"Modo de atuação dos terroristas adapta-se aos dispositivos de segurança"

Embaixador francês reconhece que o seu país está na primeira linha da luta contra o terrorismo e que essa será uma das razões pelas quais tem sido tomado como alvo

Paris em janeiro, Paris em novembro, Nice em julho. Três atentados contra a França num ano e meio. Porquê sempre a França?

Porque a França está na primeira linha da luta contra o terrorismo, ao serviço da segurança da Europa, na Síria e no Iraque, mas igualmente no Sahel, para lutar contra o Daesh [Estado Islâmico], a AQMI [Al-Qaeda no Magrebe Islâmico] e outros grupos terroristas que ameaçam a nossa segurança comum. Porque a França é também a pátria das Luzes, da Revolução, dos princípios universais da liberdade, laicidade e emancipação, que foram justamente os celebrados no 14 de Julho e que causam horror aos terroristas e aos jihadistas. Entretanto, os terroristas atacam por todo o lado, de Orlando a Istambul, da Ásia a África, no coração da Europa. Nenhum país pode sentir-se livre da ameaça terrorista e é por isso que é urgente que a Europa reforce os seus meios de forma coerente e prossiga, sem fraquejar, o seu trabalho em matéria de cibersegurança, de luta contra o financiamento do terrorismo, de partilha sistemática de informações secretas a nível europeu, de intervenção ao nível operacional das forças de polícia e gendarmerie. O quadro europeu deve ser privilegiado para tratar da questão do terrorismo nas suas múltiplas dimensões. Estamos todos preocupados.

O ataque em Nice, no Passeio dos Ingleses, durante o 14 de Julho, significa que os terroristas visaram o modo de vida dos franceses e dos ocidentais?

Sim. É um conjunto de liberdades, de direitos e, sem dúvida, um modo de vida que foram visados, tal como nos ataques de Paris (sala de espetáculos do Bataclan, esplanadas de cafés) ou nos de Orlando (direitos e liberdades da comunidade gay). É preciso, por isso, reagir de forma vigorosa, sem fraquejar, mas ao mesmo tempo protegendo os nossos valores comuns, defendendo - sem restringir - as nossas liberdades. Face ao terrorismo, mais do que nunca, nós devemos continuar a afirmar e a defender valores universais.

A França está em estado de emergência há nove meses. Reforçar as medidas de segurança é a melhor resposta?

O reforço da segurança foi uma medida necessária e vimos que foi útil, pois vários atentados foram travados pela polícia, várias células desmanteladas nos últimos meses. Entretanto, a ameaça permanece elevada em França e na Europa. Esse perigo tem um nome: radicalização islâmica que apoia e exalta o terrorismo. Em consequência, as medidas de segurança devem ser acompanhadas de um trabalho de longo prazo para compreender, prevenir e combater as causas da radicalização.

O terrorista utilizou um camião. Explosivos, metralhadoras, camiões, cada vez é mais difícil prever estes ataques?

O modo de atuação dos terroristas adapta-se rapidamente aos dispositivos de segurança e a ameaça evoluiu sem parar. Nós temos que aprender rapidamente com os nossos erros, antecipar, tomar medidas que impeçam a passagem à ação de indivíduos isolados e limitar o impacto dos seus atos, impedir as suas ações. É um combate difícil e ingrato, mas quanto mais preparados estivermos mais difícil será aos terroristas serem bem sucedidos nos seus atos.

Num Estado de direito não podemos controlar e suspeitar de toda a gente

Os Alpes-Marítimos têm 6,5% de casos de deriva jihadista em França. Há centenas de franceses na Síria, mas o condutor de quinta-feira não estava referenciado por terrorismo. Como se consegue controlar estas pessoas?

Não sabemos, para já, muito sobre o autor deste ataque e como se radicalizou. A investigação permitirá saber mais. Num Estado de direito não podemos controlar e suspeitar de toda a gente, por isso é difícil prevenir a radicalização.

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