ONU pressiona Rússia a passar para 48 horas o cessar-fogo em Aleppo

Antiga capital económica da Síria está sem distribuição de água. Representantes das Nações Unidas consideram indispensável dois dias por semana sem combates para realizar operações de ajuda humanitária na cidade

As Nações Unidas estão a pressionar a Rússia para que, em vez das três horas diárias de cessar-fogo atualmente em vigor em Aleppo, se passe a respeitar um cessar-fogo semanal de 48 horas. O representante da ONU para a operação humanitária na Síria, o norueguês Jan Egeland, considerou excessivamente reduzida e impraticável a suspensão das hostilidades por apenas 180 minutos. Tanto mais que, neste período de tempo, prosseguem os confrontos e os duelos de artilharia entre as diferentes fações que se combatem na cidade.

"Necessitamos em absoluto de um período de 48 horas porque os comboios de veículos têm de ser muito grandes, devido ao largo número de pessoas [em Aleppo], e porque as estradas estão em péssimas condições, destruídas ou minadas, e a logística de todo o processo é complexa. Por isso, precisamos de 48 horas por semana", explicou Egeland, anunciando terem principiado ontem contactos com a delegação russa presente em Genebra, que irão continuar hoje, na tentativa de se chegar a acordo nesta questão.

O enviado especial da ONU para a Síria, Staffan de Mistura, reconheceu que a trégua de três horas não estava a ser observada, não passando de uma declaração e em que nada sucede a seguir". A Rússia, principal aliado do regime de Bashar al-Assad em conjunto com o Irão, anunciou quarta-feira o cessar-fogo diário de três horas para permitir a entrada da ajuda humanitária em Aleppo. A cessação de operações - terrestres e áreas - verifica-se entre as 10:00 e as 13:00 locais, menos duas horas em Portugal, e o anúncio surgiu após repetidas insistências da ONU e na sequência de violentos confrontos sucedidos nos dias anteriores.

Aleppo, segunda cidade da Síria e principal centro económico do país antes do início da guerra civil em 2011, tem sido palco de combates nos últimos quatro anos, estando dividida entre as forças do regime de Damasco, as milícias da oposição e curdas, além do Estado Islâmico (EI).

Os combates dos últimos dias produziram uma alteração nas áreas sob controlo dos diferentes grupos, com as forças da oposição a conseguirem romper o cerco a que estavam sujeitas pelas tropas de Assad, apoiadas por combatentes iranianos e do Hezbollah libanês. Noutro plano, obuses de artilharia inutilizaram a central de captação e distribuição de água, que deixou de funcionar. Atualmente, a única forma de obter água é através de furos que permitem chegar a lençóis subterrâneos.

Segundo estimativas da ONU permanecem na cidade cerca de dois milhões de pessoas. Uma porta-voz da Cruz Vermelha Internacional, Ingy Sedky, explicou à Reuters que a captação de água através dos furos "é perigosa (...) devido aos bombardeamentos e combates". Salientou ainda que a água armazenada em cisternas e poços irá esgotar-se a curto prazo. A Reuters nota que a Organização Mundial de Saúde definiu 20 litros como o volume de água necessário para a higiene diária de uma pessoa.

Depoimentos recolhidos na cidade, quer durante a presença dos comboios humanitários quer por telefone, indicam que tudo é feito para poupar água. "Lavamo-nos só à sexta-feira. Tivemos de nos habituar a viver assim, a economizar água para que dure mais tempo", disse Abu Ghayth à Reuters.

Numa demonstração da situação crítica que se vive em Aleppo, um grupo de 15 dos 35 médicos que permanecem na parte oriental da cidade, sob controlo das forças de oposição, divulgou uma carta aberta ao presidente americano, pedindo a sua urgente intervenção para minimizar os perigos a que estão sujeitos os cerca de 250 mil a 260 mil civis ainda a viverem neste setor. Os médicos alertam Barack Obama que, a prosseguirem ao ritmo atual os ataques a instalações hospitalares, nenhuma delas estará operacional no fim do corrente mês. Na referida carta são referidos 42 ataques a hospitais e edifícios conexos no mês de julho.

Para os signatários, "o mundo tem-se limitado a observar o que sucede e como é "complexa" a Síria, e pouco fazendo para nos proteger. As recentes propostas à população feita pelo regime [de Assad] e pela Rússia soam a ameaças mal veladas aos residentes [nesta parte da cidade] - saiam agora ou enfrentem o quê?". A "inação" dos Estados Unidos equivale a "partilhar a responsabilidade" dos "crimes cometidos pelo governo sírio e pelo seu aliado russo", declaram os médicos.

Mais um desses "crimes" terá sido o lançamento de gás cloro sobre uma parte de Aleppo nas mãos da oposição. Quatro pessoas morreram e outras tiveram de ser tratadas. Um médico declarou à BBC não haver dúvidas de que se tratava de cloro. A ONU iniciou uma investigação ao caso.

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