Na casa do mais rico presidente até Trump

Foi em Mount Vernon que viveu o primeiro presidente dos EUA, George Washington. Há quem sinta que o seu exemplo faz hoje mais falta do que nunca

Só a última sala que George Washington mandou acrescentar à mansão que herdara do pai era maior do que 98% das casas dos americanos da época. A informação começa por espantar, mas menos quando se pensa que o primeiro presidente da América foi também o mais rico. Pelo menos até o milionário Donald Trump chegar à Casa Branca há um ano.

Como Trump, também Washington estava empenhado em fazer a América grande. Por isso liderou o exército que enfrentou os britânicos e cujas vitorias incentivaram as antigas colónias a declararem a independência em 1776. Por isso também aceitou ser o seu primeiro presidente - mas recusou ser rei-, em 1789. E quando passados oito anos, cumpridos dois mandatos, deixou o poder nas mãos do povo e voltou para o seu adorado Mount Vernon, decidiu inscrever nas paredes da mansão aquele que pensava ser o futuro da jovem nação: a agricultura. Há instrumentos agrícolas e ovelhas esculpidos na lareira, foice e enxada pintadas por cima das portas e o teto onde a temática se repete no relevo.

É por aquela divisão, que servia para jantares, recitais ou bailes, que começa hoje a visita a Mount Vernon, propriedade situada no estado da Virgínia. Para ali chegar percorre-se parte dos terrenos, passando pelos aposentos dos escravos que Washington só libertou no testamento, pela horta onde estes cultivavam o que a família comia ou pelo atelier do sapateiro que lhes tratava do calçado. Mas nos tempos em que George e Martha, a viúva riquíssima por quem este se apaixonou e com que casou em 1759, ali viviam quem chegava entrava pela porta principal, sendo levado pelo mordomo a uma pequena sala onde o anfitrião se lhe juntava.

Pendurada numa parede entre duas portas está a chave da Bastilha que o marquês de Lafayette enviou a Washington em 1790, um ano depois da revolução francesa e da tomada da prisão parisiense pelos revoltosos. Um presente, explica Karen Menatti, cheio de simbolismo. Segundo a mulher que todos os dias repete as histórias de Washington, ao oferecer a chave ao homem que deu a liberdade aos EUA, Lafayette revelava a esperança no sucesso da revolução francesa.

Enquanto sobe a escada até ao primeiro andar, apoiando-se no mesmo corrimão em que o primeiro presidente tocou, Mary mal quer acreditar. Vinda do Massachusetts com a irmã Sandra, fez questão de vir a Mount Vernon. "Sempre quis vir e nunca tive tempo. Desta vez aproveitei que o meu marido não veio. Não é muito dado a coisas históricas", explica. Baixinha, cabelo em que o louro dá lugar ao cinzento, Mary não esconde a admiração por Washington. Um sentimento que a irmã partilha. "É um homem que admiro. A sua ética. Ter deixado o poder voluntariamente. Alguém como ele faria muita falta hoje", suspira. E explica que, por isso, decidiu trazer ali os filhos - adolescentes de capuz na cabeça e mão nos bolsos.

No Mount Vernon ficam a saber que os Washington, ajudados pelos seus 314 escravos, recebiam centenas de convidados por ano na mansão com vista para o rio Potomac. Daí os nove quartos de hóspede e as várias obras de alargamento que o general fez.

Mas é o quarto dos Washington que mais impressiona. Sobretudo pela austeridade. Ao fundo, a secretária de Martha, de onde a minúscula senhora Washington geria a propriedade, perto da cama que mandou fazer para acomodar o quase 1.90 metros do marido. Este levantava-se antes das 05.00 e às 07.00 já estava a tomar o pequeno-almoço para ir cavalgar pela propriedade. Foi ali, naquela cama, que morreu de uma infeção respiratória aos 67 anos, dois anos após deixar a presidência.

"Ao fazer só dois mandatos, Washington estabeleceu um precedente. Que só foi inscrito na Constituição após a II Guerra Mundial e os quatro mandatos de Franklyn Roosevelt", explica Karen. E acrescenta que Washington protagonizou "a primeira transição pacífica de poder. E isso é o que o torna tão importante ainda hoje". Mary meneia a cabeça, enquanto lamenta que tantos anos depois a América ainda esteja à espera da primeira mulher presidente.

Mas ali é de Washington que se fala. E quem quer saber mais, depois de uma visita ao túmulo do primeiro presidente pode ir até ao museu onde, além de uma exposição sobre os escravos do general, pode ver uma das suas famosas dentaduras (não, não é de madeira ao contrário do que reza a lenda) ou assistir a um filme em 4D sobre o seu papel na guerra de independência, com direito a disparos de canhão, fumo e até alguma neve a cair do teto.

Enviada especial à Virgínia

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