O político Batman que tinha o desejo de salvar o mundo

Hans-Dietrich Genscher, chefe da diplomacia alemã entre 1974 e 1992 e um dos obreiros da reunificação, morreu aos 89 anos

Praga, Checoslováquia, 30 de setembro de 1989. Um homem, à varanda da embaixada da Alemanha Ocidental, dirige-se aos milhares de refugiados da Alemanha comunista acampados no jardim: "Estamos aqui para vos dizer que a autorização para a vossa saída...". Os gritos de alegria da multidão engoliram as últimas palavras. Depois de uma longa espera, podiam por fim atravessar a Cortina de Ferro e partir para o Ocidente. O homem que tinha acabado de comunicar-lhes a boa-nova era Hans-Dietrich Genscher. Morreu nesta quinta-feira à noite, em casa perto de Bona.

Considerado um dos maiores políticos alemães do pós-guerra, Genscher foi ministro do Interior do chanceler Willy Brandt entre 1969 e 1974 e, de 1974 a 1992, ocupou a pasta dos Negócios Estrangeiros nos governos de Helmut Schmidt e de Helmut Kohl.

"Éramos muito amigos. Foi um homem brilhante, que teve um papel crucial na reunificação alemã. Durante as reuniões decisivas do processo, havia países na NATO que não estavam muito para aí virados, como a França e a Itália. Mas ele foi buscar os comunicados da organização desde tempos imemoriais e, num tom absolutamente extraordinário, leu aquilo que a NATO há já muitos anos dizia em favor da reunificação alemã. Deixou todos sem palavra", recorda João de Deus Pinheiro, ex-ministro português dos Negócios Estrangeiros (1987-92), em declarações ao DN.

A tragédia de Munique em 1972

Hans-Dietrich Genscher nasceu em 1927, perto da cidade de Halle. Aos 16 anos, nos últimos meses da II Guerra Mundial, foi obrigado a alistar-se na força aérea alemã e acabou prisioneiro do exército americano.

No pós-guerra formou-se em Direito, em Leipzig, e, em 1952, desiludido com o comunismo na Alemanha de Leste, fugiu para o lado ocidental do país. Foi então que se iniciou na política, juntando-se aos liberais do FDP, formação que viria a liderar entre 1974 e 1985.

O reconhecimento internacional chegou com o cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros. A revista satírica alemã Titanic, apelidou-o de "Genschman", numa alusão ao super-herói Batman e ao seu desejo de salvar o mundo.

Ontem, a propósito da sua morte, o jornal Washington Post recordava uma história: "Eduard Shevardnadze, à época chefe da diplomacia soviética, disse certa vez que "sempre que dois aviões cruzam o Atlântico Genscher está dentro de ambos"".

Se aquele momento em Praga foi sempre recordado pelo político alemão como o mais comovente da sua carreira, o mais dramático viveu-o em 1972. Era ele o ministro do Interior quando, durante os Jogos Olímpicos de Munique, 11 atletas israelitas forem feitos reféns por um grupo palestiniano de terroristas. Todos morreram e Genscher era o político responsável.

João de Deus Pinheiro recorda o humor do amigo. "Um dia perguntei-lhe se ele alguma vez tinha sentido medo. Respondeu-me que sim, mas nunca tanto como quando se portava mal e a mulher se zangava com ele". O ex-ministro português relembra ainda duas imagens de marca de Genscher - "andava sempre com um pullover amarelo sem mangas e não gostava de deixar comida no prato" - e mais uma história reveladora da sua personalidade. "Às vezes, quando estava no gabinete dele e telefonavam colegas nossos, atendia eu o telefone a fingir que era ele". Deus Pinheiro faz ainda questão de acrescentar que o seu ex-homólogo alemão "foi um grande amigo de Portugal, de grande ajuda na integração europeia".

O maior muro da vida de Hans-Dietrich Genscher, o de Berlim - depois do golpe fatal que ele próprio lhe desferiu naquela varanda em Praga -, caiu em 1989. E ele morreu aos 89 anos.

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