Nobel para luta contra nuclear e com recado para líderes mundiais

Prémio da Paz reconhece trabalho da Campanha Internacional para a Abolição das Armas Nucleares quando "vivemos num mundo em que o risco de as armas nucleares serem usadas é maior do que há muito".

Com a Coreia do Norte a subir o tom entre mísseis balísticos e um novo ensaio nuclear, com o Irão a garantir que consegue voltar a enriquecer urânio em cinco dias se Donald Trump romper o acordo assinado em 2015, parece confirmar-se o alerta deixado por Berit Reiss-Andersen de que "vivemos num mundo em que o risco de as armas nucleares serem usadas é maior do que era há muito tempo". Uma realidade que levou o Comité Nobel a atribuir, ontem, o prémio da Paz à Campanha Internacional para a Abolição das Armas Nucleares (ICAN). Um galardão que distingue o esforço da coligação de 468 ONG para eliminar todas as armas nucleares e ao mesmo tempo manda uma mensagem forte aos líderes mundiais.

Afirmando ter pensado que se tratava de uma piada quando recebeu o telefonema a dizer-lhe que tinha vencido o Nobel, Beatrice Fihn, a diretora executiva da ICAN, explicou aos jornalistas que este é um "enorme sinal" de que o seu trabalho é "necessário e apreciado". Nascida na Austrália em 2007, a ICAN agrega ONG em mais de cem países e está sediada em Genebra.

O seu objetivo é pôr o foco da luta contra as armas nucleares nas consequências humanitárias. "As leis da guerra dizem que não se podem alvejar civis. As armas nucleares têm civis como alvo; são pensadas para destruir cidades inteiras. É inaceitável e as armas nucleares já não têm desculpa para existir", explicou a sueca nascida em Gotemburgo há 37 anos e que antes de trabalhar na ICAN foi líder da Liga Internacional de mulheres pela Paz e Liberdade.

Ontem foi de garrafa de champanhe na mão que Fihn surgiu a festejar o Nobel, mas foi com Coca-Cola e batatas fritas que celebrou a maior vitória da ICAN até agora. Em julho, a organização conseguiu que a ONU aprovasse um Tratado para a Proibição das Armas Nucleares. Este obteve o apoio de 122 países - só 53 o assinaram e apenas três (Guiana, Vaticano e Tailândia) o ratificaram até agora. A verdade é que nenhuma das nove potências nucleares - EUA, Rússia, China, França, Reino Unido, Índia, Paquistão, Israel (apesar de não o admitir) e Coreia do Norte - deram luz verde ao tratado, tal como nenhum membro da NATO o fez.

É verdade que já existe o Tratado de Não Proliferação Nuclear, em vigor desde 1970, mas se este convenceu alguns Estados a desistir dos programas nucleares em troca de benefícios e conseguiu reduzir os arsenais, nunca teve como objetivo banir totalmente as armas nucleares. Um cenário que as potências nucleares originais não parecem inclinadas a aceitar. Índia, Paquistão e Israel nunca o assinaram e a Coreia do Norte saiu em 2003, três anos antes do seu primeiro ensaio nuclear.

Hoje, o regime de Pyongyang não só vai no sexto ensaio nuclear como os especialistas concordam que estará perto de conseguir a tecnologia para miniaturizar ogivas e colocá-las em mísseis intercontinentais. Alguns destes mísseis terão capacidade para atingir o território dos EUA, inclusive cidades da costa leste como Nova Iorque ou Washington.

A escalada verbal entre Donald Trump e Kim Jong-un tem feito subir o receio de uma potencial guerra nuclear. Com o presidente americano a ameaçar "lançar o fogo e a fúria" à Coreia do Norte, enquanto o líder norte-coreano promete levar "um triste fim" aos EUA.

Mas esta não é a única frente "nuclear" que Trump tem aberta. O presidente americano, que sempre considerou o acordo com o Irão "o pior" que já viu, não deverá na próxima semana certificar o documento, como a Casa Branca tem de fazer de três em três meses. A data expira a 15 de outubro e segundo os media americanos como o New York Times e Washington Post, Trump deverá remeter a responsabilidade para o Congresso que terá 60 dias para decidir se impõe novas sanções ao Irão.

Num encontro com militares na Casa Branca na quinta-feira à noite, Trump afirmou que aquilo era "a calma antes da tempestade", recusando esclarecer a que se referia, mas reforçando a ideia de que se prepara para abandonar o acordo com o Irão. Segundo o Washington Post, os líderes europeus estarão a preparar uma contraofensiva, encorajando as empresas a investir no Irão e apelando ao Congresso para que não deixe cair o acordo. Até porque se os EUA voltarem às sanções, a resposta do Irão - que sempre garantiu procurar apenas o nuclear civil - será muito provavelmente o reativar dos reatores e voltar a enriquecer urânio.

Com a tensão a subir nos últimos meses na Ásia Oriental e agora também com o Irão, Estados Unidos e Rússia estão ambos ativamente a tentar modernizar os seus arsenais militares. "A minha primeira ordem como presidente foi para renovar e modernizar o nosso arsenal nuclear. É agora muito mais forte e mais poderoso do que alguma vez foi", escrevia Trump no Twitter no passado dia 9 de agosto.

Ora se ninguém duvida que a entrega do Nobel da Paz à ICAN é também um recado aos líderes mundiais para pensarem nas consequências que as armas nucleares têm, a própria Beatrice Fihn não hesitou no passado em criticar de forma feroz alguns deles. Como fez ainda na quarta-feira quando tweetou: "Donald Trump é um anormal."

Ontem, a ICAN - apoiada por personalidades como o bispo sul-africano Desmond Tutu, o ator Michael Douglas ou o ex-secretário--geral da ONU Ban Ki-moon - reagiu ao Nobel com novo alerta: "É um momento de grande tensão no mundo, quando declarações inflamadas nos podem facilmente conduzir a um horror sem nome." E por muito que pareça difícil convencer tanto grandes potências como países que ambicionam ter a bomba a abdicar desse poder, "se há um momento para as nações declararem a oposição inequívoca às armas nucleares, esse momento é já".

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