Os herdeiros de El Chapo ou a queda de um império da droga

Iván Archivaldo e Jesús Alfredo, nascidos do primeiro casamento de Joaquín Guzmán, são suspeitos de serem os responsáveis pela emboscada que matou cinco militares em setembro

A partir do México, construiu um império no narcotráfico, o cartel de Sinaloa. Mas Joaquín Guzmán, mais conhecido por El Chapo, agora está preso e atrás das grades vai assistindo a uma luta intestina entre os seus descendentes pelo controlo da organização criminosa.

Não se sabe ao certo quantos filhos terá El Chapo. Citada pela insuspeita BBC, a revista mexicana Proceso, recorrendo ao cadastro prisional, fala em 18, nascidos de sete mulheres. Já o El País corta a prole pela metade e fala apenas em nove. Este número é também corroborado pelo Expansión - site informativo que funciona em aliança com a CNN. As mais jovens são gémeas, María Joaquina e Emali Guadalupe, nascidas em 2011 (ou 2012, consoante as fontes de informação), em Los Angeles, fruto da relação com Emma Coronel, ex-rainha de beleza mexicana.

Dos restantes filhos de El Chapo pouco ou nada se sabe, com algumas exceções. Iván Archivaldo e Jesús Alfredo, hoje na casa dos 30 anos e nascidos do matrimónio de El Chapo com a sua primeira mulher, Alejandrina Salazar, são os principais suspeitos de terem organizado a emboscada a veículos militares que no dia 30 de setembro matou cinco militares e feriu outros 11. Os irmãos, no entanto, através do advogado do pai, negam qualquer tipo de envolvimento no caso.

"Nenhum deles saiu do seminário. Têm um largo historial de colaboração em homicídios, ajustes de contas e tráfico de droga", escrevia em agosto o El País, depois de Jesús Alfredo ter sido sequestrado num restaurante em Puerto Vallarta. Seria libertado alguns dias mais tarde.

Iván, também conhecido como El Chapito, chegou a ser preso em 2005. Acusado de lavagem de dinheiro para a organização dirigida pelo seu pai, saiu em liberdade em 2008, depois de as autoridades assumirem que não tinham conseguido reunir provas suficientes.

Outro dos filhos de El Chapo alegadamente também envolvido nos negócios do pai é Ovidio Guzmán López, um dos rebentos do casamento com Griselda López Pérez. Apesar de, segundo a BBC, também ele liderar o seu próprio grupo dentro da organização, Ovidio tem tido um comportamento mais discreto do que os irmãos.

Na opinião dos jornalistas especializados em narcotráfico, os filhos de El Chapo são demasiado imberbes para seguir com sucesso as pisadas do pai. "Gostam de ostentar, são fanfarrões e muito pouco discretos", explica José Reveles, autor de vários livros sobre o tráfico de droga, citado pelo El País. "Um exemplo disso é que cometeram a imprudência de ir meter-se onde não deviam", acrescenta o repórter, fazendo referência ao jantar em Puerto Vallarta, uma zona controlada por um cartel rival e emergente, o Jalisco Nueva Generación.

Mas não são apenas as guerras internas e familiares pelo controlo do negócio e o desacerto das opções dos herdeiros que colocam em risco a preponderância da organização de El Chapo no mundo da droga. Os traficantes rivais começam a perder o respeito e a disputar a hegemonia dos Guzmán. Esse confronto entre grupos criminosos tem vindo a tornar Sinaloa um local cada vez mais inseguro. "Os habitantes estão presos no meio de conflitos entre cartéis sem que haja autoridades com capacidade e vontade de os proteger", explica ao The Guardian Adrián López, diretor do El Noroeste, uma publicação local.

Não será fácil para os filhos de El Chapo saírem vitoriosos da guerra que está instalada. "São demasiado temperamentais para assumirem o controlo de uma organização tão poderosa. Falta-lhes maturidade. Estão a desencadear demasiada violência e, pior ainda, agora meteram-se com o exército", sublinha à BBC o jornalista Ricardo Ravelo, que também investiga o tráfico de droga. Talvez a herança seja demasiado pesada para gerir. Afinal, escreve o El País, em causa está "a maior empresa criminosa do mundo, presente em mais de cem países, com milhares de empregados".

Desde que El Chapo foi preso as provocações ao clã têm-se sucedido. Em junho, cerca de 150 homens armados invadiram e saquearam a casa de sua mãe, na localidade de La Tuna, em Sinaloa. No mês seguinte, dois sobrinhos do barão da droga, com 19 e 13 anos, foram emboscados e baleados. Por fim, seguiu-se o rapto de Jesús Alfredo.

A tudo isto El Chapo tem assistido manietado, atrás das grades, numa prisão de alta segurança em Ciudad Juárez, perto da fronteira com os Estados Unidos.

A detenção aconteceu numa manhã de janeiro, depois de seis meses a monte. Foi em julho do ano passado que, ao estilo de um episódio da série Prison Break, El Chapo escapou através de um túnel com 1,5 quilómetros de comprimento. Conta o Gulf News, jornal dos Emirados Árabes Unidos, que tudo começou com um buraco no chão da cela, que dava depois acesso ao sistema de ventilação. Estava preso há menos de dois anos quando escapou. Essa foi a sua segunda estada na prisão. E também a segunda fuga. A primeira aconteceu em 2001, quando desapareceu da cadeia de Puente Grande, também ela de máxima segurança, alegadamente escondido num cesto de roupa.

As autoridades mexicanas não querem arriscar outra humilhação e desde maio que El Chapo está em regime de isolamento, enquanto espera por saber se será ou não extraditado para os EUA - algo que o México quer concretizar no início de 2017 -, onde enfrenta várias acusações e é visto como o mais poderoso traficante de droga do planeta. "Comercializo mais heroína, metanfetaminas, cocaína e marijuana do que qualquer outro no mundo", afirmou El Chapo numa entrevista à revista Rolling Stone publicada em janeiro. Em 2014, a Forbes estimava que as suas receitas anuais ultrapassavam os 2,5 mil milhões de dólares.

Conseguirão os filhos de El Chapo continuar o império do pai? Os riscos são muitos e a irmandade já o sentiu na pele. Outro dos descendentes, Edgar Guzmán Salazar, também nascido da relação com Griselda, foi assassinado em 2008, quando tinha 22 anos.

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