O polémico Fogo e Fúria chega em tempo recorde às livrarias portuguesas

O livro de Michael Wolff sobre Donald Trump está disponível a partir de amanhã em português. Leia a pré-publicação

Todo o sucesso de vendas com que o jornalista norte-americano Michael Wolff pudesse sonhar para a sua polémica investigação sobre o presidente Donald Trump ficou abaixo das suas expectativas. Fogo e Fúria, o livro que foi publicado dias antes da data marcada para evitar que o inquilino da Casa Branca fosse capaz de proibir a edição, já superou a fasquia dos dois milhões de exemplares e não para de ser reeditado.

Um número quase impensável, mesmo que fosse um livro rodeado de muitos casos antes de ser publicado, por questionar o presidente em toda a linha. E que ainda deverá somar muitas centenas de milhar de exemplares aos já vendidos por via das traduções que se sucedem em vários países. Portugal é um desses casos, pois a editora Actual coloca Fogo e Fúria amanhã nas livrarias, numa tradução feita em tempo recorde para aproveitar a embalagem internacional e o apetite dos leitores portugueses pelo seu conteúdo e que já está a destacar-se nas pré-vendas.

Fogo e Fúria é a investigação mais destrutiva sobre um presidente americano, facto a que acresce ter sido lançado a poucos dias de completar o primeiro ano de mandato da governação norte-americana, podendo tornar-se um dos maiores argumentos para a campanha em curso pela sua demissão. Além de revelar que a vitória de Trump foi uma surpresa para o próprio, a investigação de Wolff transcreve depoimentos de altas figuras da própria administração, que o consideram mentalmente instável e de reagir como um adolescente, bem como os bastidores da família e assessores no envolvimento da Rússia em seu benefício na campanha eleitoral ou o complexo processo de encobrimento das tentativas do presidente em bloquear as investigações do FBI.

O volume resulta de dezenas de entrevistas gravadas, o que contraria a acusação de Trump sobre Fogo e Fúria ser uma "obra de ficção". O DN faz hoje a pré-publicação de parte do capítulo em que se descreve a relação presidencial com a comunicação social.

PRÉ-PUBLICAÇÃO: Fogo e Fúria

A Comunicação Social

A 19 de abril, Bill O"Reilly, o pivô da Fox e maior estrela dos canais de notícias por cabo, foi afastado pela família Murdoch por acusações de assédio sexual. Era a continuação da purga na estação televisiva, que começara nove meses antes com o despedimento do seu chefe Roger Ailes. A Fox atingira a sua maior influência política com a eleição de Donald Trump, mas agora o futuro do canal parecia encontrar-se num marasmo provocado pela família Murdoch, algures entre o pai conservador e os filhos liberais.

No isolamento da sua nova casa em frente ao mar de Palm Beach (estava impedido, por acordo de rescisão com a Fox, de competir contra ela durante um ano e meio), Roger Ailes enviou, poucas horas após a notícia da demissão de O"Reilly, um emissário à ala oeste com uma questão para Steve Bannon: "O"Reilly e Hannity alinham. E quanto a ti?" Em segredo, Ailes tinha andado a maquinar o seu regresso com uma nova cadeia de televisão conservadora. A viver o seu exílio no interior da Casa Branca, Bannon - "o Ailes que se segue" - foi todo ouvidos.

Isto não era apenas uma conspiração de homens ambiciosos em busca de oportunidades e de vingança; a ideia de uma nova cadeia televisiva era também insuflada pela perceção premente de que o fenómeno Trump estava correlacionado - mais do que com outra coisa qualquer - com os meios de comunicação mais conservadores. Durante vinte anos, a Fox aprimorara a sua abordagem populista: os liberais estavam a roubar e a arruinar o país. Depois, precisamente na altura em que muitos liberais - incluindo os filhos de Rupert Murdoch, que detinham cada vez maior controlo sobre a companhia do pai - tinham começado a acreditar que a audiência da Fox estava a ficar envelhecida, com as suas mensagens contra o casamento homossexual, contra o aborto e contra a imigração, as quais pareciam demasiado obsoletas para os jovens republicanos, apareceu o site Breitbart News, que não só se dirigia a uma audiência de direita bastante mais nova - aqui, Bannon sentia que estava tão em sintonia com a sua audiência como Ailes com a sua - como ainda a transformava num enorme exército de ativistas digitais (ou trolls das redes sociais).

