O difícil papel de Felipe VI na crise política espanhola

Impasse trouxe à luz do dia as lacunas que existem na Constituição do país sobre o papel do rei neste tipo de situações

A crise política que se vive em Espanha deixou a descoberto as lacunas que existem na Constituição do país sobre o papel do rei e os procedimentos que deve seguir neste tipo de impasses. Como diz o artigo 56.º da Carta Magna, o rei "arbitra e modera o funcionamento regular das instituições", dois verbos que podem ter diferentes interpretações. Estará Felipe VI a proceder bem? Devia ser mais ativo para resolver a crise política? "O rei está de mãos atadas, as suas competências como chefe do Estado são muito reduzidas", sublinha ao DN José Apezarena, jornalista especializado na Casa Real e autor de vários livros sobre a monarquia. "Ele sabe que este é o seu primeiro desafio importante como rei, está em jogo o seu próprio futuro, mas pode fazer muito pouco", realça. Depois de mais umas eleições e enquanto se espera por um governo "não pode chamar ninguém, estaria a perder a sua independência e a entrar num terreno que é o da política".

Apezarena assegura que Felipe VI está "muito preocupado com esta situação porque é um patriota e está muito ligado ao seu país". Os seus movimentos estão a ser analisados por todos os partidos políticos e "sabe que não pode nem deve pressionar nenhum deles porque estaria a criar a si próprio um problema no futuro".

Os espanhóis percebem este papel que a Constituição dá ao rei? "Existe uma certa divisão, para uns é correto que Felipe VI esteja em segundo plano, mas outros há, os mais conservadores, que sentem saudades do murro na mesa que provavelmente já teria dado o seu pai", afirma Ana Romero, jornalista do El Español especializada em temas da família real. A autora do livro Final de partida sobre Juan Carlos I lembra que o atual monarca é o primeiro rei constitucional, "jurou o seu cargo com a mão sobre a Constituição e sabe que deve manter-se fiel a ela". Romero sublinha as diferenças que existem entre pai e filho, Juan Carlos e Felipe, na personalidade e no contexto político. "Juan Carlos I chegou à chefia do Estado em circunstâncias muito diferentes e a sua capacidade de manobra no mundo político era maior. Tinha uma personalidade diferente, mais ousado, que foi bom para enfrentar problemas mas que acabou por levá-lo a um final pouco brilhante", sublinha a jornalista. Felipe VI, "com uma personalidade mais triste", sabe dos defeitos da Constituição, "mas é a que existe e vai cumpri-la". Romero lembra também que no caso de Juan Carlos I o diálogo com os políticos era mais fácil porque "todos juntos foram os arquitetos da Espanha moderna" enquanto Felipe VI não conviveu com Rajoy, Sánchez, Iglesias ou Rivera.

Para o rei de Espanha não tem sido fácil nomear dois candidatos para primeiro-ministro e ver fracassar ambas as tentativas. A sua atitude, desde as eleições do 20 de dezembro, tem sido afastar-se da atividade pública. "Felipe e Letizia começaram um reinado como dois jovens modernos e profissionais, depois de muitos escândalos na Coroa, e estavam no momento da sua afirmação. Esta crise é má para a monarquia espanhola porque deixa de ter presença internacional", considera Ana Romero. Tal como sublinha Apezarena, depois desta segunda tentativa fracassada para formar governo, "vemos uma reativação da sua atividade. O rei não pode ficar na reserva durante um ano, já faltou a compromissos internacionais muito importantes como a sua visita oficial a Inglaterra ou a inauguração do Canal de Panamá. Foram decisões difíceis e dolorosas para ele". Também não vimos este ano participar Felipe VI na Copa del Rey de vela que se realiza em Palma de Maiorca, "porque não ficava bem na fotografia face a este bloqueio".

Caso Espanha vá às urnas pela terceira vez num ano, Romero espera que o tom do monarca seja "um pouco mais alto porque até agora a sua mensagem aos políticos foi muito ténue". Mas Apezarena lembra que antes disso existe um debate técnico sobre o que deve fazer agora. Manter a nomeação de Rajoy para formar governo? "O lógico seria que sim, caso não exista renúncia de Rajoy, mas esta situação é nova para Espanha e não está escrito em lado nenhum o que deve ser feito" sublinha. Felipe VI não quer cometer erros e tudo indica que se vai manter no caminho mais correto.

Em Madrid

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