Nem o apoio ambíguo da autarca de Madrid deve evitar derrota de Sánchez

Carmena, aliada do Podemos, defendeu um "governo forte de mudança". PSOE interpretou como aprovação do pacto com Rivera

O último argumento dos socialistas para evitar hoje uma nova derrota de Pedro Sánchez foi lembrar a Pablo Iglesias os acordos que permitiram aos candidatos apoiados pelo Podemos ser eleitos em várias autarquias. O facto de a presidente da Câmara de Madrid, Manuela Carmena, ter defendido um "governo forte de mudança" foi o mote para usar esse último cartucho. Mas isso não deverá impedir que a votação desta noite, no segundo debate de investidura, sirva apenas para cumprir agenda. Partido Popular e Podemos já disseram que querem dialogar com o PSOE, mas só depois dessa nova derrota de Sánchez.

"Gostaria de um acordo para um governo forte de mudança. Seria bonito apoiar quem está neste momento a solicitar a investidura porque daria lugar a um governo de progresso e de mudança", disse Carmena num ato incluído nas comemorações do Dia da Mulher. "O pior que nos pode acontecer é repetir as eleições, por isso quero e desejo com toda a minha força que destes debates saia um acordo por um governo forte de mudança", acrescentou a autarca independente eleita numa coligação que incluía o Podemos e que só com o apoio dos socialistas pôde assumir a Câmara de Madrid.

Estas palavras foram interpretadas pelo PSOE como de apoio ao pacto assinado com o Ciudadanos, que garantiu apenas 130 votos (de 350 possíveis) na primeira votação. "Pedimos a Iglesias que oiça o que Carmena lhe diz e apoie Sánchez na investidura, ainda faltam 24 horas, há tempo suficiente", disse o porta-voz dos socialistas no Congresso, Antonio Hernando. "Há uma segunda oportunidade e pedimos às forças de mudança que aproveitem", acrescentou. Além de Madrid, o PSOE apoiou os "governos de mudança" em Saragoça, La Coruña, Santiago ou Cádis, "sem pedir pastas, cargos ou estabelecer linhas vermelhas", lembrou Hernando.

Carmena usou a sua conta pessoal no Twitter para esclarecer que falava num governo de esquerdas: "Um governo forte e de mudança é um governo de coligação entre o PSOE e o Podemos. Que ninguém me interprete mal", escreveu na mensagem que foi depois partilhada na rede social por Iglesias.

A meio da tarde, Carmena falou aos meios de comunicação para repetir a mensagem: "Claro que o que desejo é que haja um governo estável e forte, que tem de ter uma aliança das esquerdas." Questionada sobre se isso excluía o Ciudadanos, acrescentou: "O importante é que se consiga isso, um governo estável e de esquerdas."

Futuro

Apesar dos últimos cartuchos do PSOE à procura do apoio do Podemos, os restantes partidos já estão a pensar no dia de amanhã, depois da previsível derrota de Sánchez no debate de hoje à noite. A secretária-geral do PP, María Dolores de Cospedal, disse ontem numa entrevista à Tele5 que Mariano Rajoy irá telefonar ao líder do PSOE depois da votação para reiterar a sua proposta de uma grande coligação com o Ciudadanos, liderada pelo ainda primeiro-ministro.

Mas esse cenário de uma aliança a três parece também distante, com o líder do Ciudadanos, Albert Rivera, a dizer que Rajoy "rompeu todas as pontes" de diálogo ao recusar falar com ele. "Rajoy disse não a toda a gente." Questionado pela rádio sobre se vai manter, depois de hoje, o apoio a Sánchez, respondeu: "Entramos em território desconhecido. Não sei o que vai fazer o rei." Felipe VI deverá voltar a ouvir os partidos depois de falhada a investidura de Sánchez, podendo voltar a nomeá-lo ou escolher outro candidato.

Também o Podemos e a Esquerda Unida, que dizem que há maioria suficiente para um governo de esquerdas, querem voltar a negociar com o PSOE depois da votação. "Pode ser já no sábado", disse o secretário da organização do Podemos, Sergio Pascual. Os socialistas exigem um pedido de desculpa de Iglesias, depois dos ataques no debate de quarta-feira, mas continuam a dizer que têm a mão estendida para dialogar.

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