Na cidade síria onde se morre à fome, o quilo de leite em pó custa 270 euros

São mais de 40 mil pessoas que estão cercadas por forças fiéis ao regime de Bashar al-Assad nesta cidade sunita, das quais 25 mil mulheres e crianças.

Madaya está transformada "numa prisão ao ar livre" onde as pessoas "estão a morrer à fome". O diagnóstico é da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), que está presente nesta cidade síria cercada há mais de 200 dias pelas forças de Bashar al-Assad e pelos seus aliados xiitas do Hezbollah libanês.

Um diagnóstico sustentado em imagens divulgadas nas redes sociais - de crianças e adultos esqueléticos - e em testemunhos que chegam da cidade cercada. Só desde o início de dezembro de 2015, os MSF recensearam 23 mortes pela fome, seis delas de bebés com menos de 1 ano e cinco pessoas com mais de 60 anos.

A ajuda humanitária, cuja entrada na cidade fora negociada entre a ONU, Damasco e a oposição, só deverá começar a chegar hoje a Madaya, localidade de maioria sunita e conhecida - antes do início da guerra civil síria que vai entrar em março no sexto ano - como um popular destino de férias. A cidade é controlada por diferentes grupos da oposição e foi cercada em julho pelas forças de Assad. O cerco tem--se apertado desde então e 40 mil pessoas, das quais 25 mil mulheres e crianças, estão encurraladas em Madaya, sujeitas a um quotidiano de fome, frio e morte. Desde outubro que está bloqueada a entrada de toda a ajuda humanitária e médica. Campos de minas rodeiam a cidade.

Um antigo habitante de Madaya, que mantém contacto com familiares ali residentes, afirmava ontem que estes procuram, desesperadamente, encontrar "os últimos animais vivos para os matar e comer". Falando ao The Gulf News, Ammar Ghanem, explicou que os familiares passam dias consecutivos sem nada para comer. No mesmo texto, The Gulf News conta a história de um homem disposto a trocar o seu carro por alimentos. Não conseguiu e acabou por morrer de fome.

A ajuda humanitária de outubro, ou parte dela, terá sido capturada pela oposição, afirma Damasco, que nomeia os islamitas da Frente al-Nusra, os salafistas do Ahrar al--Sham e o Exército Sírio Livre como responsáveis por essa ação. Ainda segundo os media fiéis a Assad, estes grupos estariam agora a especular com os produtos capturados. Os preços são elucidativos: um quilo de leite em pó vale mais de 270 euros; o de trigo moído quase 230 euros. Alguns residentes de Madaya afirmam às agências que os comerciantes retiveram produtos essenciais e praticam agora preços iguais ou semelhantes aos citados. Mohammed al-Debes, que coordena a distribuição de ajuda na cidade, dizia na passada semana ao Al-Monitor estarem a ser praticados "preços dos mais elevados no mundo" para certos bens, isto enquanto "as famílias fervem especiarias e sal para não morrerem à fome".

Situada a 1400 metros de altitude, numa região montanhosa a 25 quilómetros de Damasco, Madaya está sob um manto de neve, o que torna ainda mais difícil a sobrevivência. "As ervas e as folhas das árvores ficaram cobertas pela neve", dizia ontem um habitante da cidade citado nos media alemães. "Já quase não há animais para matar", referia um outro habitante, entrevistado via Skype pela agência Dpa. "Mas tive sorte. Consegui três biscoitos no centro de ajuda humanitária e encontrei algumas folhas a caminho de casa."

Histórias como estas multiplicam-se através das redes sociais e em testemunhos dos que conseguiram sair de Madaya. Como Mohammed Khair, um dentista que deixou a cidade em dezembro. Ouvido pela agência turca Anadolu, o médico afirmou que não se encontra leite na cidade e quando este aparece "vale o seu peso em ouro". O frio está a matar os mais velhos e os "doentes crónicos", isto porque, apesar dos bosques circundantes, atiradores furtivos impedem os habitantes de recolherem madeira para os seus fogões e lareiras.

Também o MSF regista casos de crianças a quem os pais nada mais têm para lhes dar que não seja água fervida com sal ou doses individuais de xarope de frutas distribuídos pelas ONG. Factos que Mohammed Khair confirma nas declarações à Anadolu. Antes de deixar Madaya, o médico sírio teve conhecimento de 42 pessoas terem morrido à fome.

Um indicador da situação que se vive em Madaya é dado pelas recomendações das ONG aos habitantes, para evitarem deslocações desnecessárias, permanecerem em casa e cobrirem-se a si e às crianças devido ao frio que grassa na cidade. Ontem, os termómetros registavam máximas de 11 a 12 graus e mínimas de quatro a seis graus.

Os MSF notam ainda não subsistir material médico em condições de ser utilizado em cirurgias nem meios necessários à sua realização, como anestésicos. "A situação é chocante", referia ontem um porta-voz da ONU, Rupert Colville, admitindo que a dimensão da catástrofe humana pode ser muito maior do que é revelado pelas imagens nas redes sociais.

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