Ortega escolhe a mulher para vice como símbolo de igualdade sexual

Atual presidente é candidato a terceiro mandato consecutivo e surge como grande favorito para as eleições de novembro. Oposição acusa-o de querer perpetuar-se no poder.

"Não havia qualquer dúvida de que tinha de ser uma mulher, e quem melhor do que uma companheira com grande experiência de trabalho e que provou ser competente e disciplinada?" - declarou o presidente Daniel Ortega ao anunciar ontem a candidatura a um terceiro mandato consecutivo, com o detalhe de ter escolhido a sua mulher para a vice-presidência do país.

Segundo Ortega, o governo conjunto com sua mulher, Rosário Murillo, de 65 anos, será um exemplo da efetiva igualdade entre sexos que vigora na Nicarágua. Murillo é atualmente porta-voz do governo e uma das suas figuras-chave, além de presença assídua em programas de televisão, onde cultiva uma retórica anticapitalista e anti-Estados Unidos, envolvida em referências religiosas cristãs. Casada com Ortega desde 2005, mas com quem vive desde os anos 1970, revelou-se no passado como autora de poesia, tendo obras publicadas.

Ortega, que já foi presidente do país entre 1985-1990, quando foi derrotado pela candidata da oposição unida, Violeta Chamorro, voltou à presidência em 2006, após duas tentativas falhadas em 1996 e 2001. Dirigente da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), que derrubou o regime de Anastacio Somoza em julho de 1979, Ortega conseguiu que o Supremo Tribunal de Justiça considerasse não aplicáveis certas disposições constitucionais que teriam impedido de se candidatar em 2011. A sua governação tem-se caracterizado por uma linha de orientação semelhante à dos regimes populistas e esquerdistas na América de língua castelhana.

As eleições presidenciais estão marcadas para 6 de novembro e irão decorrer em paralelo com as legislativas, em que são eleitos os 90 deputados da Assembleia Nacional. Em ambos os casos, quer o chefe de Estado quer a FSLN surgem como favoritos num universo de 3,4 milhões de eleitores.

As eleições irão decorrer num quadro em que a oposição acusa Ortega, de 70 anos, e a sua família de quererem perpetuar-se no poder e a FSLN, por seu lado, de querer hegemonizar o poder. Uma estratégia de cujo exemplo mais recente foi o afastamento no final de julho de todos os deputados dos partidos da oposição da Assembleia Nacional, num processo iniciado em junho, quando o Supremo nicaraguense afastou Eduardo Montealegre da direção do Partido Liberal Independente (PLI, principal força da oposição).

A 29 de julho, o Tribunal Eleitoral retirou os mandatos a todos os 16 deputados e aos 12 suplentes do PLI e de uma outra formação oposicionista, o Movimento de Renovação Sandinista (MRS, resultado de uma cisão na FSLN), deixando no Parlamento apenas o partido no poder e seus aliados.

Noutro desenvolvimento, um candidato da oposição, Luis Callejas, foi impedido de se apresentar às presidenciais.

Após um período de relativo pluralismo, a FSLN e Ortega, à semelhança do sucedido no primeiro momento em que estiveram no poder desde os anos 1980, voltaram a apertar o controlo sobre o aparelho de Estado e a sociedade na Nicarágua, que aponta cada vez mais no sentido de um regime de partido único, consideram diferentes analistas.

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