Muçulmanos obrigados a esconderem-se com aumento da tensão após os atentados

Refugiados muçulmanos pertencentes à comunidade Ahmadi estão sob proteção das autoridades devido às ameaças.

Pelo menos 700 refugiados muçulmanos estão escondidos, obrigados a fugirem das suas casas por serem perseguidos, numa altura em que as tensões entre as comunidades religiosas no Sri Lanka aumentam após os atentados que causaram a morte a 359 pessoas - 38 estrangeiros - e feriram outras 500 no domingo de Páscoa.

Os ataques suicidas, em igrejas e hotéis de luxo, vieram abalar a relativa acalmia que se vivia no país de maioria budista desde que a guerra civil entre os separatistas tâmiles e hindus terminou há 10 anos. O país vive agora sob a ameaça do regresso à violência sectária.

Segundo o The Guardian, um grupo de cerca de 500 muçulmanos está abrigado numa cidade que não é revelado, tendo-se registado uma forte presença policial no local onde estão escondidos. Ao mesmo tempo, dezenas de moradores protestavam contra a sua presença e exigiam que fossem retirados.

"Estas pessoas devem ser retiradas daqui", disse um membro do conselho provincial local. "Nós não precisamos de refugiados do Paquistão", foram algumas das palavras escritas em cartazes. Mas, segundo as autoridades, os refugiados terão de ficar mais alguns dias antes de poderem ser transportados com segurança para outro local.

O grupo, segundo o jornal britânico, pertence à comunidade Ahmadi, uma seita minoritária do Islão que é perseguida no Paquistão e legalmente proibida de entrar nas cidades sagradas de Meca e Medina.

"Nós vimos alguns ataques em casas, alguns refugiados foram espancados e algumas pedras foram atiradas também, então as pessoas ficaram com medo de ficar em suas casas", disse Ruki Fernando, um ativista do Sri Lanka.

"As pessoas no Paquistão atacaram-nos e dizem que não somos muçulmanos", disse Tariq Ahmed, um ahmadi de 58 anos que fugiu de sua casa, à Associated Press. "No Sri Lanka, as pessoas atacam-nos porque dizem que somos muçulmanos".

Os ahmadi fugiram de décadas de perseguição no Paquistão. Acreditam que outro profeta islâmico, Ahmad, apareceu no século 19, uma visão contra com o princípio fundamental do Islão de que Maomé foi o mensageiro final enviado por Deus.

"Nós não somos terroristas"

O Paquistão alterou a Constituição em 1974 para declarar os ahmadis como não-muçulmanos. "Não somos os seus inimigos. Estamos a enfrentar a mesma situação que essas pessoas", disse Qazi Moin Ahmed, de 21 anos, citado pelo The Guardian. E acrescentou: "Nós não somos terroristas, mas consideram-nos terroristas."

O ACNUR disse entretanto que recebeu a informação de que os refugiados "foram alvo de ameaças e intimidação" e que está a fazer todos os esforços para garantir a sua segurança. Cerca de 1 600 refugiados e requerentes de asilo estão registados no ACNUR no Sri Lanka.

O ataque a igrejas e hotéis de luxo foi reivindicado pelo autoproclamado Estado Islâmico.

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