O debate que Donald Trump não pode perder

Republicano volta a enfrentar a democrata Hillary nesta noite, enquanto o próprio partido avalia opções para o substituir na corrida.

Não é a primeira vez que Donald Trump tece comentários sexistas: já chamou "porcas gordas" às mulheres, sugeriu que uma jornalista estava com o período e comentou "a cara" de uma rival republicana. Não espantam por isso as suas declarações, feitas em 2005 e agora divulgadas pelo The Washington Post, a garantir que quando se é uma estrela "elas deixam fazer tudo". Também não é a primeira vez que o candidato republicano às presidenciais de 8 de novembro nos EUA tem uma semana negra. Já aconteceu em agosto, quando atacou os pais de um soldado muçulmano morto no Iraque e recusou apoiar Paul Ryan, o presidente da Câmara dos Representantes. E sempre recuperou.

A diferença é que estamos a menos de um mês das eleições. Mais, as principais figuras do Partido Republicano não hesitaram em condenar as palavras do milionário. Foi o caso do presidente da formação, Reince Priebus, para o qual "nenhuma mulher devia alguma vez ser referida naqueles termos". E Ryan, que tinha planeada para o fim de semana uma aparição ao lado de Trump numa ação de campanha, não só cancelou, como se disse "enojado" com as palavras do candidato.

Ontem Trump mostrava-se decidido a não ceder. Depois de várias figuras republicanas lhe terem retirado o apoio e outras terem mesmo pedido que desista da corrida, o milionário de 70 anos veio dizer que isso nunca irá acontecer. "Nunca vou desistir. Nunca desisti de nada na vida", garantiu ao The Wall Street Journal, sublinhando estar a receber um apoio "inacreditável".

Uma garantia que pouco fará para acalmar o pânico entre os republicanos, preocupados que as gafes e declarações polémicas do seu candidato presidencial, além de lhes poderem custar a Casa Branca, lhes possam custar também a maioria que têm na Câmara dos Representantes e no Senado.

Para o presidente dos Democratas no Estrangeiro - Portugal, Patrick Siegler Lathrop, o Partido Republicano "já quase chegou à conclusão de que vai perder" as presidenciais. E os seus responsáveis "já só esperam que ele não perca por muito".

O problema é que pode já ser tarde para os republicanos mudarem de candidato. Com os boletins de voto já impressos e alguns americanos a já terem votado em certos estados, trocar de candidato exigiria alguma espécie de colaboração por parte de Trump. O artigo 9 dos estatutos do partido prevê a substituição do candidato em caso de "desistência ou morte". Pelo sim pelo não, o Comité Nacional Republicano terá posto todos os advogados a pensar numa alternativa durante 48 horas. E, segundo o site Politico, terá enviado e-mails às suas delegações a suspender o programa Victory, a propaganda a favor de Trump.

Pressionado pelo próprio partido, Trump tem hoje uma prova de fogo no segundo debate contra a democrata Hillary Clinton, depois de ter perdido o primeiro. Os dois candidatos voltam a estar frente a frente, desta vez na Universidade Washington, em St. Louis, no Missouri. "Isto não termina enquanto não acabar. Mas se Hillary ofuscar Trump no segundo debate, vai ser difícil para ele recuperar", explica ao DN Scott Lehigh. Para o jornalista do The Boston Globe, "uma segunda vitória seria o cimento de que ela precisa para fixar a dinâmica eleitoral que a favorece".

A subir nas sondagens desde o frente-a-frente de 26 de setembro, Hillary tem-se mantido discreta, preferindo dedicar-se a preparar o debate em vez de apostar em comícios. Hoje, Lehigh garante que a ex-primeira-dama - em quem a maioria dos americanos diz não confiar - tem antes de mais de "evitar dizer qualquer coisa que soe, ou possa ser usada de forma a soar, como se ela estivesse a enganar as pessoas. O que daria algo para Trump explorar nas próximas semanas".

A cair nas sondagens - até a conservadora Fox News o coloca quatro pontos atrás da rival democrata, com 44% das intenções de voto, face aos 48% de Hillary -, Trump apressou-se a vir a público pedir desculpas pelo conteúdo do vídeo revelado pelo The Washington Post. Ao seu estilo. Primeiro num comunicado em que diz lamentar se as suas palavras "ofenderam alguém", mas no qual logo sublinha que Bill Clinton lhe disse bem pior quando ambos jogavam golfe. Depois num vídeo em que volta a pedir desculpas, afirmando "nunca disse que era perfeito ou pretendi ser quem não era". Mas logo partiu ao ataque, afirmando que o vídeo do The Washington Post não passa de "uma distração". "Hillary Clinton e os da sua espécie deixaram o nosso país de gatas. Eu disse alguns disparates, mas há uma diferença entre palavras e atos das pessoas. Bill Clinton abusou de mulheres e Hillary atacou e intimidou as suas vítimas. Discutiremos isso mais tarde. Vemo-nos no debate."

Uma despedida a deixar antecipar um frente-a-frente feio, com o candidato republicano a manter a promessa que fez no fim do primeiro debate de abordar a vida sexual do ex-presidente Bill Clinton.

Para Lathrop, "o verdadeiro Trump já foi exposto. 70% dos americanos já acham que ele não é bom empresário, que não sabe tomar decisões sob pressão". Mas num país onde "as presidenciais são um concurso de popularidade" e Trump é "uma atração" para os media, o democrata em Portugal acredita que se o republicano "mantiver a calma e agir de forma presidenciável [hoje à noite] pode acalmar a fuga de votos".

Ontem, a primeira consequência do vídeo do The Washington Post foi abafar a divulgação pela WikiLeaks dos discursos de Hillary Clinton em Wall Street. De tal forma que a equipa da democrata optou por nem confirmar a autenticidade dos documentos.

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