O leste do Muro: fotografar a preto e branco a propaganda soviética

55 anos após a divisão da Alemanha, Siegfried Wittenburg recorda como quis mostrar a verdadeira vida em Rostock.

Não começou com betão. No princípio era uma linha. Uma divisão de arame farpado, com tanques e trincheiras. Isso percebeu sozinho, apesar da idade. Tinha 8 anos quando o Muro de Berlim começou a ser construído. Estava de férias depois de terminar a segunda classe. Sentou-se na sala com o pai a ouvir a rádio, o aparelho tinha vindo do outro lado, do lado ocidental.

Nesse dia, 13 de agosto de 1961, o outro lado ficava ainda mais longe. Dividia-se a cidade, o país e muitas famílias, umas delas a de Siegfried Wittenburg. Um dos três irmãos, o mais velho, vivia na Berlim controlada pelos americanos. "A minha mãe chorava, escondia a cara com as mãos, já ninguém podia atravessar a Alemanha livremente."

Os navios que atravessavam o Báltico, e ligavam Warmemünde (a norte de Rostock) à Dinamarca foram impedidos de circular. A rádio repetia histórias que Siegfried não queria repetir na cabeça. Pessoas impedidas de viver no seu próprio país.

A irmã era comunista, o pai defendia a liberdade, e a mesa do jantar era pequena para tantos argumentos. Os Beattles, os Rolling Stones e os Deep Purple musicaram-lhe a adolescência. "Vivia entre a RDA (República Democrática Alemã) e a RFA (República Federal da Alemanha), via as notícias dos dois lados mas não acreditava totalmente em nenhum deles." Foi preciso subir a um tanque, cumprir o serviço militar, dez anos depois, para perceber que aquele "conflito" não fazia qualquer sentido. "Se houvesse algum problema, eu tinha de disparar sobre meus irmãos, aquilo não fazia qualquer sentido para mim."

Disparou mais tarde mas uma máquina fotográfica que comprou em 1977. Disparou contra a propaganda e a "utopia operária". Primeiro experimentou em casa, revelou as imagens na casa de banho, depois juntou-se a um clube de fotografia. Foi desafiado a participar numa exposição e as fotos, a preto e branco, suscitaram reações em vários tons.

"Mostrei apenas o que via, o sítio onde vivia. Algumas pessoas perguntaram-me porque é que eu via o país de uma forma tão negativa. Outros concordaram e deram-me força para continuar. Tornei-me um fotógrafo que mostra a realidade e isso não foi nada fácil para mim. Os jornais da RDA só mostravam propaganda, imagens bonitas, positivas. Eu não fazia isso. Era preciso mostrar o contraste que existia entre a realidade e os sonhos das pessoas", conta agora.

Nunca foi interrogado pela Stasi, a polícia secreta do regime, mas o medo estava em cada clique. Isso não o impediu de fazer um zoom às ruas sem pavimentos, caminhos com lama, às filas para pedir comida, aos blocos de edifícios amontoados, às roupas gastas. Hoje essas imagens contam a história, "uma história que, por vezes, não era feliz nem triste. Vidas iguais umas às outras, sem grandes perspetivas de melhoria. É importante para os filhos e os netos olharem para essas fotografias e perceberem como viviam os pais ou os avós".

A censura não tardaria a chegar. Foi assumindo várias formas. "Quando liderava um clube de fotografia foi-me encomendada uma exposição que pretendia mostrar a vida na Alemanha de Leste e na Polónia. O partido comunista recusou a maioria das minhas fotos. Acabei por ser expulso do clube porque tinha cometido, segundo eles, uma ofensa política grave. Senti-me como uma criança a ser repreendida, sem liberdade."

Asfixia social

Não vivia mal, confessa. Nunca passou fome. Nunca lhe faltaram marcos na carteira para pagar a renda. Tinha um carro e até um pequeno jardim partilhado pela comunidade. Mas muitas vezes não conseguia respirar, "era como uma asfixia social". E apesar de nunca ter participado ativamente em nenhum encontro da oposição, em outubro de 1989 ouviu, na Marienkirche (uma das principais igrejas da cidade), as palavras de Joachim Gauck, atual presidente da Alemanha. "Era uma sensação de primavera, depois de um longo inverno." Também aí não esqueceu a máquina.

Gosta de assistir a transformações e de captá-las. A lente e a curiosidade ajudam. Ainda o puxam à cidade para ir fotografando o que de novo vai surgindo. Rostock soube sair dos tons cinza de um bombardeamento, em 1942, e pintar-se de várias cores. É assim o centro, com o mar não muito longe. Siegfried Wittenburg vive não muito longe. Trocou o apartamento por uma casa com jardim e já não conduz um Trabant. A vida é melhor, não porque tem mais, "não se pode comparar, agora vivemos em liberdade".

Berlim

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