O que se segue para os líderes dos principais partidos espanhóis?

Rajoy, líder do PP, consolidou a liderança e ninguém se atreverá agora a disputar-lha. O mesmo não se poderá dizer dos líderes do PSOE e do Podemos, Pedro Sánchez e Pablo Iglesias. Na Esquerda Unida, Alberto Garzón permanece tranquilo e satisfeito com a aliança ao Podemos. E Albert Rivera, do Ciudadanos, ainda pode salvar a face se vier aceitar entrar num governo liderado por Rajoy

O que se segue para os líderes dos principais partidos espanhóis?

Mariano Rajoy - Líder do PP
Liderança blindada na Moncloa e no Partido Popular

Mariano Rajoy não conseguiu a maioria absoluta conquistada nas eleições de 2011, é certo, mas no domingo viu o seu Partido Popular aumentar os votos em relação às legislativas de 20 de dezembro sem que para o conseguir tenha feito qualquer coisa de extraordinário. Em relação ao escrutínio de há seis meses, os populares elegeram mais 14 deputados e obtiveram mais meio milhão de votos. "Ganhámos as eleições e temos direito a governar", declarou o primeiro-ministro em funções, que chegou à liderança do PP em outubro de 2004, sucedendo a José María Aznar. Várias vezes acusado de falta de carisma, o político galego de 61 anos viu agora a sua liderança blindada. Tanto no caminho para a Moncloa como nas rédeas do PP. Alguns dos rostos que podiam ter disputado a liderança a Rajoy, como Soraya Sáenz de Santamaría ou María Dolores de Cospedal, não avançaram. Preferiram esperar para ver - tal como ele fez. Agora, calou de vez (ou durante um largo período) os críticos e todos os que pediram a sua cabeça. Rajoy sai como o único vencedor de 26 de junho, face a todos os rivais.

Pedro Sánchez - líder do PSOE
Crise interna à vista apesar de ter conservado o segundo lugar

Pedro Sánchez conseguiu manter o PSOE como segundo partido mais votado em Espanha nas legislativas de domingo, evitando ser ultrapassado pela coligação Unidos Podemos. Isso poderia dar algum alento ao jovem líder socialista escolhido através de primárias em julho de 2014. Porém, a crise interna no partido está à espreita e a única incógnita é o dia em que vai rebentar. Se nas legislativas de 20 de dezembro o PSOE tinha conseguido o seu pior resultado de sempre, ficando abaixo dos cem deputados, no escrutínio de domingo ficou abaixo dos 90. Da última vez, Sánchez, de 43 anos, enfrentou o debate de investidura, após fechar um acordo de governação com o Ciudadanos. Mas falhou. Desta vez nem sequer está em posição de avançar. Resta-lhe esperar. O partido reúne o comité federal a 9 de julho, mas já há divisões entre quem diz que se deve viabilizar um governo Rajoy e quem defende novo bloqueio. Da Andaluzia, surgiu logo ontem a voz da presidente do governo autónomo, Susana Díaz, pedindo uma "reflexão profunda" e dizendo que agora é preciso "reconstruir o PSOE".

Pablo Iglesias - Líder do Podemos
Ultrapassagem pela esquerda falhou e originou um duro revés

Assumidamente "insatisfeito" com o resultado das legislativas deste domingo em Espanha, o líder do Podemos, Pablo Iglesias, tenta agora perceber o que falhou nos seus cálculos. Fenómeno nascido do descontentamento dos cidadãos com a austeridade, o desemprego e as fracas perspetivas de futuro, o Podemos recusou entrar em qualquer acordo de governo após o 20 de dezembro. Na altura, Iglesias indicou que até estaria disposto a estudar uma aliança com o PSOE, mas se Sánchez deixasse para trás o Ciudadanos de Albert Rivera. Tal não aconteceu. E ele não parece ter-se importado muito. Percebendo que poderia ter mais votos se, para a votação de 26 de junho, concorresse coligado com a Esquerda Unida, lançou o Unidos Podemos. A ultrapassagem pela esquerda ao PSOE falhou: as duas forças políticas juntas (incluindo respetivas confluências) somaram os mesmos 71 deputados do que conseguira em dezembro. E perderam 1,2 milhões de votos. Depois disto, as divisões internas que já fizeram prova de vida várias vezes poderão ressurgir. E a liderança de Iglesias, de 37 anos, ficar comprometida.

Alberto Garzón - Líder da Esquerda Unida
A boleia acabou mal mas agora não aceita ficar apeado

Apesar de a coligação Unidos Podemos não ter conseguido ultrapassar pela esquerda o PSOE e roubar-lhe o segundo lugar, o líder da Esquerda Unida, Alberto Garzón, continua a achar que foi boa ideia apanhar boleia do Podemos de Pablo Iglesias nestas eleições. "Se tivéssemos concorrido em separado teria sido provavelmente pior para ambos porque teríamos fragmentado o voto", declarou Garzón, que lidera a Esquerda Unida desde junho, altura em que sucedeu ao histórico Cayo Lara. Aos 30 anos, apanhou o partido em plena queda. Depois de, nas eleições de 2011, ter subido até aos 11 deputados (há quem diga que à boleia do efeito do movimento 15-M), nas de 20 de dezembro conseguiu apenas dois eleitos. Máriam Martínez-Bascuñán escrevia ontem no El País: "A verdadeira liderança implica atrair as pessoas para o espaço político que se está a criar, não determinar uma estratégia em conformidade com a posição que as sondagens estão a dar na altura". Quer dizer que para criar um novo espaço político não basta somar dois partidos, só porque ambos são de esquerda.

Albert Rivera - Líder do Ciudadanos
Quem tudo quer tudo perde (ou talvez aceite umas migalhas)

Tempos houve em que Albert Rivera, um jovem advogado de Barcelona, com 36 anos, assumiu abertamente a sua ambição de ser o próximo primeiro-ministro de Espanha. Sentia-se encorajado com a subida do Ciudadanos, o partido que ajudou a fundar em junho de 2006 para contestar a ideia da independência daquela autonomia. Se é de centro-esquerda ou de centro-direita, nunca desfez a ambiguidade, talvez na esperança de se poder movimentar num espaço político mais amplo possível. Nas eleições autonómicas de 27 de setembro de 2015, o Ciudadanos, que tinha como candidata Inés Arrimadas, conseguiu ser o segundo partido mais votado, com 17,90% dos votos. E de nove deputados, passou para os 25. Nas legislativas espanholas de 20 de dezembro, o Ciudadanos ficou, porém, em quarto lugar. Fez um pacto, que falhou, com o PSOE de Pedro Sánchez e, durante a campanha para as eleições de domingo, Rivera atacou tanto o PP como o PSOE. Tudo queria para o Ciudadanos, mas pode ficar sem nada. A menos que aceite ainda aliar-se ao PP e aos nacionalistas bascos e canários.

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