O neto de açorianos que retrata o lado humano de Obama

Pete Souza conheceu o então senador em 2005 e desde 2009 a sua objetiva já captou alguns dos momentos mais marcantes da presidência.

Um carinhoso encosto de cabeça a Michelle no dia da tomada de posse em 2009, o momento em que se baixa na Sala Oval para deixar um menino negro mexer no seu cabelo ou a imagem da Administração Obama reunida na Situation Room na noite em que Bin Laden foi morto. São estas e muitas outras imagens que contarão a presidência Obama. E todas elas têm uma assinatura comum: Pete Souza, o neto de açoriano que desde que acompanhou para o Chicago Tribune o primeiro ano do filho de um queniano e de uma americana do Kansas como senador do Illinois em Washington, em 2005, nunca mais o largou, tornando-se no fotógrafo oficial da Casa Branca nos últimos oito anos.

"Gosto de trabalhar de forma discreta. Uso máquinas silenciosas, não uso flash de forma a não interromper o que está a acontecer. [O presidente Obama] pode continuar a fazer o que está a fazer e metade das vezes nem se lembra que eu estou ali", explicava Pete Souza em 2013 à revista PDN, especializada em fotografia. Esta forma de trabalhar explica em parte as fotografias que resultam da sua parceria com Obama: intimistas. "Há dois aspetos essenciais no trabalho de Pete Souza: o primeiro é que ele tem acesso privilegiado ao presidente. Há um certo grau de intimidade nas suas fotos. Em segundo lugar tem de haver uma confiança de que ele não vai divulgar imagens negativas da presidência", explica Rui Coutinho. O professor de Fotojornalismo na Escola Superior de Comunicação Social em Lisboa sublinha que esta presença de Souza em encontros e reuniões muitas vezes envolvendo informações confidenciais, com uma máquina que até pode fazer vídeos, implica da parte do presidente uma grande certeza de que pode confiar no fotógrafo oficial.

Criada por John F. Kennedy em 1961, a figura do fotógrafo oficial da Casa Branca acaba por ganhar mais destaque do que outros funcionários da Administração, até porque "as suas imagens nos ajudam, hoje como nas futuras gerações, a perceber melhor o funcionamento da política americana", explica ao DN Tim Sieber. E se o professor de Antropologia na Universidade de Massachusetts tivesse de escolher apenas uma fotografia de Pete Souza que simbolize a presidência Obama, seria a da Situation Room. "A tensão e concentração na sala é intensa e a mistura de géneros, de raças, de idades revela a cada vez maior diversidade da sociedade americana."

Com mais de 20 mil fotografias tiradas por semana (com ajuda de três outros fotógrafos), boa parte partilhada com o mundo através do site oficial da Casa Branca, mas também no Tumblr, Twitter ou Instagram de Pete Souza, não espanta que Rui Coutinho tenha outra preferência. Para o açoriano, que já viveu nos EUA, a imagem que mais o marcou é aquela que mostra Obama e a primeira-dama, Michelle, de cabeças encostadas, dentro de um elevador, no dia da primeira tomada de posse. Esse momento "mostrou logo o que se podia esperar do trabalho de Pete Souza".

De facto, nem todos os momentos capturados por Pete Souza são sérios e históricos, a maior parte das suas fotografias captam apenas Obama na sua essência, sobretudo o sentido de humor do presidente, simples momentos de descontração em família ou mergulhos noutras culturas durante as inúmeras visitas ao estrangeiro.

Com as crianças

Entre esses momentos destacam-se os que mostram a relação de Obama com as crianças. Seja a imagem de Jacob Philadelphia na Sala Oval a mexer no cabelo do presidente depois de lhe ter dito: "Não sei se o meu cabelo é como o teu?" A resposta saiu pronta: "Toca-lhe, meu!". Seja a de Obama de gatas no tapete com o Grande Selo dos EUA a brincar com uma bebé ou ainda aquela em que finge ser apanhado na rede de um pequeno Homem-Aranha.

