"Na questão dos refugiados, a mercearia era a maior preocupação de Salazar"

A Guerra Civil de Espanha faz 80 anos.

Em 1936, nos primeiros meses do conflito, apenas a Barrancos chegaram mais de mil refugiados. Em Contra as Ordens de Salazar, o jornalista Pedro Prostes da Fonseca conta a história dos portugueses que ajudaram espanhóis

Ao escrever este livro pensou muitas vezes nos dias de hoje e na questão dos refugiados?

É inevitável. E pensei sobretudo que neste tempo não havia quaisquer acordos mundiais sobre refugiados.

Com o início da guerra e o levantamento dos nacionalistas liderados por Franco, muita gente começa a tentar passar a fronteira. Gente que tenta escapar para não morrer. Foram muitos os que Portugal entregou à morte?

Em 1936 Salazar não deu nenhuma ordem específica para pôr do lado de lá da fronteira os fugidos da guerra. Só o fez em 1937, mas antes, ainda que informalmente, havia ordens para tratar as pessoas que chegavam como pessoas que não interessavam, porque eram republicanos e vistos como comunistas. No primeiro ano de guerra, Salazar não se imiscuiu muito. Só mais tarde, quando percebeu que Franco iria ganhar, é que começa a manifestar-se mais. De qualquer forma, logo desde o início, havia um alinhamento com Franco por causa do perigo do comunismo. A própria França e a Inglaterra não se quiseram meter pelo mesmo motivo.

A estratégia de Franco passa por controlar primeiro toda a zona da fronteira com Portugal. Escreve que a intenção era ter pelas costas "a almofada de Salazar".

Sim. A primeira cidade com relevo a ser tomada foi Sevilha e depois foram subindo. Chegaram muito depressa à Galiza. Isto fez que 1936 tenha sido o ano em que houve mais movimento de refugiados. A partir daí as zonas fronteiriças já estavam ocupadas.

O mote para este livro foi a figura do tenente Augusto Seixas, da Guarda Fiscal. Em sua memória, há dois memoriais, em Barrancos (2015) e em Oliva de la Frontera (2010)...

É uma das personagens centrais, porque representa como ninguém uma parte do regime que atuava contra as ordens de Salazar.

No prefácio, a historiadora Irene Pimentel compara-o a Aristides de Sousa Mendes. Faz sentido?

Aristides salvou incomparavelmente mais pessoas e são figuras completamente diferentes. Um era um diplomata e o outro um mero tenente da Guarda Fiscal. Mas, em comum, tinham o desprendimento pelas suas posições quando se tratava de ajudar o outro que não conheciam. Quando os refugiados começaram a aparecer em massa na zona de Barrancos, que estava sob o seu controlo, ele criou um campo de contração. Nesse tempo, um campo de concentração era simplesmente um campo onde se concentravam pessoas. A partir de determinada altura, os refugiados concentrados naquela zona já eram tantos - cerca de 800 - que o governo, até por pressões internacionais, viu-se obrigado a autorizar o campo. Ainda assim, a fronteira é fechada para tentar estancar o problema e é então que o Seixas decide, à revelia, permitir que continuem a entrar e cria um segundo campo, quilómetros ao lado.

Até que Salazar percebe que tem de resolver o problema.

Sim, decide colocar todos os refugiados num navio, o Niassa, e fazê-los seguir para Tarragona, que ainda estava nas mãos dos republicanos.

E poupa em refeições.

Sim, isso é engraçado. Uma das grandes preocupações de Salazar era o dinheiro que o Estado estava a gastar para alimentar todas aquelas pessoas. Os espanhóis não representavam um perigo. Para ele era, no essencial uma questão de tesouraria. Em novembro, numa carta que aparece transcrita no livro, o comandante da PSP escreve ao administrador do concelho de Barrancos: "Rogo a V. Ex.ª a fineza de me informar da data em que principiou a ser fornecida alimentação, data em que terminou, qual o número de refeições fornecidas e preço de cada uma." No caso dos refugiados, a questão da mercearia era a maior preocupação de Salazar.

Das histórias de refugiados que relata no seu livro quer destacar alguma?

Há uma que é extraída de um diário de um guarda florestal espanhol que tinha fugido para Castro Laboreiro: "Algo que me comoveu desde o dia da minha chegada foi o zelo e a rapidez das mulheres para avisar os refugiados perante a aproximação dos guardas. Em Castro Laboreiro, em cada 100 habitantes 80 são mulheres, porque os homens emigram em massa". E depois diz assim: "Procederia o povo galego do mesmo modo se os portugueses se vissem em iguais circunstâncias?".

Foram as mulheres, principalmente, a proteger os refugiados?

Porque tinham pena. E não apenas na zona da raia. Falei com pessoas em Grândola que se lembram de ver chegar espanhóis, pais e crianças, famintos, a pedir esmola.

Também tropeçou em histórias de portugueses que não quiseram ajudar e que denunciaram espanhóis?

Sim, em Cambedo da Raia, por exemplo. Um médico, que estava escondido, acabou por ser denunciado. O curioso é que os populares acabaram por matar o delator. Isso levou mais tarde, já depois da guerra, a que a GNR, em perseguição aos assassinos do delator, acabasse por arrasar completamente a aldeia.

Que fontes recolheu para a feitura do livro além de escritos sobre o assunto?

Falei com filhos e netos de espanhóis fugidos para Portugal, com portugueses cujas famílias os acolheram e tive também acesso a diários nunca publicados. Além, claro, das entrevistas que fiz aos netos do tenente Seixas.

Houve alguma personagem que o tenha marcado especialmente?

A Xica Maruja. É uma pessoa extraordinária. Era filha do homem que tratava do gado ao proprietário da Herdade da Coitadinha, onde ficou instalado o campo de concentração. Tem memórias muito vivas da chegada dos espanhóis. Repete muitas vezes "coitadinhos" e explica que as pessoas tinham pena.

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