Na antiga prisão de Saddam, o apoio monetário alivia a rotina dos refugiados

No mundo, diz a ONU, existem 60 milhões de refugiados. A crise mais visível tem sido a dos sírios. Como Mohammed Said Amin, que vive em Aqrah, no Iraque, onde outrora funcionou uma cadeia do regime de Saddam Hussein. Hoje assinala-se o Dia Mundial do Refugiado

Ao mesmo tempo que Mohammed Said Amin testemunhava a intensificação da luta entre as forças governamentais e os grupos rebeldes pelo controlo da sua cidade natal de Damasco, ele e a mulher elaboravam planos de fuga. Partiram para Ras al-Ayn, uma cidade síria na fronteira com a Turquia. Mas quando esta ficou sob o ataque da Frente al-Nusra, o ex-motorista de autocarro sentiu que não tinha outra opção a não ser pegar em armas contra o grupo ligado à Al-Qaeda.

"Lutámos contra eles durante semanas", disse Amin, de 48 anos, numa voz cansada. "Quem iria querer fazer isso? Mas tivemos de proteger as nossas mulheres, as nossas casas, a nossa terra." Dois anos depois, Amin e a mulher, Nadia, são refugiados que vivem na região curda do Iraque - refúgio para cerca de 235 mil pessoas deslocadas pela guerra civil da Síria e mais de um milhão de iraquianos que fugiram da violência noutras regiões do seu país.

Em tempos uma próspera região produtora de petróleo, o Curdistão iraquiano tem sido atingido por uma crise económica causada por uma queda nos preços do petróleo e por manifestações de protesto no início deste ano contra as medidas de austeridade. A guerra contra o Estado Islâmico e o afluxo de pessoas deslocadas só agravou a crise. Os empregos são raros, especialmente para os que chegaram mais recentemente.

A nova casa de Amin é numa prisão em tempos utilizada por Saddam Hussein para confinar dissidentes políticos durante o seu governo com mão de ferro que abrangeu mais de duas décadas. Cerca de mil refugiados sírios estão abrigados no sombrio edifício parecido com uma fortaleza na cidade de Aqrah, a norte do país. A linha de frente de combate está a cerca de 50 km de distância, para além das colinas áridas de Aqrah.

Embora Amin não tenha emprego, ele e a mulher recebem um rendimento mensal fixo de 38 dólares do Programa Alimentar Mundial da ONU (PAM) como parte de um projeto-piloto que consiste em oferecer assistência em dinheiro, em vez de bens, alimentos ou vales.

Risco de inflação

Mais de 14 mil famílias recebem dinheiro do programa lançado neste ano no Iraque. Os operacionais da ajuda humanitária dizem que a relativa estabilidade do Curdistão iraquiano tornou possível a implantação de uma forma de assistência alimentar que tem sido apontada como uma maneira mais eficiente de prestação de ajuda. "O dinheiro propicia flexibilidade às pessoas, para que possam gastá-lo naquilo que precisarem - seja comida, medicamentos ou parte da renda", disse a porta-voz do PAM, Abeer Etefa.

O departamento humanitário da Comissão Europeia, ECHO, forneceu a maior parte dos quase 600 mil euros necessários para executar o programa, que fazem parte de um fundo de 18 milhões de euros que a agência atribuiu ao PAM no Iraque desde 2015.

Nicholas Hutchings, um assistente técnico do ECHO, disse que embora fosse impossível excluir o risco de os destinatários gastarem o dinheiro em cigarros e álcool, em vez de em alimentos e renda, não havia grandes provas de que o fizessem. "Não apenas neste país, mas também noutros, a evidência mostra que as pessoas não o gastam em vícios", disse ele.

Dar dinheiro beneficia a economia local e dá às pessoas a dignidade da escolha, mas isso deve ser feito de uma forma que não cause inflação, dizem os defensores da ajuda monetária. "É claro que com o elevado número de pessoas que recebem assistência... há o risco de fazer subir os preços", disse Etefa do PAM à Thomson Reuters Foundation.

Nas zonas de conflito na Síria, onde o PAM está a fornecer alimentos a mais de quatro milhões de pessoas, distribuir dinheiro indiscriminadamente faria correr o risco de provocar inflação, disse ela.

Anteriormente, os refugiados como Amin tinham muitas vezes de fazer fila para conseguirem sacos de feijão, farinha, grãos de trigo torrado e outros alimentos básicos.

Muitas famílias acham a experiência humilhante, e essas operações são de execução mais cara por causa do transporte, armazenagem e outros custos, dizem os operacionais da ajuda humanitária.

Com as amarrotadas notas de dólares americanos na mão, Amin sentou-se a conversar dentro dos seus escuros aposentos - uma antiga cela da prisão que o casal tentou animar com fitas vermelhas penduradas nas paredes de cimento.

Amin disse que o dinheiro era melhor do que os vales de alimentação que ele só podia usar em lojas especialmente designadas, onde os produtos são muitas vezes mais caros do que nas lojas vizinhas. "Agora posso pegar no dinheiro e ir comprar por atacado no supermercado", disse Amin. "Quando era com vales, os preços eram fixos e perdia algum do valor do dólar."

Plano Marshall

Apesar da ajuda que recebem, o montante fixo não cobre todas as necessidades dos refugiados e a maioria preferia trabalhar.

Recordando a sua vida em Damasco, Amin lamentou a forma como a guerra tinha destruído os seus planos para abrir a sua própria loja, com a qual ele esperava poder assegurar o futuro financeiro dos seus nove filhos, que fugiram da Síria antes dele e estão agora na Turquia e na Alemanha.

"Trabalhei duramente", afirmou. "Queria que eles me recordassem e dissessem: "O nosso pai fez tudo o que podia para nos sustentar."" Mas as oportunidades de trabalho em Aqrah são quase nenhumas, fazendo que Amin e muitos outros se sintam frustrados e sem rumo.

As autoridades locais, que dizem sentir a pressão da crise de refugiados, também estão a pedir mais ajuda em dinheiro para os iraquianos deslocados. "Não é fácil ter um grande número de pessoas deslocadas a chegarem a uma cidade e a perturbarem a ordem estabelecida", declarou Jane Pearce, diretora do PAM no Iraque.

Tal como outros operacionais de ajuda humanitária, Pearce está preocupada com as consequências humanitárias de uma ofensiva planeada por forças iraquianas, com a ajuda de uma coligação liderada pelos Estados Unidos, para reconquistar Mossul, a segunda maior cidade do Iraque, do Estado Islâmico no final deste ano.

"Eu gostaria de ver [algo] como um Plano Marshall para o Iraque que ajudasse a reconstruí-lo e a mantê-lo estável", disse ela, referindo-se à enorme ajuda financeira que os Estados Unidos providenciaram para reconstruir a Europa após a Segunda Guerra Mundial.

Esta viagem foi subsidiada pelo departamento de Ajuda Humanitária e Proteção Civil da Comissão Europeia.

Em Aqrah
Jornalista da Reuters

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