Enquanto os órgãos de informação mais à direita se coligavam com impetuosidade em torno de Trump - desculpando-o de imediato por todos os meios sempre que ele renegava os valores tradicionais dos conservadores -, a comunicação social dominante tornava-se combativamente resiliente. O país encontrava-se tão dividido pela política como pelos meios de comunicação. Os media eram a personificação da política.

Marginalizado, Ailes estava ansioso por voltar a entrar no jogo. Este era, por natureza, o seu "recinto desportivo": (1) A eleição de Trump comprovou o poder de uma base eleitoral significativamente menor, mas mais dedicada - por outras palavras, uma pequena base de apoio sectária mas devotada era mais valiosa do que uma grande e menos empenhada; (2) verificava-se assim uma inversão proporcional entre o número de apoiantes e a força da sua paixão; (3) em conclusão, haveria sangue.

Se, tal como parecia, Bannon estava por um fio na Casa Branca, esta era também a sua oportunidade. De facto, o problema com a sua Breitbart News, sob total dependência da internet, era o de ser um empreendimento orçado em 1,5 mil milhões de dólares anuais que dificilmente produzia lucros e sem qualquer plano de expansão em larga escala; contudo, com O"Reilly e Hannity a bordo, poder-se-ia contar com pródigas receitas provenientes de um canal de televisão fomentado, num futuro não muito distante, por uma nova era de arrebatamento e de hegemonia de direita centrada na figura de Trump.

A mensagem de Ailes para o seu futuro protegido era clara: o momento de Bannon poderia ser não só o da ascensão de Trump mas também o da queda da Fox.

Em resposta, Bannon informou Ailes que, de momento, estava a tentar manter a sua posição na Casa Branca. Mas sim, a oportunidade era óbvia.

Mesmo que o destino de O"Reilly estivesse a ser debatido pela família Murdoch, Trump reconhecia o seu poder e tinha consciência de como as audiências do apresentador se sobrepunham à sua própria base eleitoral, não lhe renegando por isso apoio e aprovação - "Não creio que Bill tenha feito algo de mal... É um bom homem", afirmou ao The New York Times.

Contudo, o próprio Trump era um paradoxo da nova força dos media conservadores. Durante a campanha, quando lhe deu jeito, voltou-se para a Fox. Se surgissem outras oportunidades na comunicação social, ele aproveitá-las-ia (no passado recente, os republicanos, em particular nas primárias, prestaram um reverente desvelo à Fox, em detrimento de outros meios de comunicação). Mas, por outro lado, Trump continuava a insistir que era maior do que todos os órgãos de comunicação conservadores.

Ailes, que em tempos recentes telefonava com frequência a Trump e lhe servia de conselheiro pós-jantar, quase deixara de lhe falar, atiçado pelos constantes relatos de que o magnata passara a dizer mal dele ao mesmo tempo que não poupava elogios a um Murdoch que, se antes das eleições ridicularizara o candidato, se mostrava agora atencioso para com o presidente.

"Um homem que exige a maior lealdade tem tendência para ser o menos leal dos canalhas", referiu Ailes com ironia (um homem que exigia, ele mesmo, extrema lealdade).

A singularidade deste caso é que a comunicação social conservadora via Trump como a sua criação, enquanto Trump se via a si próprio como uma estrela, vangloriado e valorizado em todos os media, elevando-se cada vez mais alto. Era o culto da personalidade e a personalidade era ele. Era o homem mais famoso do mundo. Todos o adoravam - ou, se não o adoravam, deviam.

Por parte de Trump isto era, discutivelmente, uma espécie de mal-entendido sobre a natureza da comunicação social conservadora. Era evidente que não compreendia que aqueles que os meios conservadores faziam subir eram precisamente aqueles que os liberais deitavam abaixo. Instigado por Bannon, Trump continuaria a agir para agradar aos meios conservadores e incorreria na aversão dos liberais. Era esse o plano de ação. Quanto mais amado pelos seus apoiantes, mais odiado pelos seus antagonistas. Era assim que as coisas funcionavam. E era assim que devia ser.

