Offshores levam ministro de Rajoy a pedir demissão

José Manuel Soria acabou por não resistir às notícias que o envolvem nos Papéis do Panamá e abandonou pasta da Indústria

A decisão terá sido tomada durante a noite. Por volta das 08.00 da manhã de ontem, José Manuel Soria telefonou a Mariano Rajoy e apresentou ao primeiro-ministro espanhol em funções a sua demissão da pasta da Indústria.

Uma hora mais tarde era divulgado o comunicado. No documento, o ministro justifica a saída de cena pelos "erros cometidos nos últimos dias" ao tentar justificar as suas ligações a empresas offshore, que vieram à tona com o escândalo dos Papéis do Panamá. "Considerando os estragos evidentes que esta situação está a causar ao governo de Espanha, ao Partido Popular (PP), aos meus companheiros de militância e aos eleitores, comunico a decisão irrevogável de apresentar a minha renúncia ao cargo", pode ler-se na comunicação que enviou aos assessores de imprensa do Executivo.

Soria anunciou também o abandono de todas as atividades políticas, abdicando do lugar de deputado e de presidente do PP nas Canárias: "A política é uma atividade que deve ser exemplar em todos os momentos, também na pedagogia e nas explicações. Quando assim não acontece, devem assumir-se as responsabilidades correspondentes".

Ao longo da semana a situação foi-se tornando insustentável. Tudo começou na segunda-feira, quando surgiram as primeiras notícias que envolviam o ministro da Indústria no caso dos Papéis do Panamá. O jornal El Confidencial e a estação televisiva La Sexta revelaram que o nome e a assinatura de Soria figuravam num documento do escritório de advogados Mossack Fonseca, com data de 1992. O governante aparecia como administrador de uma firma nas Bahamas. Soria clamou inocência e foi assertivo ao afirmar que nunca tivera qualquer empresa em paraísos fiscais.

Não tardou até que novas revelações começassem a erodir a credibilidade do ministro e a consistência das suas explicações. "Soava como um pugilista à beira do KO, tentando chegar-se às cordas do ringue à procura de apoio". É assim que o El País descreve o estado de espírito de Soria quando o contactaram ao início da tarde de quinta-feira. O murro fatal tinha sido desferido nessa manhã, com a publicação de um documento em que as assinaturas do ministro e do seu irmão apareciam como administradores de uma outra firma, sediada na Ilha de Jersey, um dos principais paraísos ficais europeus. A data era de 2002, época em que Soria ocupava o cargo de presidente da câmara de Las Palmas. "Estou a analisar tudo para eu próprio perceber o que se passou. Não faço ideia de onde saiu esse documento. É óbvio que essa é a minha assinatura, mas não me recordo de ter assinado esse papel", disse Soria ao El País, enquanto tentava recuar até às cordas do ringue. "Reconheceu que se tinha deixado enredar num labirinto e que não sabia como tinha ido parar lá dentro", escreve o jornalista Rafa de Miguel no diário espanhol.

Para Soria a única saída possível do entrelaçado de contradições em que se tinha afundado era fechar a porta e entregar as chaves do gabinete. Foi isso que fez quando ontem de manhã pegou no telefone para ligar ao chefe do governo.

José Manuel Soria era ministro da Indústria desde o final de 2011. Rajoy, porque o executivo se encontra em gestão, está impedido de o substituir.

Da Rússia com perdão

Também na Rússia os Papéis do Panamá continuam a dar que falar e a motivar pedidos de desculpa. Desta vez foi o Kremlin a pedir perdão à Goldman Sachs e ao jornal Suddeutsche Zeitung, que fez as primeiras revelações sobre o caso.

Os assessores de Vladimir Putin informaram-no erradamente de que o banco norte-americano detinha o diário alemão e o presidente russo repetiu várias vezes essa informação numa entrevista telefónica a uma televisão estatal.

Putin viu o seu nome envolvido nos Papéis do Panamá depois de aparecerem notícias que ligavam o violoncelista Sergei Roldugin - um dos melhores amigos do presidente russo - a várias offshore.

Na mesma conversa telefónica com a nação, Putin admitiu que a informação divulgada pelos jornais é verdadeira, mas que não o implica de forma alguma.

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