"Os negros existem, mas não como pessoas"

Celso Athayde, fundador do Frente Favela Brasil, falou ao DN sobre os objetivos deste novo partido no Brasil

A Frente Favela Brasil nasceu porquê?
Os negros existem mas não como pessoas: existem como negros. Os jornais noticiam o primeiro homem na lua e depois noticiam o primeiro preto na lua, como se fossem coisas distintas. A Frente nasce para acordar os negros, para os negros passarem a olhar para as coisas por outro prisma. Se nós somos 78 milhões no Brasil porque temos de estar sempre a pedir algo ao poder público? Está na hora de deter o poder, de assinar as leis. Acho que a política pode ajudar a diminuir a nossa desvantagem.

Embora não exerça nenhum cargo, foi o idealizador da FFB. Quando apareceu a ideia?
Na votação do impeachment. Mostraram o Lula e a Dilma reunidos com deputados a trocar votos por cargos. Depois mostraram o Temer e o Aécio a fazer o mesmo. E pretos? Porque os pretos não estão ali reivindicando? Porque o preto continua a vender refrigerante na entrada do estádio e nunca assiste ao jogo? Tem preto no poder? Tem. Mas defendendo outros interesses, um templo religioso, uma categoria profissional, o que é legítimo. Mas e para defender os nosso interesses? Temos de ter uma bancada.

É empresário de sucesso. Como foi o seu percurso?
Com seis anos, os meus pais, ambos alcoólicos, separaram-se e eu fiquei com a minha mãe a viver na rua até aos 12, quando entrei para um abrigo. Depois fui para a Favela do Sapo, entrei em contato com pessoal do hip hop e tornei-me produtor de eventos. Em paralelo fundei a Central Única das Favelas, uma ONG focada no desenvolvimento das favelas, e a Holding Favela, uma plataforma de empreendedorismo social. Mas à medida que me ia tornando mais bem sucedido, reparava que lidava com cada vez menos pretos. Aí perguntei-me se queria ser feliz sozinho, sem os meus pares. Não quero.

Em São Paulo

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