kuerten - surge com força o "Basta!", com origem na comunidade jurídica brasileira.

Ao lado de Reale Junior, autor do impeachment de Dilma, um dos nomes que encabeça um movimento com cerca de 50 mil assinaturas que exige "respeito à Constituição e às instituições" é Antonio Mariz de Oliveira, advogado do ex-presidente Michel Temer durante as denúncias de que o ex-presidente foi alvo no exercício do cargo.

No jornal O Estado de S. Paulo, Mariz de Oliveira fala em "ataques", "agressões" e "afrontas" de Bolsonaro às instituições. "Há risco de ruptura institucional e ruptura social", diagnostica, e, por isso, defende, "não é possível continuar omisso, porque a omissão acaba sendo cumplicidade".

Os grupos só não são tão eficazes pela referida heterogeneidade: Lula, por exemplo, não quer integrar uma iniciativa onde estejam apoiantes da queda de Dilma; a presença de Sérgio Moro, acusado por parte da oposição de parcialidade nos julgamentos da Lava Jato, também não é bem vista por setores da esquerda e por setores da advocacia.

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