Ex-engenheiro da Google acusado de levar segredos para a Uber

Anthony Levandowski deixou a Google e mudou-se para a Uber. Mas terá roubado e levado com ele segredos demasiado valiosos. Agora enfrenta 33 acusações de crime e arrisca um acumulado de 330 anos de prisão

Com uma vasta carreira na Google e na Uber, Anthony Levandowski já foi um dos egenheiros mais pretendidos de Silicon Valley, mas agora o seu nome está no meio de uma das mais importantes batalhas judiciais no universo das empresas tecnológicas que pode valer-lhe uma pena máxima de 330 anos de prisão, dez anos por cada um dos 33 crimes de roubo de segredo comercial dos quais está acusado.

O engenheiro especialista em carros autónomos foi acusado na terça-feira de cometer crimes de roubo à empresa Google onde trabalhou no desenvolvimento de veículos de transporte autónomo. Levandowski é suspeito de ter roubado 14 mil ficheiros dos servidores da gigante tecnológica para o seu computador pessoal enquanto trabalhava na Google. Com esses arquivos em seu poder fundou a startup de camiões autónomos Ottomotto, comprada depois pela Uber, onde também passou a a trabalhar.

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos apresentou na terça-feira acusações criminais contra Anthony Levandowski, cuja defesa invocou inocência, esperando provar em julgamento que o seu cliente não roubou nada.

A acusação de 33 crimes reflete amplamente as alegações que a unidade Waymo - da empresa-mãe do Google, a Alphabet Inc, onde Levandowski tinha trabalhado - fez numa ação civil contra a Uber em 2017, que mais tarde acabou em acordo entre as partes.

A corrida aos carros autónomos

Este é tido como um dos mais importantes casos de roubo de segredo comercial do Vale do Silício, numa altura em que engenheiros de topo tentam desenvolver tecnologia para carros autónomos, setor que vários especialistas da indústria veem com um potencial de mercado superior a um trilião de dólares durante as próximas três décadas.

Os promotores acusam Levandowski de ter roubado ficheiros, no final de 2015 e início de 2016, relacionados com a tecnologia de carros autónomos da Waymo. Para eles, a decisão do engenheiro franco-americano, atualmente com 39 anos, foi tomada já depois de ter decidido sair e formar a sua própria empresa.

Pouco depois de Levandowski deixar a Google, ele fundou a Ottomotto, uma startup de camiões autónomos que foi rapidamente adquirida pela Uber por quase 700 milhões de dólares (cerca de 630 milhões de euros). A Waymo argumenta há muito tempo que a Uber acabou supostamente por roubar os ficheiros secretos e simplesmente disfarçou o processo com uma aquisição.

Nos arquivos em causa estavam desenhos e esquemas relativos a circuitos e sensores que foram usados nos veículos autónomos da Google. Os supostos materiais roubados incluíam detalhes relacionados com a Lidar, uma tecnologia de sensores crucial, de acordo com a acusação.

"Todas as pessoas estão livres para mudar de emprego. Mas o que não podemos fazer é encher os nossos bolsos à saída", disse o promotor do Ministério Público norte-americano, David Anderson, em conferência de imprensa. Anderson recusou comentar se a Uber também poderia enfrentar acusações criminais.

Despedido da Uber em 2017

Levandowski deixou a Waymo no início de 2016 e acabou por assumir o projeto de carros autónomos do Uber, antes de ser demitido na sequência deste escândalo, em maio de 2017.

"Por mais de uma década, Anthony Levandowski tem sido um inovador líder de mercado em tecnologias de condução autónoma", e o caso do Governo é uma "reformulação de alegações desacreditadas", disse o seu advogado, Miles Ehrlich, aos repórteres no tribunal de San Jose, na California.

Os advogados de Levandowski disseram que os downloads em questão ocorreram enquanto o cliente ainda estava a trabalhar para a Alphabet e que ele estava autorizado a usar essas informações.

Certo é que as batalhas legais a envolver Levandowski custaram à Uber tempo e dinheiro no seu projeto de carros autónomos. Durante o processo cível entre a Waymo e a Uber, que terminou em acordo entre as partes, Levandowski não testemunhou no julgamento e não falou publicamente sobre o assunto.

Desde esse acordo, Levandowski entrou novamente no mundo das startups, fundando uma nova empresa de software chamada "Pronto.ai". Em dezembro passado, revelou que tinha projetado um sistema avançado de assistência ao motorista baseado em câmaras (ADAS), chamado Co-Pilot, que visava a indústria de camiões para transportes de longa distância. Para ajudar a vender o seu novo produto, Levandowski organizou mesmo um test drive: uma viagem de quase 5000km, de São Francisco a Nova Yorque, sem qualquer intervenção humana.

Entretanto, em comunicado emitido esta terça-feira, a Pronto informou que Levandowski foi substituido no cardo de diretor-executivo por Robbie Miller, apesar de manifestar "apoio total" a Levandowski e à sua família.

"Silicon Valley não é o Velho Oeste", disse John Bennett, agente especial do FBI, em conferência sobre o caso. "O ritmo acelerado e o ambiente competitivo não significam que as leis federais não se apliquem ou possam ser ignoradas."

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