Mogherini, Obama, Putin. Políticos também choram

Entre as muitas lágrimas derramadas em reação aos atentados de Bruxelas, as da chefe da diplomacia europeia foram das que chamaram mais a atenção. Mas Federica Mogherini não é a primeira política a chorar em público. Nem será a última. Então, porque é que isso surpreende?

"Nas sociedades ocidentais há muito da liturgia do cargo. Os políticos devem simbolizar algo acima dos homens, dos comuns mortais", explicou ao DN Edson Athayde, publicitário brasileiro que dirigiu várias campanhas políticas em Portugal. Essa ideia, disse, refere-se ao passado e a uma época em que a comunicação pública era "muito limitada, controlada e encenada". Hoje em dia tal já não é possível. "Teremos cada vez mais políticos a agir como gente como a gente", indicou.

Nem o presidente norte-americano, Barack Obama, líder da maior potência mundial, está imune às emoções e chorou em janeiro, quando falou da política de armas nos EUA. Obama lembrou o tiroteio de 2012 na escola primária de Sandy Hook, em que morreram 20 crianças. Há um ano, numa cerimónia de homenagem às 150 vítimas mortais da queda do voo da German Wings nos Alpes, a chanceler alemã Angela Merkel não chorou mas estava visivelmente emocionada junto ao primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, e ao presidente francês, François Hollande.

E não é só em momentos de tragédia que os políticos choram. Em 2012, o russo Vladimir Putin, então primeiro-ministro, chorou depois de ter ganho as eleições que voltaram a colocá-lo no Kremlin. E há quem chore ao anunciar alterações políticas difíceis. Foi o caso de Elsa Fornero, ministra da Segurança Social italiana, que irrompeu em lágrimas em 2011 quando anunciou o pacote de austeridade no valor de 30 mil milhões de euros do governo de Mario Monti. Ou da vice-primeira-ministra sueca, Asa Romson, que em novembro anunciou medidas para tentar travar os números de requerentes de asilo, revertendo a política de porta aberta do país.

"Cada figura pública tem o seu perfil, a sua persona. Se o político tem um histórico de passionalidade ou de informalidade, o facto de chorar pode não ter mal", referiu Athayde. "Mesmo se não tiver esse perfil, esse pode ser o momento em que cria uma ligação nova e forte com os eleitores", acrescentou, explicando contudo que em alguns casos o gesto pode ser malvisto.

O facto de ser um homem ou uma mulher também tem impacto. "Haverá as diferenças de descodificação das coisas relacionadas com o género. Uma mulher chorar pode ser sinal de fraqueza, visto como algo mau, ou sinal de que é alguém que sente e vive muito alguma situação, e interpretado como algo bom", disse.

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