Mas Trump sentia-se desesperadamente magoado pela forma como os meios de comunicação convencional, o chamado mainstream, o tratavam. Ficava obcecado com qualquer desconsideração até ela ser substituída por outra. As referências menos corteses eram vistas e revistas vezes sem conta no sistema de gravação de vídeo, que estava sempre a ligar, e o seu humor piorava a cada repetição. Grande parte da sua conversa diária não passava de uma infindável recapitulação do que os vários pivôs e comentadores tinham dito sobre ele. E ficava transtornado não só quando era ele o alvo dos ataques mas também com os que eram desferidos contra as pessoas à sua volta. Porém, não entendia as indignidades infligidas ao seu pessoal como resultado da lealdade destes para com ele e muito menos se culpava a si próprio ou à natureza dos media liberais; culpava antes a sua gente, pela incapacidade que demonstrava em não conseguir boa imprensa.

A presunção dos media mainstream e o desprezo por Trump ajudavam a provocar um vendaval de cliques nos sites de direita. Todavia, um presidente frequentemente irado, com pena de si mesmo e atormentado, não conseguia entender esta mensagem. Procurava o amor dos jornalistas por toda a parte. Parecia profundamente incapaz de distinguir entre o que eram as suas vantagens políticas e as suas necessidades pessoais - pensava de forma emocional e não estratégica.

Sob o seu ponto de vista, a grande vantagem de se ser presidente era ser-se também o homem mais famoso do mundo e a fama é sempre venerada e adorada pela comunicação social, não é assim? Contudo, desconcertantemente, Trump tinha em larga medida sido eleito devido ao seu talento natural para, de forma consciente ou reflexiva, provocar a animosidade da comunicação social que, por sua vez, o transformava no alvo a denegrir. Uma relação dialética pouco confortável para um homem inseguro.

"Para Trump", referia Ailes, "a comunicação social, muito mais do que a política, representava poder, e ele queria a atenção e respeito dos seus agentes mais poderosos. Donald e eu éramos amigos há mais de 25 anos, mas ele acabaria por preferir tornar-se amigo de Murdoch, que sempre o achou um imbecil - pelo menos até ele se ter tornado presidente."

O jantar de correspondentes da Casa Branca foi marcado para 29 de abril, o centésimo dia da administração Trump. O jantar anual, outrora um evento interno, transformara-se numa oportunidade para as organizações de media se autopromoverem, recrutando celebridades para se sentarem às suas mesas - a maior parte das quais nada tinham que ver com jornalismo ou com política. Este jantar dera ensejo a uma notável humilhação a Trump quando, em 2011, Barack Obama o apontara como alvo de troça. Para Trump, esta foi a afronta que o instigou a concorrer às eleições de 2016.

Não muito depois da chegada da sua equipa à Casa Branca, o jantar de correspondentes tornou-se fonte de preocupação. Numa tarde invernosa, no gabinete de Kellyanne Conway, no piso superior da ala oeste, esta e Hope Hicks estavam envolvidas numa penosa discussão sobre o que fazer.

O problema central era que o presidente não estava disposto a divertir-se à sua própria custa nem era, ele próprio, particularmente divertido - pelo menos "não nesse género de humor", ressalvou Conway.

George W. Bush resistira, famosamente, aos jantares de correspondentes e sofria bastante com eles, mas preparava-se afanosamente e todos os anos conseguia alcançar um desempenho aceitável. Porém, agora, nenhuma das mulheres sentadas em volta da pequena mesa do gabinete de Conway, e confiando as suas preocupações a um jornalista que lhes parecia compassivo, achava realista que Trump tivesse a mínima hipótese de fazer do jantar um evento de sucesso.

- Ele não aprecia o tipo de humor cruel - disse Conwell.

- Tem um estilo mais antiquado - respondeu Hicks.

