Novo chanceler: entre menino-prodígio e miniditador

Aos 31 anos, Sebastian Kurz passa a ser o líder mais jovem da União Europeia. Na política desde os 17, quer ser uma versão conservadora de Emmanuel Macron e Justin Trudeau.

No tweet que enviou a dar os parabéns a Sebastian Kurz pela vitória do Partido Popular Austríaco (ÖVP) nas eleições de domingo, Leo Varadkar diz-se ansioso por trabalhar com o novo chanceler. O primeiro-ministro irlandês, chegado ao poder em maio aos 38 anos, brinca ainda, afirmando-se aliviado por deixar de ser o líder mais jovem da União Europeia. Isto porque aos 31 anos Kurz, o homem a quem os admiradores chamam Wunderwuzzi (menino-prodígio) e os detratores acusam de ser um miniditador de ambição desmedida, deverá liderar o próximo governo austríaco, em coligação com a extrema-direita da FPÖ.

Mas quem é Sebastian Kurz? Criado em Meidling, bairro de classe média de Viena onde ainda vive, o filho de uma professora e de um engenheiro interessou-se pela política ainda na escola. Aos 17 anos aderiu ao ÖVP. Já na faculdade, onde estudava Direito, assumiu a liderança da poderosa juventude do partido.

Aos 24 anos, deixou os estudos para se tornar secretário de Estado da Integração, depois de ter impressionado os barões do partido ao liderar a campanha do ÖVP nos redutos sociais-democratas de Viena. Apesar do ar juvenil, ninguém contestou quando em 2013 lhe ofereceram o Ministério dos Negócios Estrangeiros, fazendo dele o mais jovem chefe da diplomacia europeu. Tinha 27 anos.

Sempre impecavelmente penteado, com o cabelo puxado para trás, Kurz destacava-se nas fotos das cimeiras, ao lado de veteranos como o americano John Kerry ou o iraniano Javad Zarif. Mas isso não o impediu de ser o anfitrião das negociações que levaram à assinatura do acordo sobre o nuclear iraniano. E até de fazer algumas piadas sobre a sua idade.

Num percurso quase sem erros, destaca-se pela negativa uma campanha para as municipais de 2010 em que Kurz surgia em cima de um carro a distribuir preservativos e com o slogan "preto é sexy", sendo o preto a cor do ÖVP.

Como responsável pela Integração, Kurz defendeu mais direitos para os muçulmanos, maior acesso aos empregos para os imigrantes e até convenceu estrelas austríacas filhas de imigrantes a irem às escolas contar as suas histórias. Mas a sua posição radicalizou-se em 2015, no pico da crise dos refugiados. Já ministro dos Negócios Estrangeiros, foi dos primeiros líderes europeus a criticar a política de portas abertas da chanceler alemã, Angela Merkel, defendendo o reforço das fronteiras e organizando o encerramento da chamada rota dos Balcãs.

Líder do ÖVP desde maio, Kurz conseguiu dar a volta às sondagens que colocavam o seu partido em terceiro, atrás do FPÖ, de Heinz-Christian Strache, e dos parceiros de coligação do SPÖ. Extremamente popular, a ponto de os media falarem em kurzmania, este homem alto e esbelto, que faz do fato de bom corte um uniforme mas muitas vezes abdica da gravata, conseguiu renovar a imagem de um partido criado em 1945. Até o preto do ÖVP foi substituído pelo azul-turquesa nos cartazes. "Ele vê-se como uma versão conservadora (do francês) Emmanuel Macron ou (do canadiano) Justin Trudeau", explicava à rádio alemã Deutsche Welle Peter Filzmaier, cientista político nas universidades de Krems e Graz.

Sempre com Susanne Thier, com quem namora desde os 18 anos, ao lado, Kurz tem agora de provar a fama de "messias", fazendo funcionar um governo com a extrema-direita (combinação que existe em algumas regiões austríacas), uma vez que o ÖVP e o FPÖ já rejeitaram repetir a atual coligação de governo.

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