Nova porta-voz de Trump garantiu não mentir. Promessa durou minutos

Kayleigh McEnany foi porta-voz dos republicanos e era a secretária de imprensa da campanha de Trump.

Em política tudo muda de um momento para o outro. Mas uma promessa não durar mais do que escassos minutos não é muito comum. A nova porta-voz do presidente Donald Trump, quarta pessoa no cargo, prometeu aos jornalistas que não iria mentir, mas os votos foram quebrados no espaço de duas perguntas.

"Nunca irei mentir-vos, têm a minha palavra", disse Kayleigh McEnany, de 32 anos, respondeu a uma questão que é da praxe os correspondentes na Casa Branca fazerem.

Logo de seguida afirmou que planeia continuar com as conferências de imprensa, uma rotina que foi abandonada pela segunda pessoa no cargo, Sarah Sanders. A terceira, Stephanie Grisham, nunca fez uma conferência de imprensa, pelo que há mais de 400 dias que não havia uma conferência de imprensa na Casa Branca.

Donald Trump chamou a si o papel de comunicador, sem intermediários, o que se intensificou nas últimas semanas com as suas conferências de horas tendo como tema a pandemia, mas abarcando todos os outros que o homem de negócios escolhia introduzir.

Perante as críticas a que tem sido sujeito pela forma como a sua administração enfrentou o coronavírus, e depois de ter feito a especialmente controversa (mesmo para os padrões de Trump) sugestão de injeções de desinfetante para os pacientes com covid-19, Trump desistiu das conferências diárias. E como isso abriu espaço para Kayleigh McEnany.

Se McEnany causou boa impressão ao mostrar compaixão para com as vítimas da pandemia ou a justificar que quis encurtar a conferência para ir ver o seu bebé de cinco meses, tudo caiu por terra ao faltar à verdade. E mais do que uma vez.

Não se comprovam acusações "comprovadamente falsas"

A primeira mentira de McEnany surgiu quando quesionada sobre os comentários de Trump sobre a alegação de agressão sexual de Tara Reade contra Joe Biden como "muito mais convincente" do que as acusações feitas contra o juiz do Supremo Tribunal Brett Kavanaugh.

"Penso que foi um grave erro judicial o que aconteceu com o juiz Brett Kavanaugh. Não há necessidade de eu trazer à tona as acusações indecentes, horríveis e comprovadamente falsas que foram feitas contra o juiz Kavanaugh", disse. As acusações contra Kavanaugh não são "comprovadamente falsas".

Meses depois uma investigação do New York Times apresentou mais dados incriminatórios contra o juiz que acabou por ser confirmado para o Supremo Tribunal.

Questionada por que razão a opinião pública deveria considerar menos credíveis as alegações de abusos sexuais contra Trump por parte de mais de 20 mulheres do que a que pende sobre Biden, McEnany disse que "o presidente negou rapidamente todas estas alegações que foram levantadas há quatro anos".

No entanto, McEnany esqueceu-se de que nem todas as acusações foram tornadas públicas em 2016. No ano passado a escritora e jornalista E. Jean Carroll acusou Trump de violação, tendo interposto um processo judicial.

Leitura truncada

Questionada sobre documentos do FBI publicados há dias e relativos à investigação do antigo conselheiro de Segurança Nacional Michael Flynn, documentos que Trump usou para dizer que Flynn foi "tramado", McEnany fez uma citação truncada de uma nota, dando a entender algo bem mais grave. "Temos uma nota manuscrita do FBI que diz, e cito, precisamos de fazer com que Flynn minta, e cito, e faça com que seja despedido", disse.

As notas de um agente dizem: "Qual é o nosso objetivo? Verdade/admissão ou fazê-lo mentir, para que possamos processá-lo ou fazer com que seja despedido?".

No entanto, como já foi noticiado, como aqui pelo Vox, o FBI já tinha reunido provas de que Flynn tinha infringido a lei quando os investigadores preparavam o interrogatório, e por isso o objetivo de manipular Flynn para mentir, como McEnany sugeriu, não fará sentido.

Michael Flynn colaborou mais tarde com a justiça na investigação do procurador especial Robert Mueller. A procuradoria aconselhou uma pena de prisão até seis meses, mas o juiz encarregado do caso tem adiado a leitura da sentença.

Sobre o tema, McEnany voltou a dizer uma mentira repetida por Trump e os seus apoiantes, ao referir-se às conclusões do relatório de Mueller como "uma completa e total absolvição do presidente Trump".

O relatório do procurador especial não estabeleceu que o então candidato tenha conspirado com a Rússia, mas não o ilibou do crime de obstrução à justiça.

Defensora de Trump

Formada pela Universidade de Georgetown e pela Faculdade de Direito de Harvard, McEnany chamou a atenção para a defesa do Trump enquanto comentadora da CNN, mas também da Fox News, canal preferido do presidente.

Passou a fazer parte da equipa de comunicação do Partido Republicano e tornou-se na porta-voz da campanha de Trump, cargo que trocou há três semanas pelo de porta-voz da Casa Branca.

Na sua sanha pró-Trump, a verdade e os factos não ligaram muito bem no passado.
McEnany deu voz à teoria da conspiração repetida há anos por Trump de que o ex-presidente Barack Obama não nasceu nos Estados Unidos.

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