Nova geração chega em 2018 para a nova... ou para a mesma velha Cuba

Faltam cerca de 450 dias para Raúl Castro deixar a presidência, como anunciou em 2013. Subsistem sinais contraditórios sobre o futuro do regime fundado por Fidel em 1959. Abertura política permanece improvável

A data mágica é fevereiro de 2018, quando Raúl Castro deixará a presidência do regime cubano, entregando o poder a um novo conjunto de líderes. E a interrogação que se tem colocado com particular insistência desde o anúncio da morte de Fidel Castro é se no espaço de tempo que medeia até ao início de 2018, o atual presidente intensificará os esforços de mudança que se fazem sentir desde que chegou ao poder, em 2006, e se esses esforços irão prosseguir a partir da saída de cena de Raúl e se conhecerão, ou não, novos contornos.

A abertura económica, mesmo controlada, parece indiscutível; já a política surge como remota, atendendo à natureza do regime fundado por Fidel em 1959. A estas certezas relativas está, todavia, associada a incógnita central de quem será a personalidade ou personalidades a dirigirem o novo ciclo em Cuba, após cerca de meio século de hegemonia dos irmãos Castro.

Neste momento, o nome mais citado como sucessor de Raúl é o do primeiro vice-presidente do Conselho de Estado e do Conselho de Ministros, Miguel Diaz-Canel. Número dois do regime desde fevereiro de 2013, assume automaticamente as funções de Raúl em caso de incapacidade deste.

Nascido em abril de 1960 - meses depois da revolução -, Diaz-Canel, integra desde 2003 o comité executivo do Partido Comunista Cubano, tendo o seu nome sido proposto por Raúl. É apresentado pelos media e por alguns diplomatas ocidentais, que estiveram colocados em Havana, como advogado da liberalização económica ou da construção - como Raúl disse em 2013 - de "uma sociedade menos igualitária, mas mais justa", ultrapassando "os muros do imobilismo e das mentalidades obsoletas". De forma significativa, no 7.º Congresso do PC Cubano, em abril passado e em que esteve presente Fidel, Raúl recusou a aplicação de "terapias de choque" e a "restauração do capitalismo".

Outro nome que tem sido referido para uma posição de destaque no pós-Raúl é o de ex-ministro da Economia Marino Murillo, afastado do cargo há quatro meses, e considerado o artífice do processo de liberalização nesta área. Murillo não perdeu, contudo, o lugar no Conselho de Estado e o argumento indicado foi o de que deveria concentrar-se "nas tarefas vinculadas à atualização do modelo económico e social" do país. Murillo, que nasceu em 1961, fora nomeado por Raúl em 2009, afastado em 2011 mas chamado de novo em 2014. Dias antes de ser afastado pela segunda vez, falando no Parlamento, traçara um quadro pesado da situação económica. Um dado a ter presente: a fuga de sua filha para os EUA, em 2012, tê-lo-á tornado suspeito aos setores ortodoxos do regime.

Um terceiro nome que integra habitualmente as listas de protagonistas para o novo ciclo é o de Alejandro Castro Espín, único filho de Raúl, um dos principais responsáveis pela segurança interna e com um papel de relevo nas negociações que culminaram, em dezembro de 2014 no restabelecimento de relações diplomáticas com os EUA. Ao contrário de Murillo e Diaz-Canel, é considerado próximo dos ortodoxos e dado como certo que estará no governo a formar em 2018.

À provável liberalização económica e à improvável abertura política, é necessário somar um outro elemento, a adaptação psicológica da população a um novo ciclo. Gerações de cubanos nasceram, viveram e morreram à sombra de Fidel e Raúl, mas a partir de 2018 os nomes serão outros, e a relação entre a nova liderança e a sociedade será também diferente. O que por si só representa um desafio.

Quanto à chamada "geração histórica", os contemporâneos de Fidel e Raúl, como este notou indiretamente no discurso no 7.º Congresso do PC Cubano, em que foi anunciada a nova composição do Conselho de Estado, o seu tempo chegou ao fim. Parcialmente. Depois de elogiar o facto de alguns desses elementos terem-se retirado de forma voluntária, Raúl salientou que dos 31 membros do Conselho de Estado (órgão executivo eleito pelo Parlamento), mais de 60% nascera depois de 1959, sendo a idade média de 57 anos, mais de 50% eram novos elementos e, no total, 41,9% do sexo feminino. Na mesma intervenção, Raúl anunciou "a limitação de mandatos dos principais dirigentes a dois quinquénios" e "um limite de idade para o exercício de tais responsabilidades. Mas que só entrará em vigor a partir de 2021. Por isso, entre os 17 membros no comité executivo do PC Cubano, permanecem cinco "históricos", com idades entre os 72 e os 85, todos eles detentores de cargos militares.

Foi em fevereiro de 2013 que Raúl anunciou que o mandato presidencial que iniciava seria o último. Faltam agora cerca de 450 dias para essa meta. Mas, na mesma ocasião, o dirigente cubano não fez alusão a deixar a liderança do PC Cubano.

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