Novo Parlamento em Espanha. Um pacto a três e um bebé à mistura

PSOE, Partido Popular e Ciudadanos chegaram a acordo para eleger Patxi López para presidir ao Congresso. Podemos ficou de fora e acusa socialistas de traírem os eleitores, pondo em risco um eventual governo de Pedro Sánchez

Houve deputados que entraram ao som de uma banda, outros que chegaram de bicicleta, uma deputada que levou o bebé para o hemiciclo, muitas caras novas e selfies, juramentos de tomada de posse que saíram fora do tradicional e até lágrimas. Mas no dia da constituição do novo Parlamento espanhol, o mais fragmentado de sempre, houve também um pacto a três que permitiu a eleição do socialista Patxi López como presidente da mesa do Congresso. Um pacto, criticado pelo Podemos, que poderá ter consequências na formação do governo. O prazo de três meses já está a contar, sob a ameaça de novas eleições.

López, ex-presidente do governo basco, foi eleito à segunda volta (quando já só precisava de maioria simples e não absoluta), graças aos 130 votos favoráveis do PSOE e do Ciudadanos e a abstenção do Partido Popular (PP). Um acordo tripartido que permitiu dar pela primeira vez a liderança do Parlamento a um partido que não foi o mais votado, com os populares a terem contudo o maior número de membros no órgão de governo da câmara (três).

O Podemos, que propôs o nome de Carolina Bescansa para a presidência, acusou o PSOE de "trair" os eleitores ao juntar-se ao Ciudadanos e pactuar com o PP. É "dececionante" e "uma vergonha", disse Iglesias, que não conseguiu conter as lágrimas à saída do Parlamento, onde vários apoiantes esperavam a bancada do Podemos para a foto de família aos gritos de "sim, pode-se". Na altura de jurar o cargo, Iglesias prometeu "trabalhar para mudar a Constituição" e usou também a linguagem gestual para repetir a fórmula "um país para a sua gente".

Pacto a três

O líder socialista, Pedro Sánchez, diz que o acordo é fruto da vontade negociadora, negando que esteja ligado à formação do governo e lamentando a negativa do partido de Pablo Iglesias. O PSOE está a contar com o eventual apoio do Podemos para chegar à Moncloa, caso Mariano Rajoy (que deverá ser convidado pelo rei Felipe VI a formar governo após as consultas com os partidos) não consiga apoios para ser reeleito.

O primeiro-ministro espanhol apresentou o acordo com uma espécie de ensaio geral do que pretende para garantir a investidura. O líder do PP insiste na ideia de querer um governo "viável e coerente" que permita "fazer de forma consensual as reformas pendentes" e dar "estabilidade, certeza e segurança" ao país, considerando que as alternativas (governo de esquerdas) iriam apenas gerar "insegurança, incerteza e uma legislação de curta duração".

Já o Ciudadanos surge como a terceira via que possibilitou o acordo. Ainda antes da cerimónia, Albert Rivera teve uma troca acesa de palavras com Iglesias na rádio. "Isto não era o que as pessoas queriam e não o vão esquecer nas próximas eleições", disse o líder do Podemos, com Rivera a responder que já houve eleições e agora é hora de trabalhar.

É mais o que nos une que o que nos separa

Patxi López, num curto discurso após assumir a presidência, lembrou que "é mais o que nos une que o que nos separa", apelando à superação das diferenças. Defendeu ainda que "o diálogo e o entendimento" devem fazer parte do trabalho parlamentar, pedindo "colaboração e compromisso". Para a presidência do Senado, onde o PP tem a maioria, foi reeleito Pío García Escudero.

Diego, o bebé de Bescansa

Na segunda volta da votação para a presidência do Parlamento, houve um voto nulo. No boletim estava escrito "o bebé de Bescansa". Diego, que nasceu há seis meses, acabou por ser um dos protagonistas do dia, depois de a mãe, Carolina Bescansa, ter decidido levá-lo para o hemiciclo. Foi com ele nos braços votar, deu-lhe de mamar e deixou que brincasse com Pablo Iglesias. O gesto da número três do Podemos foi criticado por vários deputados por existir no Congresso uma creche. O ministro do Interior, Jorge Fernández Díaz, acusou-a de "usar o bebé com fins políticos". Carme Chacón, socialista que foi mãe quando era ministra da Defesa, também criticou: "Parece-me muito mal porque há muitas mães trabalhadores que não podem fazer o mesmo e penso que é um mau exemplo, já que se fizeram muitos esforços para que as deputadas, que não gozam de licença de maternidade, possam dar de mamar."

Outras histórias do dia passaram pela chegada dos deputados dos ecologistas do Equo de bicicleta (foram obrigados a ir pelas traseiras). Já os deputados do Compromís foram a pé ao som de uma banda de música. Ambos os partidos concorreram junto com o Podemos, que viu recusada a intenção de ter quatro grupos parlamentares - um em nome próprio e outros três com base nas candidaturas regionais na Comunidade Valenciana, Catalunha e Galiza.

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