"Não vejo condições para que Kirchner volte a ser candidata a presidente"

O ex-embaixador argentino em Portugal, que preside à Fundación Embajada Abierta, acredita que começou o declínio do kirchnerismo dentro do peronismo. Ao DN, analisa o resultado das eleições intercalares em que o presidente Mauricio Macri foi o grande vencedor e a sua antecessora Cristina Kirchner conseguiu ser eleita senadora, apesar da derrota.

Qual o impacto das eleições intercalares para o presidente Mauricio Macri?

De certa forma podemos dizer que Macri emergiu como presidente destas eleições. Nós os argentinos tínhamos a sensação de que o triunfo de Macri nas presidenciais, há dois anos, tinha sido produto dos erros do governo anterior, da conjuntura. Contudo, agora, podemos pensar que na Argentina está a ocorrer o mesmo que na maioria das democracias ocidentais, que é a crise dos partidos tradicionais e o aparecimento de forças políticas novas.

Cristina Kirchner foi eleita senadora mas perdeu na província de Buenos Aires. Estamos perante uma crise do kirchnerismo ou de todo o peronismo?

Kirchner, contra todos os prognósticos, mantém um caudal de votos muito consolidado. Ter tido 37% na província de Buenos Aires, que é metade do país, não é um dado menor. Ter obtido em todo o país à volta de 4,9 milhões de votos também não. Contudo, tenho a impressão de que no peronismo o ciclo do kirchnerismo começou o seu declínio.

Acha que já está fora da luta para 2019?

Não vejo condições políticas para que volte a ser candidata a presidente. Acho que vai passar a ser uma expressão minoritária no Senado.

Esta foi a segunda derrota consecutiva do peronismo. Vão recuperar?

Não sabemos quanto tempo levará a recomposição. O que sabemos é que, sempre que perdeu eleições, o peronismo recuperou o governo passados poucos anos e quando o fez ficou durante vários mandatos. Nas duas últimas vezes que o peronismo perdeu, os governos que lhe sucederam não puderam terminar o mandato. Não parecia o caso de Macri, que apareceu nas eleições intercalares consolidado politicamente. Agora está a convocar as forças políticas e sociais para acordar um pacote de medidas que quer implementar. Não sabemos se vai conseguir, porque não tem maioria própria no Congresso, mas tem sabido negociar. Há setores do peronismo que colaboraram, e muito, com Macri para poder aprovar uma série de leis que o governo necessitava nos últimos dois anos.

Agora está mais reforçado para fazer essas mudanças...

Sim. Mas a verdade é que agora também começa a corrida presidencial.

Conseguirá o peronismo ter um candidato forte para 2019?

Não sabemos. Parece pouco provável. Parece-me que se está a abrir um período de discussão interna e não sabemos se vai demorar dois anos, seis... Hoje estava a ler a capa de uma revista histórica, que foi muito importante mas já não existe na Argentina, chamada Primera Plana. Nessa revista, de 1962, toda a primeira página tinha uma única pergunta: "É o fim do peronismo?" Passaram mais de 50 anos e não me surpreenderia que alguma revista de atualidade importante pergunte o mesmo.

Os peronistas que aceitam negociar com Macri não ficarão malvistos?

Não, porque as pessoas veem com bons olhos quando, em situações difíceis, a oposição colabora com o governo. A minha opinião pessoal é de que Juan Manuel Urtubey [governador de Salta] vai ser candidato em 2019. É um dirigente jovem, tem muita personalidade, governou duas vezes a sua província. Perdeu agora por pouco no marco do que se chama a onda amarela, a cor do partido de Macri. Urtubey perdeu as eleições nacionais mas ganhou todos os cargos internos da província que estavam em disputa. A onda amarela parece ter-se imposto a nível nacional, mas a nível provincial houve uma consolidação de Urtubey. Todas as possibilidades estão abertas. Olhando para o passado, apostaria que o peronismo será capaz de renovar-se não só a nível da liderança mas também das políticas implementadas.

Quais são as hipóteses de Macri?

Hoje, objetivamente falando, Macri tem sérias possibilidades de ser reeleito. Vai depender dele. Vai depender da sua gestão e das condições "atmosféricas" que haja na Argentina.

A economia parece estar a recuperar...

O mínimo. Macri recebeu o governo com uma situação privilegiada porque recebeu um país sem dívida. E hoje deve ser o governo que se está a endividar a maior velocidade no mundo. Isso tem um limite. Há vários desafios que Macri tem pela frente, porque não poderá continuar a governar contraindo dívida. Além disso, está a fazê-lo a uma taxa alta. O governo Macri vai centrar os seus esforços em angariar investimentos genuínos. Para isso tem três eventos importantes pela frente. O primeiro é que a Argentina vai ser sede da 11.ª Conferência Ministerial da Organização Mundial do Comércio, entre 10 e 13 de dezembro. Depois, em poucas semanas assume a liderança do G20 e vai ser sede da cimeira de chefes de Estado e governo em novembro de 2018. É outra possibilidade importante para mostrar a vontade da Argentina de, como diz Macri, "voltar ao mundo". Em terceiro lugar, prepara-se para duas negociações importantes. Uma é a do Mercosul com a União Europeia. Outra é com a Aliança Pacífico. Ambas são difíceis. A primeira porque há um endurecimento da posição europeia a partir do avanço das forças nacionalistas e populistas na Europa, que diminui a margem de negociação dos líderes europeus. França, Irlanda e Polónia lideram a ala dura no tema mais sensível que o Mercosul tem, que é o terreno agrícola.

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