O "japonês bonzinho" afinal pode ser vilão

Cada vez que a operação Lava-Jato prende poderosos no Brasil, ao lado do detido aparece o mesmo polícia

A cada detenção da Lava-Jato, a operação policial que investiga o Petrolão e está a abalar as estruturas do Brasil, os olhos dos brasileiros concentravam-se no essencial: os milionários Marcelo Odebrecht e Otávio de Azevedo, algemados, rumo ao cárcere; José Carlos Bumlai, íntimo de Lula de Silva, a entrar na esquadra; o tesoureiro do PT Vaccari Neto a agachar-se para entrar no carro da polícia; e por aí adiante. Mas, qual mensagem subliminar, os mesmos olhos dos brasileiros passaram a concentrar-se no agente, de colete, óculos escuros, cabelo grisalho e traços orientais comum a todas as imagens. Quem é afinal aquele japonês, perguntou-se o Brasil?

"Se tocarem à campainha de sua casa às seis da manhã e for um japonesinho, não abra, você vai ser preso", escreveu nas redes sociais o humorista Sérgio Mallandro. Cidadãos anónimos que por um acaso se cruzavam com o agente pediam selfies e faziam legendas sugestivas do tipo "ao lado do homem que está a consertar o Brasil" ou "estou com o japa mais famoso do país mas não estou indo preso, não". Como Sérgio Moro, o juiz da Lava-Jato, é, na medida do que lhe é possível, discreto, o japa tornou-se o rosto da operação. Mais tarde ou mais cedo, a história do agente chegaria aos media. E chegou: mas não como fait divers.

Numa gravação que levou à detenção do senador Delcídio do Amaral no final do novembro, o político combinava a fuga do país de Nestor Cerveró, um dos principais delatores do Petrolão, com o filho deste, um advogado e um assessor. Às tantas, alguém diz que um agente da polícia vende informações às revistas e passa relatórios secretos para as defesas dos acusados. "Quem?", pergunta Delcídio. "O japonês, o japonês é bonzinho", responde o advogado.

O chefe de núcleo de operações de Curitiba, Newton Hidenori Ishii, na polícia desde 1976, ganhou imediatamente a alcunha de "japonês bonzinho" e já vai ser ouvido pelo juiz Sérgio Moro sobre as supostas fugas de informação.

A imprensa procurou então saber mais sobre Ishii e descobriu que em 2003 o agente fora apanhado em flagrante pela própria corporação a facilitar contrabando na Foz do Iguaçu, na fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai. Demitido em 2009, foi considerado depois inocente e reintegrado à corporação por decisão judicial em 2012. "Estão a usar o meu nome e a minha história para criar uma cortina de fumo em torno da Lava-Jato", tem dito, segundo amigos próximos, o "japonês bonzinho". Mas Ishii passou mesmo num instante de rosto da impunidade no Brasil ao seu inverso.

"Este país não tem jeito mesmo: até tu, japa?", queixavam-se brasileiros no Facebook.

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