Com Obama, Pete Souza regressou à Casa Branca, depois de ter sido um dos fotógrafos oficiais de Ronald Reagan entre 1983 e 1989. Segundo uma recente reportagem do diário britânico The Guardian, esta experiência com o primeiro ator a chegar à presidência dos EUA foi essencial para moldar a fotografia de Pete Souza. A imagem mais marcante da sua primeira passagem pela Casa Branca é aquela em que Ronald e Nancy Reagan surgem a ladear Michael Jackson, com o casal visivelmente desconcertado perante o casaco militar brilhante do rei da pop.

Para Rui Coutinho, um dos aspetos que diferencia o fotógrafo oficial da Casa Branca dos homólogos de outros países é não terem uma cor partidária. A prova é que Pete Souza "passou do [republicano] Reagan] para o [democrata] Obama", explica o antigo editor de Fotografia do DN.

Mas Pete Souza é muito mais do que o fotógrafo de Obama. Nascido em South Dartmouth, Massachusetts, há 61 anos, o neto de açorianos formou-se em Jornalismo na Universidade de Boston, antes de fazer o mestrado na Universidade do Kansas. Começou nesse estado a carreira de fotógrafo, ainda nos anos 1970. Trabalhou para jornais locais antes de, na década seguinte, entrar no Chicago Sun-Times.

A ida para Washington deu-se com a oportunidade de trabalhar na Casa Branca de Reagan. Foi na capital federal que trabalhou para o Chicago Tribune. Mas Pete Souza também publicou trabalhos na National Geographic, Life Magazine, Fortune ou Newsweek. Além de ser autor de livros, entre os quais The Rise of Barack Obama [A Ascensão de Barack Obama], que chegou à lista de bestsellers do New York Times.

Vencedor de inúmeros prémios de fotografia, em 2001, depois dos atentados de 11 de setembro, Pete Souza foi um dos primeiros jornalistas ocidentais a cobrir a queda de Cabul, depois de entrar no Afeganistão através das montanhas do Hindu Kush, a cavalo e com 90 centímetros de neve.

Em Portugal

Apesar das raízes açorianas, Pete Souza só esteve em Portugal três vezes. A primeira, ainda criança, quando o avô o levou a conhecer as ilhas de onde partira à procura do sonho americano, a segunda e a terceira em trabalho. E se em 1985, com Reagan, o que recorda é as brincadeiras dos colegas sobre o bigode que então usava e o fazia parecer-se "com todos os portugueses", em 2010, quando voltou com Obama para a cimeira da NATO em Lisboa até teve direito a um encontro com o então presidente Cavaco Silva.

"Houve um momento especial quando o presidente [Cavaco] Silva pediu para me conhecer. Ele sabia muito sobre mim. Sabia que os meus avós eram dos Açores, sabia que eu não falava português. Isso foi o momento mais emocionante para mim", explicou na altura ao DN. No Air Force One, a caminho de Lisboa, Pete Souza mal continha o entusiasmo por regressar à terra dos antepassados. E Obama não perdeu a oportunidade de brincar com o fotógrafo, garantindo: "És um rock star", contou Pete Souza ao DN. A relação entre os dois é tão forte que em 2013 o presidente ofereceu a sua casa (sim, a Casa Branca) para o casamento de Pete Souza. Discretíssimo, da vida pessoal do fotógrafo quase nada se sabe.

Para o senador estadual do Massachusetts Marc Pacheco, ver outro lusodescendente chegar a fotógrafo oficial da Casa Branca é "um orgulho". Ao DN, Pacheco, que esteve com Pete Souza algumas vezes, destaca a "concentração" e "imenso talento" do homem que "documentou momentos importantes e íntimos das presidências Reagan e Obama que os cidadãos não teriam visto de outra forma". E garante: "As suas fotos vão resistir ao tempo."

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