Os Cristãos Escondidos do Japão temem pelo destino da sua religião

A sua fé única mistura o budismo com o cristianismo e as práticas xintoístas, e o seu ritual combina latim, português e japonês. Os jesuítas levaram o cristianismo para o Japão em 1549, mas este foi banido em 1614, só sendo novamente permitido a 1873.

O rosto desgastado por anos no mar, o pescador japonês Masaichi Kawasaki, de quimono, ajoelha-se diante de um altar adornado com imagens da Virgem Maria, fazendo o sinal da cruz ao mesmo tempo que entoa cânticos transmitidos ao longo de séculos.

Kawasaki, de 69 anos, é um de um número cada vez menor de Kakure Kirishitan, ou Cristãos Escondidos, descendentes daqueles que preservaram a sua fé em segredo durante séculos de perseguição.

A sua fé única mistura o budismo, com o cristianismo e as práticas xintoístas, e o seu ritual combina latim, português e japonês.

Os Cristãos Escondidos receberam uma nova atenção durante a visita do Papa Francisco ao Japão, entre 23 e 26 de novembro. No ano passado, 12 locais ligados aos Cristãos Escondidos foram designados como Património Mundial da UNESCO.

Mas a sua religião pode estar à beira da extinção, à medida que os jovens abandonam as zonas rurais, onde a fé persistiu.

"Temo que o que os meus antepassados trabalharam duramente para preservar vá desaparecer, mas essa é a tendência dos tempos", disse Kawasaki, que reza todas as tardes em casa diante do altar, rodeado de outros devotados aos deuses budistas e xintoístas.

"Tenho um filho, mas não espero que ele continue", acrescentou. "Pensar que isto vai desaparecer é triste, sem dúvida."

Os jesuítas levaram o cristianismo para o Japão em 1549, mas este foi banido em 1614. Os missionários foram expulsos e os fiéis foram forçados a escolher entre o martírio e esconder a sua religião.

Muitos juntaram-se a templos budistas e xintoístas para disfarçar as suas crenças, e alguns rituais tais como a confissão e a comunhão, que requerem um padre, desapareceram.

Outros rituais foram misturados com as práticas budistas, tal como a adoração dos antepassados, ou as cerimónias xintoístas indígenas.

Transmitidos oralmente e em segredo, os cantos "orasho" -- do latim "oratio" -- combinam latim e português com o japonês, os seus significados principalmente simbólicos.

Quando a proibição ao cristianismo foi levantada no Japão, em 1873, alguns Cristãos Escondidos juntaram-se à Igreja Católica; outros optaram por manter o que viam como sendo a verdadeira fé dos seus antepassados.

"Eles não queriam destruir a fé que tinham preservado ao longo de tanto tempo apesar da proibição", disse Shigenori Murakami, um líder da sétima geração de um grupo de Cristãos Escondidos no distrito de Sotome, em Nagasáqui, o cenário para o filme Silêncio (2016) de Martin Scorcese, sobre a perseguição dos cristãos.

O Papa Francisco visitou um monumento aos mártires na colina de Nishizaka, em Nagasáqui, no sul do Japão, onde 26 cristãos foram executados em 1597.

Numa manhã fria e chuvosa, o Papa (que enquanto jovem jesuíta na Argentina queria servir como missionário no Japão) disse que aquele era um local que não era tanto uma lembrança da morte, mas a promessa de vida eterna em Jesus. O testemunho dos mártires, disse, "confirma-nos na fé e ajuda-nos a renovar a nossa dedicação e compromisso com o discipulado missionário que se esforça para criar uma cultura capaz de proteger e defender toda a vida através do martírio diário do serviço silencioso para todos, especialmente os com maior necessidade".

Murakami, de 69 anos, tornou-se "chokata" (líder) do grupo de fiéis locais depois de o pai morrer, há 14 anos. Passou rês anos a aprender o orasho dos livros baseados num velho e frágil pergaminho do século XVIII que ainda possui.

Na ilha Ikitsuki, no sul do Japão, onde Kawasaki vive, os cantos são tradicionalmente falados e cantados. Mas em Sotome, os fiéis rezam silenciosamente por medo de serem descobertos. O pai de Murakami começou a cantar algo há 40 anos a pedido dos outros fiéis Cristãos Escondidos.

Nessa altura, o grupo do pai tinha cerca de cem pessoas. Agora são apenas metade desse número, disse Murakami. "No tempo do meu avô, eram várias centenas", contou. "Mas os jovens não estão interessados. Estão a virar as costas à religião em geral."

O número exato de Cristãos Escondidos é difícil de dizer, mas ninguém duvida que este está a diminuir. Só cerca de 1% da população japonesa é cristã.

Shigeo Nakazono, curador de um museu na ilha de Ikitsuki, disse que havia provavelmente 300 fiéis em quatro grupos ali, sendo que há três décadas eram dois mil em 20 grupos.

"O futuro é difícil", disse Nakazono, lembrando que a juventude está a deixar a ilha, onde a principal fonte de rendimento, a indústria pesqueira, está em declínio.

A falta de uma liderança formal para os ajudar a adaptar a uma sociedade em mudança é outro obstáculo para a sobrevivência dos Cristãos Escondidos, indicou Nakazono.

"Os velhos hábitos são preservados e não há um mecanismo para mudá-los tendo em vista as mudanças sociais"; disse.

Murakami, contudo, explicou que o seu objetivo é manter as tradições da forma como eram. "Não quero mudar", disse. "Vou continuar a fazer como tenho feito, preservando os caminhos que foram partilhados pelos meus antepassados."

Ainda assim, disse estar determinado a que a sua religião não morra. "Ainda não escolhi um sucessor, mas tenho confiança de que posso continuar e que serei capaz de passar isto", disse à Reuters no final da cerimónia ecuménica de Cristãos Escondidos, Budistas e Católicos no pequeno templo Karematsu em Nagasáqui, dedicado a um padre português que morreu ali no século XVII. "Não posso deixar que a minha geração seja aquela que vai destruir o que os meus antepassados protegeram com a sua vida."

*Jornalistas da Reuters

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