O cardeal que levou luz e água quente a 500 pobres e provocou a fúria de Salvini

Konrad Krajewski desobedeceu às autoridades e repôs a eletricidade, que tinha sido cortada por falta de pagamento, para cerca de 500 pobres num velho palácio romano. Ministro do Interior italiano pede que esmoleiro do Vaticano pague a conta.

Um cardeal do Vaticano foi alvo da fúria do ministro do Interior italiano, Matteo Salvini, depois de Konrad Krajewski ter desobedecido às autoridades e ter reposto a eletricidade, que tinha sido cortada por falta de pagamento, para cerca de 500 pobres num velho palácio romano.

O prédio ocupado, no número 55 da Via di Santa Croce in Gerusalemme, em Roma, capital de Itália, estava às escuras e sem água quente desde o passado dia 6, colocando numa situação desesperada cerca de 450 pessoas, das quais 100 crianças, num total de uma centena de famílias, italianas e de outras 17 nacionalidades.

"O cardeal chegou à tarde, trouxe presentes para todas as crianças e prometeu que, se a corrente não tivesse sido restabelecida no prédio até ao momento, ele próprio a restabelecia", explicaram os ocupantes ao La Repubblica. "E assim foi: o padre Konrad desceu ao poço, removeu o selo e acendeu a luz. E assumiu total responsabilidade pela ação junto do município e [da empresa de distribuição] Acea, em nome do Vaticano."

Depois de saber do corte de energia, por causa de uma dívida estimada de 300 mil euros, o cardeal interveio diretamente e quebrou o selo que as autoridades tinham colocado no contador da eletricidade. "Foi um gesto desesperado. Havia mais de 400 pessoas sem eletricidade, com famílias e crianças sem a possibilidade de fazer funcionar os frigoríficos", explicou Krajewski.

Não é de agora este envolvimento do cardeal polaco no caso deste prédio ocupado. Há semanas que envia do Vaticano ambulâncias, médicos e comida para ajudar estas famílias. "Estamos a falar de vidas humanas", explicou-se ao jornal italiano Corriere della Sera. "O absurdo é que estamos no centro de Roma. Quase 500 pessoas abandonadas. São famílias que não têm para onde ir, pessoas que lutam para sobreviver", disse o cardeal. "O primeiro problema não é o dinheiro", completou.

Pagar as contas

Do outro lado, a reação de Salvini não se fez esperar. Conhecido por detestar imigrantes e refugiados e não ter tento na língua nas críticas ao Papa Francisco, o líder da Liga e todo-poderoso número dois do executivo italiano atacou o cardeal. "Apoiar comportamentos ilegais nunca é um bom sinal. Há muitos italianos e imigrantes legais que, mesmo que tenham dificuldades, pagam as suas contas. Se as pessoas no Vaticano também quiserem pagar as contas dos italianos em dificuldades, nós abriremos uma conta bancária", disse, citado pelo jornal britânico The Guardian.

Salvini disse esperar ainda que Konrad Krajewski se chegue à frente para pagar a conta. "Toda a gente é livre de fazer o que quiser, mas espero que depois de ter restabelecido a corrente elétrica vá pagar os 300 mil euros em atraso que alguém não pagou e ajude todas as outras famílias italianas em dificuldade, que não podem pagar as suas contas de eletricidade."

O cardeal garantiu que assim fará. "Agora que foi restabelecida [a luz], vou pagar, não há problema", disse Krajewski ao Corriere della Sera. "Na verdade, vou pagar também as contas dele", brincou o cardeal, que é o esmoleiro apostólico do Papa, referindo-se ao também vice-primeiro-ministro.

"Veja, eu não quero que isto se torne uma questão política", defendeu Krajewski. "Eu sou o esmoleiro e preocupo-me com os pobres, com estas famílias e crianças... E eles finalmente têm luz e água quente."

Konrad Krajewski tinha chegado da ilha grega de Lesbos, onde foi em visita aos campos de retenção de refugiados e migrantes, que a União Europeia criou, para mostrar a solidariedade do Papa com as pessoas que ali estão. Este cardeal, de 55 anos, cedeu há dois anos os seus aposentos a um casal de refugiados sírios, indo viver para um pequeno apartamento onde tem o seu escritório.

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