O agente de viagens que se alistou no Peace Corps de JFK

Filho de emigrantes açorianos, Joe da Rosa, de 79 anos, é dono da agência de viagens Balboa Travel, em San Diego, com uma faturação de 200 milhões de dólares anuais

Costuma dizer-se que os objetos ajudam a contar histórias e esse pode ser bem o caso de Joe da Rosa. O globo terrestre que tem no seu escritório representa os vários países onde viveu, estudou e trabalhou, as viagens que vende a outras pessoas, a curiosidade em conhecer o mundo e contar, muitas vezes através da escrita, as histórias que pelo caminho foi encontrando. O galo de Barcelos simboliza a ligação a Portugal, tal como a fotografia da sua casa, na ilha do Pico, nos Açores, de onde era oriunda a família que emigrou para os EUA. A fotografia do Pacific Princess, o barco do filho, atesta a relação da família com o mar e a pesca do atum, como acontece, aliás, com uma grande maioria da comunidade portuguesa em San Diego, na Califórnia do Sul. A imagem da irmã, Maria Alice Gonçalves, prova o respeito e a admiração pela pessoa com quem fundou a Balboa Travel nos anos 1970. E as em que aparece com Bill Clinton e Colin Powell, ex-presidente dos EUA e ex-secretário de Estado dos EUA, respetivamente, exemplificam as pessoas ilustres que foi conhecendo ao longo da vida. Da altura em que integrou o Peace Corps não tem fotografias, nem no escritório nem em sítio nenhum onde as consiga encontrar, mas tem consigo a maior e melhor recordação desse tempo, Marly, a mulher, que conheceu quando trabalhou como voluntário no Brasil. Em cima da sua secretária, uma placa de madeira, com a inscrição "It is what it is". É a sua máxima de vida? "Quer dizer que temos de enfrentar a vida como ela é. É o que é. Nada mais", diz ao DN, na sede da Balboa Travel, uma agência de viagens que hoje em dia é especializada no mercado corporate e que concorre com grandes nomes do ramo, como sejam, por exemplo, a Carlson Wagonlit ou a American Express.

Joe da Rosa, de 79 anos, pertence à segunda geração de emigrantes. "O meu pai era do Pico e chegou aos EUA em 1917 a bordo do navio Roma. Já tinha cá irmãos a trabalhar na agricultura em Washington e foi para lá que foi primeiro antes de vir finalmente para San Diego. Andou muitos anos na pesca do atum. Ganhava-se muito dinheiro. Mas também se perdia muito", recorda, sentado na sua secretária da Balboa Travel, a agência que ele e a irmã compraram a um inglês e que começou, precisamente, a fazer negócio com o pessoal que estava ligado à pesca do atum e precisava de viajar para várias zonas quando a pesca se deslocou mais para sul, essencialmente para a zona da Samoa Americana. Hoje, só um dos seus três filhos, Ricardo, está ainda ligado à indústria do atum. Ele nunca seguiu esse caminho. Experimentou uma vez. Não gostou. Não repetiu. "Aos 14 anos fiz um viagem e descobri que não suportava o cheiro do combustível e da tinta, porque os barcos tinham de ser pintados constantemente, para não enferrujarem, mas também que não gostava de estar lá em cima à procura de peixe. Olhava e não via nada. Então achava que aquilo era muito aborrecido. Resolvi que não era para mim."

Terminado o liceu, estudou Línguas Românicas na Universidade da Califórnia e, nos anos 1950, ganhou uma bolsa da Luso-American Fraternal Federation e veio fazer um curso nas férias para a Universidade de Coimbra. Pensou depois aprender árabe. Mas não gostou do Norte de África. Pôs-se então à boleia e foi parar a Itália. "Fiquei lá um ano. Comecei a ensinar inglês na escola Berlitz e depois, na CineCiutat, comecei a trabalhar na dobragem de filmes. Como professor, na altura, ganhava 63 cêntimos por hora e a fazer dobragens ganhava 23 dólares por hora." Quando voltou aos EUA ainda trabalhou num jornal de Santa Barbara. "Escrevia sobre tudo um pouco. Era um jornal semanal. Comunitário."

Nessa época, recorda, estava a aquecer o Vietname. "Pensei que não queria ir, como soldado, para lá combater. Então pensei em candidatar-me para oficial da Marinha. Porque os marinheiros ficavam ao largo. Não estavam em terra. Ficavam no mar. Fui e fiz o teste. Mas na véspera de viajar recebi um telegrama a dizer que tinham descoberto que eu tinha tido asma em criança e, por isso, não estava apto para ir. Nessa altura, John F Kennedy estava a lançar o Peace Corps e fiquei inspirado porque queria fazer alguma coisa pelo meu país. Por isso candidatei-me. Era jovem e podia ter uma nova experiência internacional. Falava espanhol. E fiquei inspirado com a mensagem de JFK de que podíamos ajudar os outros países em vias de desenvolvimento."

