O mistério do desaparecimento de uma princesa no Dubai

BBC vai apresentar documentário sobre uma alegada fuga, seguida de rapto, da princesa Latifa bint Mohammed al-Maktoum. Após sete anos a planear fuga, em março saiu do Dubai. Terá sido encontrada, mas não se sabe do paradeiro

A princesa Latifa bint Mohammed al-Maktoum planeou durante sete anos o seu sequestro, a forma que encontrou para tentar fugir do que considerava ser uma prisão dourada. Latifa é filha do xeque Mohammed bin Rashid al-Maktoum, governante do Dubai e primeiro-ministro dos Emirados Árabes Unidos e foi raptada por comandos num iate em março a 30 milhas da costa da Índia. Entretanto, surgiram rumores de que tinha sido encontrada, mas desde março que não há notícias sobre o seu paradeiro.

A forma como a fuga desta princesa de 32 anos foi pensada vai ser contado num documentário da BBC - "Escape from Dubai: The mystery of de missing princess" - que na próxima quinta-feira (dia 6 de dezembro) apresentará entrevistas com uma ex-espia francesa e com uma professora finlandesa de capoeira que garantem ter ajudado a planear a fuga, conta o diário inglês The Guardian. Publicação que acrescenta ter o trabalho da televisão britânica declarações da tripulação filipina que terá tentado levar a princesa.

Latifa é a segunda das filhas do xeque a tentar fugir de uma vida de luxo que considerava ser uma jaula e que desapareceu após relatos de recaptura. A sua irmã mais velha, Shamsa, foi presa nas ruas de Cambridge depois de fugir de uma propriedade da família em 2000, num aparente sequestro nunca investigado pela polícia britânica.

A própria Latifa disse num um vídeo gravado antes desta sua tentativa de fuga que tinha tentado deixar os Emirados Árabes Unidos com 16 anos, mas que tinha sido capturado na fronteira, presa por três anos, espancada e torturada. Depois dessa experiência, e da da irmã, considerava que tinha de ser cuidadosa ao planear uma segunda tentativa de liberdade, escreve o The Guardian.

De acordo com o jornal a princesa terá procurado o empresário francês e ex-oficial da marinha Hervé Jaubert em 2011, segundo ele conta no documentário, porque leu na internet que anos antes Jaubert tinha fugido do Dubai após ter tido problemas com as autoridades. Ele terá utilizado um barco para fugir para a Índia. Quando recebeu o primeiro e-mail de Latifa, o empresário terá pensado que seria uma encenação. "Eu disse-lhe: 'Olha, está a dizer que é a filha do governante de Dubai, mas talvez seja uma armadilha e preciso verificar se você é autêntica'", contou à BBC.

Depois de ficar convencido que estava a falar com a verdadeira princesa foram trocando correspondência só se tendo encontrado este ano. Nas cartas, Latifa referia-se à logística necessária e explicou que tinha guardado 400 mil dólares (cerca de 350 mil euros) para pagar a fuga.

Terá também contado episódios da sua vida. "Fui maltratada e oprimida toda a minha vida", terá escrito um dia, segundo um e-mail partilhado por Jaubert. "As mulheres são tratadas como sub-humanas. Meu pai ... não pode continuar fazendo o que está fazendo com todos nós". Em 2014, conheceu Tiina Jauhiainen, que foi dar aulas de capoeira (arte marcial brasileira) numa residência real. Tiina tornou-se uma das amigas mais próximas de Latifa, parceira de paraquedismo e acompanhou-a nas várias vezes em que se encontrou com Jaubert.

Tiina terá acompanhado Latifa pela fronteira para Omã e depois partiram para o mar. Enfrentaram uma viagem de 26 milhas de barco insuflável e jet ski, até se encontrarem com Jaubert, que tinha um iate. Numa declaração em vídeo - que só seria divulgada se a fuga falhasse - Latifa diz que estava preparada para uma punição severa se fosse capturada. "Se está assistindo a este vídeo, não é uma coisa tão boa, ou estou morta ou em uma situação muito, muito, muito ruim."

A sua irmã mais velha esteve fugida mais de um mês durante uma viagem ao Reino Unido em 2000. De acordo com uma mensagem que enviou a um advogado no Reino Unido, foi contrabandeada para fora do país a pedido de seu pai depois de ser encontrada em Cambridge.

Esta suspeita foi partilhada com David Beck, então detetive chefe inspetor encarregado de Cambridge CID. Mas Beck não foi capaz de avançar com a investigação. Quis falar com Shamsa, mas quando tentou visitar o Dubai não foi autorizado. "Pouco tempo depois, fui informado de que meu pedido havia sido recusado", disse à BBC, acrescentando: "Nunca me foi dada uma razão para isso."

No seu vídeo, Latifa disse que sua irmã vivia em uma espécie de prisão médica, acompanhada e monitorada por enfermeiras. Diz que viu o destino de sua irmã como um aviso. Do barco, Jauhiainen disse que Latifa enviou uma mensagem à família, contactou o grupo ativista detido em Dubai e procurou a comunicação social. Aparentemente não recebeu o apoio que esperava. "Ela enviou e-mails para repórteres e ninguém lhe respondeu. Ninguém parecia acreditar nela, então parecia desesperada e triste", contou Jauhiainen.

Entretanto, a BBC terá sido informada de que dias depois da fuga o navio foi invadido e Latifa capturada. Não tem sido vista em público desde então. Os amigos dizem que nunca mais ouviram falar dela e sua conta no Instagram foi encerrada. "Ela disse que preferia ser morta no barco ao invés de voltar para Dubai", adiantou Hervé Jaubert. "Eu nem sei onde ela está. Estou muito preocupado".

O xeque Mohammed e o governo de Dubai não comentaram as alegações feitas pela BBC no documentário nem responderam ao pedido do The Guardian para comentar o assunto. Uma fonte próxima ao governo de Dubai foi citada dizendo que ela está "com sua família" e "excelente".

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