"Nojento", o cartaz pró-brexit que lembra a época nazi

Nicola Sturgeon ataca o novo material de campanha de Nigel Farage. Angela Merkel critica políticos britânicos e apela à contenção verbal

No mesmo dia em que a deputada trabalhista Jo Cox foi assassinada em circunstâncias ainda pouco claras - mas que apontam para um ato de ódio político -, Nigel Farage, líder dos independentistas do Ukip, lançou um novo cartaz de campanha pró-brexit, com uma fotografia de imigrantes, que está a gerar uma onda de indignação no Reino Unido. Nicola Sturgeon, a primeira-ministra escocesa, classificou-o como "nojento".

A fotografia que aparece no cartaz foi tirada no verão de 2015 e mostra uma coluna de imigrantes em trânsito da Croácia para a Eslovénia. A acompanhar a imagem aparece o seguinte texto: "Ponto de rutura. A UE deixou-nos ficar mal a todos. Devemos sair da União Europeia e retomar o controlo sobre as nossas fronteiras."

Não tardou até que nas redes sociais se chamasse a atenção para as semelhanças entre a fotografia escolhida por Farage e uma imagem de propaganda nazi divulgada em 2005 num documentário da BBC. O conservador Boris Johnson, principal rosto entre os defensores da saída do Reino Unido da União Europeia, não perdeu tempo a distanciar-se do cartaz do Ukip. "Não faz parte da nossa campanha. Essa não é a nossa política", afirmou o ex-presidente da câmara de Londres.

Farage, que não reconhece as críticas, fez a defesa do cartaz. "Como podem ver na fotografia, a maioria são homens jovens. Sim, podem estar a vir de países que não estão numa condição muito feliz, podem vir de lugares mais pobres, mas a UE cometeu um erro fundamental que coloca em risco a segurança de todos."

De acordo com o The Guardian, quando lhe foi sugerido que as pessoas na fotografia eram refugiados, o líder do Ukip respondeu: "Isso não sabemos. Segundo a convenção de Genebra são muito poucos aqueles que entraram na Europa no último ano que podem ser classificados como genuínos refugiados. Quando o Estado Islâmico diz que vai aproveitar a crise migratória para inundar o continente com terroristas, provavelmente está a falar a sério."

Dave Prentis, secretário-geral da Unison, o segundo maior sindicato britânico, apresentou uma queixa na polícia alegando que o cartaz viola a lei ao incitar ao ódio racial. "Os defensores do brexit não poderiam ter descido mais baixo na sua tentativa de assustar as pessoas com o objetivo de as levar a votar pela saída", afirmou o sindicalista ao diário britânico.

Merkel pede contenção verbal

Na sequência do crime que vitimou Cox e do cartaz apresentado por Farage, várias vozes, nas últimas horas, sublinharam a necessidade de promover a tolerância e criticaram a radicalização do discurso que tem tomado conta da campanha para o referendo da próxima quinta-feira.

Uma dessas vozes foi a de Angela Merkel. Sublinhando que não quer fazer qualquer ligação entre a morte de Cox e a votação sobre o brexit, a chanceler alemã apelou aos políticos britânicos para moderarem as intervenções. "Os exageros e a radicalização da linguagem não ajudam a criar uma atmosfera de respeito. Todos sabemos como é importante definir limites na escolha das palavras e na escolha dos argumentos. De outra forma a radicalização torna-se incontrolável", afirmou a chanceler alemã, em Berlim, em declarações aos jornalistas.

Também David Cameron, no discurso que ontem fez em Birstall numa cerimónia de homenagem a Jo Cox - na qual também esteve presente o líder trabalhista Jeremy Corbyn -, apelou à tolerância. "Devemos ver como algo muito precioso a democracia que temos nestas ilhas onde 65 milhões de pessoas vivem e trabalham em conjunto. Tudo isto tem por base a tolerância. Sempre que encontrarmos ódio e intolerância devemos tudo fazer para afastar esses sentimentos da nossa política, da nossa vida pública e das nossas comunidades", enfatizou o primeiro-ministro, que depositou flores no local onde Jo Cox foi assassinada.

David Cameron revelou ainda que conheceu Jo Cox em 2006, no Darfur, "onde ela estava a fazer aquilo em que era brilhante: ajudar refugiados e salvar as vidas dos mais vulneráveis".

Jeremy Corbyn acompanhou o primeiro-ministro na homenagem à deputada trabalhista. "O que aconteceu ontem foi um ataque à democracia. Em nome da sua memória não podemos deixar que aqueles que espalham o ódio envenenem a nossa sociedade. Vamos fortalecer ainda mais a nossa democracia e vamos cimentar ainda mais a liberdade de expressão", afirmou o líder do Labour.

As campanhas devem continuar suspensas durante o dia de hoje. A mais recente sondagem, revelada na quinta-feira, dá a vitória ao brexit por 53% contra 47%.

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