Encarando claramente o jantar de correspondentes como uma tarefa espinhosa, ambas o apodavam de um acontecimento "injusto" que, de uma maneira geral, era também como classificavam a imagem que os media davam de Trump. "Ele não é retratado de forma justa." "Não lhe dão o benefício da dúvida." "Não o tratam do mesmo modo que tratavam os outros presidentes."

Conway e Hicks já tinham entendido, e era esse o seu fardo, que o presidente não percecionava a falta de consideração que os media nutriam por ele como a consequência de uma mera divisão política, em que ele se encontrava num dos lados. Antes pelo contrário, ele encarava tais desconsiderações como um profundo ataque pessoal: por razões totalmente injustas, razões ad hominem, a comunicação social não gostava dele. Ridicularizava-o. Com crueldade. Porquê?

Numa tentativa de as confortar, o jornalista disse às duas mulheres que circulava o rumor de que Graydon Carter - o editor da Vanity Fair, anfitrião de uma das receções mais importantes associadas ao jantar de correspondentes e, desde há décadas, um dos principais algozes de Trump nos meios de comunicação - iria em breve ser corrido da revista.

- A sério? - Hicks dera um salto. - Oh, meu Deus. Posso contar--lhe? Não há problema? Ele vai querer saber uma coisa dessas.

Desceu rapidamente, em direção à Sala Oval.

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Curiosamente, Hicks e Conway espelhavam, cada uma à sua maneira, as duas facetas do alter ego do presidente na sua problemática relação com os media. Conway era a portadora das más novas e a antagonista cheia de azedume, aquela que, fatalmente, provocava nos jornalistas paroxismos de indignação contra Trump. Hicks, por outro lado, era a confidente que tentava trazer--lhe alguma acalmia e também um ou outro artigo positivo repescado da única imprensa que realmente lhe importava - aquela que mais o odiava. Todavia, por muito diferentes que fossem em temperamento e nas funções que desempenhavam junto dos meios de comunicação, ambas tinham conseguido alcançar um grau de influência notável na administração ao servirem de lugar-tenentes essenciais ao presidente, cerrando fileiras por aquilo que mais o preocupava: a sua reputação nos media.

Embora Trump fosse, em muitos sentidos, um misógino convencional, no local de trabalho era muito mais próximo das mulheres do que dos homens. Confidente das primeiras, mantinha os segundos à distância. Gostava e precisava dessas mulheres e confiava-lhes as suas questões pessoais mais importantes. No seu entender, as mulheres eram mais leais e dignas de confiança do que os homens. Eles podiam ser mais vigorosos e competentes, mas também eram mais atreitos a agir segundo as próprias agendas. As mulheres, pela sua natureza, ou de acordo com a noção de que Trump teria dessa natureza, tinham mais tendência a focar os seus objetivos num homem. Um homem como Trump.

Não terá sido por coincidência nem por uma questão de paridade entre os sexos que o seu braço direito no concurso The Apprentice tenha sido uma mulher, ou que a sua filha Ivanka se tivesse tornado uma das suas confidentes mais chegadas. Ele sentia que as mulheres o compreendiam. Ou, pelo menos, que o tipo de mulheres de que gostava - positivas nos seus pontos de vista, confiantes nas suas capacidades, leais e também de boa aparência - o compreendiam. Quem quer que tivesse trabalhado para ele com êxito sabia que havia sempre um ângulo subliminar das suas necessidades e tiques que deveria ser escrupulosamente atendido; esta característica não o separava tanto assim de outras personalidades de sucesso, era apenas mais acentuada nele. Seria difícil imaginar alguém que esperasse mais dedicação e mordomia na satisfação dos seus peculiares impulsos, ritmos, preconceitos e, tantas vezes, imaturos caprichos. Ele precisava de cuidados especiais. Extraespeciais. As mulheres, explicou ele a um amigo, têm como que um rasgo de lucidez que as faz apreender isto melhor do que os homens. Em particular, compreendiam-no as mulheres que se consideravam elas próprias tolerantes, complacentes, divertidas ou indiferentes perante a sua frívola misoginia e constantes subentendidos de cariz sexual - os quais, de uma forma incongruente e tantas vezes dissonante, podiam ser confundidos com afeição paternal.

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