Nacionalistas da Córsega em rota de colisão com Paris

Maioria absoluta na ilha reforça reivindicações de autonomia. Disponibilidade do poder central para negociar fará a diferença entre soluções de consenso ou novas tensões.

O resultado histórico dos nacionalistas corsos na segunda volta das eleições regionais de dez de dezembro, ao elegerem 41 dos 63 lugares no Parlamento local, veio demonstrar que esta região entre as menos ricas de França possui uma identidade diferenciada e vai representar um sério desafio para a presidência de Emmanuel Macron.

Um sinal da dimensão do desafio pode retirar-se do resultado do partido do presidente, República em Marcha (LREM, na sigla em francês), que não foi além dos 12%, ficando atrás da principal formação da oposição a nível nacional, Os Republicanos (LR, sigla em francês), que tiveram quase 13%. Desde a criação do Parlamento local, em 1982, nenhuma família política tinha conseguido um resultado com a dimensão da maioria absoluta alcançada pelos nacionalistas.

Com a maioria absoluta, a pressão dos nacionalistas será, estimam os analistas, em áreas que reforcem a autonomia, como o uso oficial do dialeto local (com mais afinidades com o italiano do que com o francês), concedam mais competências à região e o poder central admita um incremento na transferência de verbas e receitas na esfera fiscal. Por outro lado, dois dados são referidos para indicar que os partidos nacionalistas não deixam de estar condicionados. É recordado que as sondagens dão uma clara maioria ao sim à permanência em França e que, se a coligação Pè a Corsica (pela Córsega) alcançou mais de 56% dos votos, a abstenção foi elevada, ultrapassando os 47%.

O dirigente de um dos componentes da coligação, o Femu a Corsica (Criemos a Córsega), Gilles Simeoni, que já dirigia desde finais de 2015 o conselho executivo da Córsega, e que vê agora reforçada a sua posição com a maioria absoluta, tem um problema político inerente à própria coligação. Se o Femu a Corsica pode definir-se como de centro-esquerda e essencialmente autonomista, o parceiro de coligação, o Corsica Libera (Córsega Livre), em que se destaca Jean-Guy Talamoni, é assumidamente de extrema-esquerda e independentista. Se foi possível a concertação de uma agenda única, não é de excluir que, mais adiante, não surjam divergências e venha a cavar-se, de novo, o fosso que dividiu no passado os dois projetos para a Córsega.

"Uma nação"

Simeoni disse-o claramente na noite da primeira volta, a 4 de dezembro, quando afirmou que "serão os corsos a decidir. Se não quiserem a independência, não haverá independência". Talamoni, reconhecendo que a tendência independentista é "ainda minoritária", manteve que, "se os corsos quiserem daqui a dez ou 15 anos, ninguém poderá opor--se" à independência.

Após a segunda volta, Talamoni foi ainda mais longe: "A ilha não é uma circunscrição administrativa nem apenas uma circunscrição eleitoral, é realmente uma nação." E ameaçou com "manifestações populares" se Paris manifestar aquilo que classificou como "uma real negação da democracia".

O resultado destas eleições reflete o desaire dos "partidos tradicionais, que foram eliminados" e a confirmação de um novo grupo de dirigentes corsos, que afastou "as antigas gerações de responsáveis políticos", explicava no início da semana ao Le Monde Michel Vergé-Franceschi, especialista em história marítima e na questão corsa.

O novo conselho executivo da Córsega, que é votado no Parlamento, será o primeiro a dirigir a nova entidade territorial da ilha, que vai nascer a 1 de janeiro de 2018, agregando as instâncias administrativas hoje existentes.

A Córsega, mais conhecida por ter sido o local de nascimento de Napoleão Bonaparte em 1769, na principal cidade do território, Ajaccio, viveu um surto de violência entre os anos 70 do século XX até 2014, quando o principal movimento independentista, a Frente de Libertação Nacional Corsa (FLNC), anunciou o fim da luta armada. Este anúncio antecedeu o crescimento eleitoral dos partidos nacionalistas, acompanhado por alguma moderação e pragmatismo do seu discurso.

Desde 2014 que os nacionalistas têm obtido sucessivos sucessos eleitorais: ganharam a Câmara de Bastia naquele ano para, em 2015, terem a maioria relativa nas regionais. Nas legislativas francesas de 2017, em quatro deputados atribuídos à Córsega, elegeram três.

Hoje, a principal reivindicação é a aplicação faseada de um estatuto de território autónomo para a Córsega, a iniciar no máximo dentro de três anos e cuja total aplicação deve situar-se no espaço de uma década. É aqui que reside o principal desafio para as autoridades de Paris, que terão de responder positivamente, pelo menos, nas áreas antes referidas do corso como segunda língua oficial e no reforço de competências a nível local.

Em paralelo, e ponto ainda mais contencioso com o poder central, os nacionalistas pedem a "libertação de todos os presos políticos", referência aos envolvidos na luta armada pela independência, o que Paris dificilmente poderá aceitar.

O nacionalismo corso e as reivindicações independentistas resultam da história da ilha, que foi parte da república de Génova até 1735, quando declarou a independência, nunca reconhecida.

Em 1768, Génova cede-a a França, que a domina militarmente no ano seguinte. Desde então, nunca deixou de existir um sentimento nacionalista e independentista na ilha, que apresenta indicadores económicos modestos, muito centrados na agricultura e no turismo.

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