"O problema na UE e nos EUA é o autoritarismo populista"

Responsável de ONG explica ao DN algumas principais conclusões de relatório sobre os direitos humanos em 2016. Situação deteriorou-se em Angola e Moçambique.

A demagogia continua a ser hoje uma arma política tão ou mais importante e temível como foi no passado. Facto constatado pelo relatório da Human Rights Watch (HRW) sobre a situação dos direitos humanos no mundo em 2016, documento que identifica dois novos riscos na atual conjuntura: um, diretamente relacionado com o recurso à demagogia por líderes populistas para manipularem os receios e preocupações das pessoas; o outro, é o reforço das medidas de segurança fundamentadas na necessidade de uma mais eficaz luta contra o terrorismo, mas esquecendo por vezes o respeito pelos direitos, liberdades e garantias individuais.

As principais conclusões do documento foram explicadas pelo vice-presidente da HRW, Iain Levine, em conversa telefónica com o DN a partir de Nova Iorque. "O problema na União Europeia e nos Estado Unidos é o autoritarismo populista. Disso são exemplo Donald Trump, nos EUA, ou Marine Le Pen, Nigel Farage e Geert Wilders na Europa. Uns e outros tentam mobilizar a população dos seus países contra certas minorias", afirma Levine. Se nos EUA, a ameaça agitada por Trump são os imigrantes do México, mas também os muçulmanos, estes últimos estão no centro do discurso "xenófobo e racista" dos populistas europeus, em paralelo com os refugiados e migrantes económicos, muitas vezes associados de forma indiscriminada aos seguidores do islão. E o dirigente da HRW recorda uma história ligada ao passado familiar para ilustrar esta realidade. "Quando o meu avô fugiu da Lituânia para a Grã-Bretanha, em 1901 [num fenómeno que abrangeu populações judaicas nos territórios do império russo e da Europa Central], nessa época, se formos ver os jornais, as pessoas que chegavam eram rotuladas quase com a mesma linguagem usada agora".

Se o presidente eleito dos EUA e a líder da extrema-direita francesa "são diferentes. Mas eles, e os restantes, estão a responder a uma tendência presente hoje em todo o mundo: os receios das pessoas que se sentem deixadas para trás pela globalização, deixadas para trás económica e culturalmente", considera o responsável da HRW. A procurar capitalizar este sentimento, Marine Le Pen e seus aliados preparam uma "contra-cimeira europeia" sábado, dia 21, em Koblenz, com a inesperada presença da co-dirigente dos eurocéticos da AfD, Frauke Petry. Um desenvolvimento perturbador, pois este partido recusara alinhar com o discurso xenófobo da extrema-direita.

Como é referido na apresentação do relatório: "Todos afirmam que o público aceita as violações dos direitos humanos como necessárias para garantir postos de trabalho, evitar mudanças culturais ou atos terroristas. Mas, de facto, a violação dos direitos humanos é o caminho mais curto para a tirania". Referidas no relatório são as situações na Rússia, na China ou na Síria de Bashar al-Assad. De outro modo, algo sucede nas Filipinas com as execuções extrajudiciais apoiadas pelo presidente Rodrigo Duterte. Este "está a convencer a população de que estas pessoas [os traficantes de droga] não têm direitos. É um excelente e terrível exemplo de populismo autoritário", diz Levine.

Por estes casos, salienta o vice-presidente da HRW, uma das maiores prioridades para 2017 é o de "combater a discriminação, seja sob que forma for". Além desta área, Levine enumerou outros centros de preocupação, como a Síria, Sudão do Sul ou Venezuela, entre outros.

No espaço da lusofonia, o relatório da HRW nota a deterioração da situação em Angola e Moçambique. No primeiro caso, resultado da "pior crise económica" desde 2002; no segundo caso, devido à "tensão crescente entre o governo" e a Renamo, com as populações a serem vítimas de execuções arbitrárias e violência sexual.

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