Em 1962, sublinha, foi o milésimo voluntário do Peace Corps. Até escreveu um livro sobre isso, PCV1000, que nunca chegou a publicar. Esteve na República Dominicana, no Brasil, foi o responsável para a Venezuela e vice-diretor do campo de treino para a América Latina. Foi no Brasil, no Recife, que conheceu a mulher, Marly, de 67 anos. "Quando casámos ela tinha 19 e eu 32. Ela não falava bem inglês. Aprendeu depois. Adaptou-se bem aqui e hoje em dia não queria voltar ao Brasil." Tiveram três filhos - Ricardo, Andreia e Daniel - e já têm três netos. "Em 1971 decidi sair do Peace Corps e começar o negócio com a minha irmã." Assim nasceu a Balboa Travel, que já existia com outro nome, junto ao Balboa Park em San Diego. Ainda hoje a antiga sede tem lá as letras da agência. Balboa era o nome do conquistador espanhol Vasco Núñez de Balboa, que em 1513 alcançou o oceano Pacífico atravessando a América Central. A irmã morreu entretanto, em 2013, mas ele continuou com o negócio. "No início era só mesmo cuidar das viagens mas agora são dois negócios num: um é traveler service and support, em que cuidamos das necessidades dos clientes e resolvemos os seus problemas estando sempre acessíveis, o outro é data analysis e travel management, em que fazemos análise para mostrar aos clientes, sobretudo empresas do mercado corporate, como é que elas podem poupar e rentabilizar. O que conseguimos é que as empresas vejam que o que poupam é superior ao que nos pagam. Nós vendemos viagens para todo o mundo e temos empresas que gastam até 80 milhões de dólares em viagens por ano." Segundo cálculos de Joe, a faturação anual da Balboa Travel ronda os 200 milhões de dólares.

A maior parte dos negócios que fazem é para empresas com base nos EUA mas que precisam de organizar viagens para o estrangeiro. "Sim, porque apesar de Donald Trump o mundo económico é um só." É simpatizante democrata e antirrepublicano? "Quando era jovem estive registado como democrata, partido de JFK, mas depois perdi a simpatia por ambos os partidos e hoje sou independente. E creio que muitos americanos estão a seguir esse mesmo caminho."

Joe chegou a conhecer Bill Clinton, também ele democrata, quando há mais de duas décadas, integrando uma comitiva da comunidade portuguesa, em que estava o então primeiro-ministro Cavaco Silva, participou numa visita à Casa Branca. Conheceu também Colin Powell, que foi secretário de Estado no tempo de George W. Bush. "Foi em setembro de 1991, houve uma reunião da NATO, aqui em San Diego, e, a pedido do presidente da Câmara do Comércio, organizei uma festa aqui em minha casa porque tinha uma vista bonita", refere, enquanto aponta para a paisagem que se avista da sua vivenda: toda a baía de San Diego, as centenas de iates e veleiros que nela moram, os arranha-céus do centro da cidade ou o porta-aviões USS Midway (que esteve envolvido nas guerras do Vietname e do Golfo e é hoje em dia um museu). Colin Powell era, na altura, chefe do Estado-Maior conjunto dos EUA.

E quão forte é ainda a sua ligação a Portugal? "No ano passado foi toda a família a Portugal. Fomos aos Açores. Este ano, em março e abril, fui eu e a Marly. Fomos também ao Algarve. Ela tem familiares em Portimão. Nós adoramos Portugal", garante Joe, que tem dupla nacionalidade e fala português com sotaque do Brasil. Muito pela convivência com Marly. "Os meus filhos também falam português. O Daniel fala mais brasileiro, pois também ele é casado com uma brasileira. Em Portugal tento falar mais com sotaque português, mas quando estou aqui, por causa da minha mulher e da minha nora, é o sotaque brasileiro que impera", diz, rindo. Espera que os filhos e os netos deem continuidade não só à ligação à língua e à cultura portuguesa mas também à Balboa Travel? "Não sei. A minha parte está feita. Agora o resto é com eles." Porque a vida é como a placa de madeira que está em cima da secretária de Joe: "It is what it is."

Em San Diego

A jornalista viajou no âmbito da parceria DN/FLAD

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