O político eslovaco que sentou a extrema-direita no Parlamento

Marian Kotleba foi afastado de professor por causa das suas opiniões extremistas. Apesar de recusar o rótulo de neonazi, o seu herói é um colaborador do regime de Hitler

Chama aos romani "parasitas ciganos", chama "herói nacional" a um homem condenado à morte por traição, é contra os casamentos entre pessoas do mesmo sexo, a União Europeia e a NATO. Mesmo assim, Marian Kotleba é agora o líder do quinto maior partido da Eslováquia, depois de mais de 200 mil pessoas (8%) terem votado no A Nossa Eslováquia, de extrema-direita, que conseguiu assim eleger 14 deputados.

"As pessoas decidiram e penso que este é o novo começo de uma nova era na Eslováquia. Espero que consigamos resgatar a Eslováquia do caminho que está a levar. O governo continua a favorecer políticas estrangeiras em detrimento dos interesses dos eslovacos", declarou no passado dia 5, data das legislativas, o antigo professor de 38 anos, banido das salas de aulas por causa das suas posições extremistas. Aliás, já foi mesmo acusado diversas vezes por crimes de ódio, mas nunca condenado.

Para vários analistas, a extrema-direita capitalizou a seu favor a retórica anti-imigração dos partidos tradicionais, incluindo o de Robert Fico, o ainda primeiro-ministro e vencedor destas eleições (ver texto secundário). "Robert Fico tomou uma das atitudes mais duras face à crise migratória entre os líderes da União Europeia, mas o resultado acabou por não ser o controlo dos extremistas, mas ter os extremistas no Parlamento", disse à Reuters Dalibor Rohac, do American Enterprise Institute. "Kotleba tinha candidatos abertamente fascistas na sua lista", declarou por seu lado Igor Matovic, líder do Gente Comum, o terceiro maior partido.

Os militantes da antiga formação política de Marian Kotleba, a Irmandade Eslovaca, distinguiam-se por envergarem uniformes pretos semelhante aos da Guarda de Hlinka - uma milícia de extrema-direita eslovaca que existiu na Segunda Guerra Mundial - e começaram a ser notados nos comícios em que glorificavam o padre católico Jozef Tiso - que liderou entre 1939 e 1945 a Primeira República Eslovaca, um Estado satélite da Alemanha nazi, e que acabou condenado à morte por traição. A Irmandade Eslovaca acabou por ser ilegalizada em 2006, mas continua a existir na forma de uma organização cívica.

"A maior razão para a necessidade de criar milícias é o total falhanço da polícia em proteger pessoas decentes de elementos antissociais viciosos", defendeu na campanha. "Todos os meses eles falham em impedir extremistas ciganos de violarem ou matarem alguém. A polícia, liderada pelo ministro do Interior, protege os ladrões e os parasitas".

Em 2010, Kotleba, que tem no bigode a sua imagem de marca, fundou o Partido do Povo-A Nossa Eslováquia, trocou o uniforme por um blazer e apostou em mensagens anti-romani, anti-imigração e anti-corrupção. E rejeita quaisquer laços com a ideologia nazi, preferindo sublinhar as suas críticas à União Europeia e NATO.

"Nós não somos fascistas, nem neonazis, apesar de podermos parecer extremistas quando comparados com outros partidos mais mornos", explicou recentemente Milan Uhrik, um dos 14 deputados agora eleitos.

As sondagens mostravam que o partido de Marian Kotleba era o mais popular entre os eleitores estreantes, com 23% de apoio entre este grupo. As suas críticas aos casamentos entre pessoas do mesmo sexo granjearam-lhe simpatias entre os conservadores, enquanto que as suas visitas frequentes a regiões pobres longe da capital, Bratislava, deram-lhe os votos dos locais.

O primeiro sinal de que Kotleba era um nome a ter em conta surgiu há dois anos, nas eleições locais, quando foi eleito governador da região de Banská Bystrica, derrotando na segunda volta o favorito, Vladimir Manka, com 55% dos votos. Em 2009, não tinha ido para além dos 10%.

Como governador, Kotleba reduziu a dívida da região para cerca de 5 milhões de euros, sem recorrer a empréstimos utilizando, talvez, os conhecimentos de Economia que adquiriu no seu segundo mestrado. O primeiro é em Pedagogia, também na Universidade Matej Bel, em Banská Bystrica, a cidade que partilha o nome com a região e onde nasceu a 7 de abril de 1977.

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