Novo recorde. Mais de 76 mil migrantes passaram a fronteira do México com os EUA

Em fevereiro, o número de imigrantes ilegais que atravessaram a fronteira do México com os EUA mais do que duplicou face ao mesmo mês de 2018 e constitui um novo recorde nos últimos 12 anos.

No limite. É assim que as autoridades norte-americanas descrevem a atual situação na fronteira com o México. Só no mês de fevereiro 76 mil imigrantes ilegais cruzaram a fronteira com os EUA, mais do dobro em relação ao ano passado (36 751). Segundo os dados do serviço de Alfândega e Proteção fronteiriça dos EUA (CBP, na sigla em inglês) este número marca um novo máximo registado num mês em 12 anos.

"O sistema está muito além da sua capacidade e está num ponto crítico", admitiu na terça-feira Kevin McAleenan, comissário do CBP, em conferência de imprensa.

Trata-se "claramente da segurança nas fronteiras e uma crise humanitária", sublinhou McAleenan.

Dos 76 103 imigrantes que atravessaram a fronteira do México com os EUA no mês passado, 90% são provenientes da Guatemala. Kevin McAleenan explicou aos jornalistas que "muitas famílias guatemaltecas estão a recorrer a autocarros" e chegam à fronteira "em apenas quatro a sete dias de maneira bastante consistente".

Entre os imigrantes ilegais, mais de 7 mil eram menores desacompanhados

As Honduras são o segundo país com mais cidadãos a cruzar ilegalmente a fronteira com os EUA, passando à frente do México, afirmaram as autoridades norte-americanas.

Entre os imigrantes que cruzaram a fronteira, 40 325 estavam em família e 7249 eram menores desacompanhados. É a quarta vez nos últimos cinco meses o número de famílias de imigrantes ilegais bate um recorde.

McAleenan teme que o número de detenções na fronteira venha a aumentar nos próximos meses devido ao bom tempo que torna a travessia menos penosa. Atualmente, a situação que se vive na fronteira sul dos EUA está a tornar-se insustentável, com os centros de detenção a não terem capacidade para receber uma média de 2200 imigrantes por dia.

Segundo o mesmo responsável, chegam diariamente imigrantes "com doenças e com várias condições médicas num nível sem precedentes". Os agentes da fronteiras estão a transferir todos os dias uma média de 55 pessoas para unidades hospitalares, acrescentou McAleenan.

Números que contrariam a política contra a imigração do presidente dos EUA, Donald Trump, que mantém o objetivo de construir um muro ao longo da fronteira com o México.

De acordo o New York Times, mais de 50 mil pessoas estão atualmente detidas, o maior número de sempre.

ONU preocupada com as medidas restritivas à imigração dos EUA

A Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet expressou esta quarta-feira preocupação sobre as novas medidas dos Estados Unidos que restringem a imigração de cidadãos na América Central.

Bachelet disse que o Protocolo de Proteção de Migrantes (MPP) dos Estados Unidos, em vigor desde janeiro, "restringe o acesso ao asilo e a outras formas de proteção de direitos humanos e obriga os migrantes a esperarem do outro lado da fronteira pelos trâmites dos processos sem os procedimentos e as salvaguardas exigidas".

Michelle Bachelet, que apresentou esta quarta-feira o relatório anual sobre os direitos humanos, em Genebra, recordou as frequentes separações de pais e filhos migrantes detidos nos Estados Unidos sublinhando que milhares de crianças são afetadas pelas medidas impostas pelas autoridades norte-americanas.

Bachelet disse que os grupos de imigrantes de El Salvador, Guatemala e Honduras que se dirigem para os Estados Unidos refletem o "fracasso" das políticas de desenvolvimento, com "violações dos direitos que acabam por provocar profundas desigualdades".

Sobre o mesmo assunto, a Alta Comissária elogiou as iniciativas do México sobre a imigração frisando que o governo mexicano "está a esforçar-se para mudar as políticas que previam a detenção e deportação de migrantes centrando-se agora na proteção dos direitos, incluindo oportunidades de regularização".

Exclusivos

Premium

Viriato Soromenho Marques

Madrid ou a vergonha de Prometeu

O que está a acontecer na COP 25 de Madrid é muito mais do que parece. Metaforicamente falando, poderíamos dizer que nas últimas quatro décadas confirmámos o que apenas uma elite de argutos observadores, com olhos de águia, havia percebido antes: não precisamos de temer o que vem do espaço. Nenhum asteroide constitui ameaça provável à existência da Terra. Na verdade, a única ameaça existencial à vida (ainda) exuberante no único planeta habitado conhecido do universo somos nós, a espécie humana. A COP 25 reproduz também outra figura da nossa iconografia ocidental. Pela 25.ª vez, Sísifo, desta vez corporizado pela imensa maquinaria da diplomacia ambiental, transportará a sua pedra penitencial até ao alto de mais uma cimeira, para a deixar rolar de novo, numa repetição ritual e aparentemente inútil.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Agendas

Disse Pessoa que "o poeta é um fingidor", mas, curiosamente, é a palavra "ficção", geralmente associada à narrativa em prosa, que tem origem no verbo latino fingire. E, em ficção, quanto mais verdadeiro parecer o faz-de-conta melhor, mesmo que a história esteja longe de ser real. Exímios nisto, alguns escritores conseguem transformar o fingido em algo tão vivo que chegamos a apaixonar-nos por personagens que, para nosso bem, não podem saltar do papel. Falo dos criminosos, vilões e malandros que, regra geral, animam a literatura e os leitores. De facto, haveria Crime e Castigo se o estudante não matasse a onzeneira? Com uma Bovary fiel ao marido, ainda nos lembraríamos de Flaubert? Nabokov ter-se-ia tornado célebre se Humbert Humbert não andasse a babar-se por uma menor? E poderia Stanley Kowalski ser amoroso com Blanche DuBois sem o público abandonar a peça antes do intervalo e a bocejar? Enfim, tratando-se de ficção, é um gozo encontrar um desses bonitões que levam a rapariga para a cama sem a mais pequena intenção de se envolverem com ela, ou até figuras capazes de ferir de morte com o refinamento do seu silêncio, como a mãe da protagonista de Uma Barragem contra o Pacífico quando recebe a visita do pretendente da filha: vê-o chegar com um embrulho descomunal, mas não só o pousa toda a santa tarde numa mesa sem o abrir, como nem sequer se digna perguntar o que é...

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

"O clima das gerações"

Greta Thunberg chegou nesta semana a Lisboa num dia cheio de luz. À chegada, disse: "In order to change everything, we need everyone." Respondemos-lhe, dizendo que Portugal não tem energia nuclear, que 54% da eletricidade consumida no país é proveniente de fontes renováveis e que somos o primeiro país do mundo a assumir o compromisso de alcançar a neutralidade de carbono em 2050. Sabemos - tal como ela - que isso não chega e que o atraso na ação climática é global. Mas vamos no caminho certo.