No Café Madeira o terrorismo preocupa mais do que o brexit

Após os receios iniciais com o resultado do referendo de há um ano, hoje os portugueses em Londres mostram-se mais receosos dos recentes atentados na capital britânica do que com a saída da União Europeia do país onde vivem há anos.

A televisão está sintonizada na TVI, nas mesas bebe-se Super Bock, mas também há Compal ou Sumol. A sopa do dia é caldo-verde, no balcão há salada de polvo e no menu filetes de peixe-espada, sardinha assada ou carne de porco à alentejana. Nas paredes há um mapa da Madeira, que dá nome ao estabelecimento, e quadros de algumas das paisagens da ilha. Este podia ser um qualquer café ou restaurante em Portugal, mas estamos em Stockwell, no Sul de Londres, onde vivem cerca de 35 mil portugueses. E, pelo menos aqui, não é o brexit, mas o terrorismo, que gera preocupação.

"Isso é que é preocupante, esses malucos que andam por aí, não é o brexit", diz Pedro, de 40 anos, mais de metade da vida a viver em Londres e a trabalhar na construção. "Eu vim sem nada, mas procurei e arranjei logo trabalho. Quem já cá está e é trabalhador não terá problemas, com ou sem brexit, mas quem quiser vir agora arranjar trabalho é que pode ter dificuldades", diz, enquanto espera pelo seu bife com batatas fritas. "O maior problema é quem não tem trabalho e está a receber subsídios", acrescenta.

No sábado à noite, quando uma carrinha branca atropelou quem passava na Ponte de Londres antes de os seus três ocupantes começarem a esfaquear quem estava no Mercado de Borough, Mauro estava a regressar de um concerto. O português de 39 anos devia ter trocado de metro na estação da Ponte de Londres (Stockwell fica a cinco estações), mas o maquinista limitou-se a dizer que não iria parar. Só quando chegou à superfície soube que tinha havido mais um ataque. "Assustei-me um bocado, mas também não vou deixar de fazer aquilo que faço no dia-a-dia", explica. "Ninguém está livre. Mesmo em Portugal, do nada pode acontecer qualquer coisa."

Mauro está em Londres há quatro anos e também chegou sem ter um emprego planeado. Hoje trabalha em jardinagem e diz não estar "nada preocupado" com o brexit. Sabe que aqui se ganha três vezes mais do que em Portugal, "mesmo que seja um trabalho não muito bom", e antes de atacar o caldo-verde diz que só lamenta o preço das rendas. Em relação ao trabalho, mostra-se confiante: "Eles precisam de nós. Há certos e determinados trabalhos que eles não fazem. São eles próprios que dizem que não vão mandar ninguém embora porque precisam das pessoas."

O pequeno café fica na rua Stockwell, ao lado do Café Sintra, da Bakery Funchal ou do bar de tapas O Cantinho de Portugal, que serve de ponto de encontro dos cerca de 35 mil portugueses que vivem na região de Lambeth (dividido em dois círculos eleitorais, ambos Labour nas eleições de 2015). No Reino Unido, inscritos na embaixada, vivem 350 mil portugueses. Noutra das mesas do café está Maria, de 66 anos. Há 20 que está em Londres e não perdeu o sotaque madeirense. "Ao princípio, quando foi o referendo do brexit, fiquei um bocado balançada, mas agora já não", explica, dizendo que os britânicos podem fazer o que quiserem. "Se me mandarem embora eu vou, se me deixarem cá estar, aqui continuo", refere, admitindo que nunca gostou de viver aqui. "A necessidade obriga", acrescenta, dizendo que os sete filhos vivem também no Reino Unido.

À sua frente está Nancy, de 49 anos, não tem problemas em dizer que está mais preocupada com o terrorismo do que com o brexit. "É assustador. Eles não conseguem controlar isto. Há muita insegurança", diz, à espera da conta. A portuguesa de Castro Daire, que visita todos os anos, lembra que "o mundo árabe também traz muita economia para a Inglaterra" e que, independentemente de quem vencer as eleições de hoje, "terá muita dificuldade em travar o terrorismo".

Em relação ao brexit, a posição da primeira-ministra, Theresa May, é de que não haver acordo é melhor do que um mau acordo para o Reino Unido. Os conservadores querem sair do mercado único e da união alfandegária, enquanto os trabalhistas de Jeremy Corbyn rejeitam a ideia de não haver acordo e querem rasgar as diretivas do atual governo para as negociações com Bruxelas, que começam dentro de 11 dias. Mas também garantir de imediato os direitos dos cidadãos da União Europeia que vivem no Reino Unido. Os liberais-democratas, de Tim Farron, querem um referendo no final das negociações, com a opção de o país continuar a fazer parte da União Europeia.

No que diz respeito ao terrorismo, depois da morte de oito pessoas no ataque de sábado à noite, May defendeu que "basta" e prometeu mão de ferro. A primeira-ministra fala até de mudar as leis de direitos humanos para poder restringir a liberdade e movimento dos suspeitos de terrorismo, depois de se saber que os serviços de informação conheciam pelo menos dois dos responsáveis pelo último ataque em Londres. Já Corbyn, que no passado se mostrou contra a política de disparar para matar da polícia, recuou diante dos recentes eventos - os agentes abaterem os atacantes oito minutos após ser lançado o alerta.

Nancy está cá há 30 anos e os filhos já nasceram no Reino Unido. A mais velha já tem idade para votar. "Ela não gosta de nenhum deles, não sei em quem votará. Acho que Theresa May ainda não mostrou qual será a sua agenda verdadeira, mas o outro não é melhor do que ela. Ele é muito fraco, não convence as pessoas", alega a portuguesa, que trabalha para uma designer de interiores. "Não me interessam nada as eleições. Nem em Portugal nem aqui, onde nem sequer posso votar", diz Pedro, explicando que lhe é indiferente quem ganha. Já Mauro admite que gostava que ganhasse o Partido Trabalhista. "Não sei se seria melhor ou pior, mas pelo menos seria diferente. À partida, pior não pode ficar", alega o português.

Enviada a Londres

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