O presidente que vai continuar a levar os filhos à escola

Após 20 anos com o mesmo chefe do Estado, o país elegeu um independente, Guoni Jóhannesson, historiador e professor

Afastou-se da fé quando era adolescente, depois de o pai, professor de Educação Física, ter morrido com cancro com apenas 42 anos. Aos poucos reaproximou-se da Igreja Católica, mas voltou a virar--lhe as costas perante a "pálida resposta" que a instituição deu aos escândalos de abusos sexuais de menores. "Hoje não tenho denominação religiosa, mas estou em paz com Deus e com os homens", confessa o recém-eleito presidente da Islândia, que tomará posse a 1 de agosto.

Guoni Jóhannesson, sem filiação partidária, concorreu às eleições como independente e nunca tinha assumido cargos públicos. Até agora era historiador, professor universitário e comentador político. Os apelos para que avançasse para a presidência começaram a surgir em abril, depois de o escândalo dos Papéis do Panamá ter obrigado o primeiro-ministro David Gunnlaugsson a apresentar a demissão. Jóhannesson foi chamado à televisão para comentar o assunto e os islandeses gostaram do que ouviram.

"Passou a imagem de alguém não alinhado e que tinha coisas inteligentes para dizer. A partir daí começaram os telefonemas e as mensagens pelo Facebook sugerindo que ele devia avançar", explicou a mulher, Eliza Reid, canadiana, em declarações à revista Maclean"s.

Depois de ponderar, Jóhannesson apresentou a candidatura a 5 de maio e foi eleito no dia 25 de junho com 38,5% e uma vantagem de 11 pontos para a empresária Halla Tómasdóttir, que, num total de nove candidatos, ficou na segunda posição.

Em números absolutos, num país de 330 mil habitantes, a afluência à urnas foi de 75,7% e o novo chefe do Estado venceu as eleições com 71 mil votos - menos de metade dos que foram depositados em nome de Tino de Rans nas presidenciais portuguesas.

A partir de agosto, Jóhannesson passará a ser o sexto presidente da República da Islândia desde 1944, data em o país rompeu definitivamente os laços que o ligavam à Dinamarca.

O historiador sucede assim a Ólafur Ragnar Grímsson, de 73 anos, que ocupa o cargo desde 1996, tendo cumprido cinco mandatos consecutivos. A devastadora crise financeira que atingiu o país no final da década passada e o envolvimento de políticos e banqueiros em vários escândalos financeiros levaram a que os islandeses se revoltassem contra a classe dirigente.

Desde 2008, os tribunais já condenaram a penas de prisão mais de 30 pessoas, consideradas culpadas por fraude, lavagem de dinheiro e manipulação dos mercados. Apesar da responsabilização dos culpados e do milagre da recuperação económica do país - com taxas de crescimento acima dos 3% e um desemprego que já está abaixo dos 4% -, os islandeses continuam desagradados com o sistema. Para os analistas, esse descontentamento favoreceu a candidatura de Jóhannesson, que terá recolhido o chamado voto de protesto.

Novato nas andanças da política, o recém-eleito presidente é visto como um centrista moderado. Jóhannesson é também um eurocético. "Melhor para nós, islandeses", afirmou, quando questionado sobre o brexit, explicando que pode ser que o Reino Unido venha a juntar-se à Noruega e à Islândia, fortalecendo assim o acordo que os dois parceiros nórdicos têm com a UE. Na sequência da crise financeira, em 2009, o país chegou a apresentar a sua candidatura à União Europeia, mas seis anos mais tarde retirou o pedido.

Guoni Jóhannesson nasceu a 26 de junho de 1968. Jogou andebol durante a juventude, mas não foi tão longe como Patrekur, um dos seus dois irmãos, que chegou a representar a seleção. Depois de uma licenciatura em História e Ciência Política na Universidade de Warwickshire, Jóhannesson estudou alemão e russo, tendo, em 2003, completado o doutoramento em História pela Universidade de Londres.

Foi durante as lides académicas em Inglaterra que conheceu a atual mulher, com quem viria a casar-se em 2004. Enquanto crescia em Otava, no Canadá, Eliza, hoje com 40 anos, estava longe de imaginar que um dia viria a assumir o papel de primeira-dama islandesa. Os dois têm quatro filhos, três rapazes e uma rapariga, com idades entre os 9 e os 3 anos e Jóhannesson tem ainda uma outra filha, fruto de um casamento anterior. Eliza Reid, que estudou História e Relações Internacionais, é atualmente a editora da revista distribuída nos aviões da companhia aérea islandesa e diretora do festival literário Iceland Writers Retreat.

O novo casal presidencial está quase a fazer as malas para a residência oficial do chefe do Estado, em Álftanes, uma pequena cidade a dez quilómetros da capital, Reiquiavique. "Os mais novos ainda não percebem o que a mudança envolve, mas estão entusiasmados e já estavam prevenidos para que isto pudesse acontecer", explica Jóhannesson, citado pelo Iceland Monitor, acrescentando que pretende continuar, como até agora, a levar os filhos à escola. "Quero conhecer os professores e ajudar as crianças na adaptação. Posso ser presidente, mas não deixo de ser pai de cinco filhos."

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