Mórmones mortos no México: jovem de 13 anos andou 23 km para pedir ajuda

Devin Blake Langford escondeu seis irmãos, alguns deles feridos, nos arbustos depois de a mãe ter sido morta numa emboscada em Sonora antes de partir à procura de ajuda. Oito crianças sobreviveram, mas três mulheres e seis dos seus filhos morreram.

Um jovem de 13 anos andou 23 quilómetros durante seis horas para poder avisar que a família tinha sido alvo de uma emboscada no estado mexicano de Sonora. Antes de ir procurar ajuda, Devin Blake Langford escondeu seis irmãos, cinco deles com ferimentos de balas, nos arbustos.

No ataque morreram três mulheres e seis crianças, que seguiam em três carros. Tinham dupla nacionalidade mexicana e norte-americana e eram membros de uma comunidade da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, também conhecidos como mórmones, que ainda no século XIX começaram a trocar os EUA pelo México para continuar a praticar a poligamia.

A Colonia Le Barón tem hoje cerca de três mil membros, mas apenas alguns praticam a poligamia, e no passado falou abertamente contra a violência dos cartéis. Em 2009, recusaram pagar o resgate quando Erick LeBaron foi raptado, alegando que isso encorajaria futuras ações do género. Erick foi libertado, mas o irmão Benjamin foi espancado até à morte. A comunidade também se envolveu em trocas de palavras com os agricultores locais que os acusam de usar água em excesso, deixando as quintas vizinhas à seca.

O ministro da Segurança do México disse que o grupo pode ter sido um alvo por confusão. Para o Exército, a família foi vítima de uma disputa entre os cartéis Línea e Salazar, alegando que os veículos usados pela família são semelhantes aos que usa o crime organizado. Um suspeito, que terá sido detido junto à fronteira, afinal não terá relação com o caso.

O presidente norte-americano, Donald Trump, condenou o ataque e ofereceu-se para ajudar o México na luta contra os cartéis (algo que o presidente mexicano, Andrés Manuel López Obrador, rejeitou).

Relato da família nas redes sociais

Nas redes sociais, a família contou o que se passou. "Na manhã de 4 de novembro de 2019, três mães em três veículos, com 14 crianças entre elas, partiram de LaMora, uma pequena comunidade familiar nas montanhas a nordeste de Sonora. Duas delas partiram para visitar a família em Chihuahua, e outra para ir buscar o marido ao aeroporto em Phoenix, Arizona. Nunca chegaram ao destino. Foram alvo de uma emboscada por cartéis mexicanos; atingidas a tiro, queimadas e assassinadas a sangue-frio. Eram civis inocentes, cidadãos americanos que tentavam viver as suas vidas em paz", escreveu no Facebook uma prima, Kendra Miller, citada num post de John LeBaron.

As vítimas foram Rhonita (conhecida como Nita) Maria Miller, de 30 anos, e os filhos Howard Jacob (12 anos), Krystal Bellaine (10 anos) e os gémeos Titus Alvin e Tiana Gricel, de 8 meses. "Todos atingidos a tiro e queimados no seu carro. Só cinzas e alguns ossos restaram", escreveu Miller. Rhonita tinha outros três filhos, que estão ao cuidado dos avós.

No outro carro morreu Christina Marie Langford, de 29 anos, tendo a sua bebé de 7 meses sobrevivido. "Foi encontrada no carrinho de bebé, que parece ter sido posto no chão do carro pela mãe que a tentava proteger e estava ilesa", indicou a família.

No terceiro veículo morreu Dawna Ray, de 43 anos, junto com os filhos Trevor Harvey, de 11 anos, e Rogan Jay, de 2 anos. Foram mortos a tiro.

Foi Miller que contou como Devin andou horas para procurar ajuda. "Depois de ter visto a mãe e os irmãos serem mortos a tiro, o filho de Dawna escondeu os seus seis outros irmãos nos arbustos e cobriu-os com ramos para mantê-los seguros enquanto foi procurar ajuda. Quando demorou muito tempo a regressar, a irmã de 9 anos deixou os restantes cinco para tentar também. O Devin chegou a LaMora às 17.30, seis horas depois da emboscada, dando as primeiras notícias sobre a sua família e a de Christina."

Cinco dos irmãos estavam feridos: Kylie Evelyn, de 14 anos, foi atingida a tiro num pé; Cody Greyson, de 8, foi atingido no maxilar e na perna, sendo a sua situação a mais preocupante; Xander Boe, de 4, foi atingido nas costas; e Brixon Oliver, de quase 9 meses, foi atingido no peito. McKenzie Raune, de 9 anos, foi atingida no braço. Quando Devid não voltou, partiu também à procura de ajuda, mas perdeu-se, tendo andado durante quatro horas até ser encontrada pelas equipas de busca. Jake Ryder, de 6 anos, foi o único que não ficou ferido (tal como Devin).

As crianças feridas foram levadas num helicóptero militar para o hospital local e depois transferidas para o Arizona.