Miriam, a mãe que perseguiu os dez assassinos da filha, um a um

A história real, que parece de ficção, foi contada pelo The New York Times e os direitos para a sua adaptação ao pequeno ou grande ecrã já foram comprados.

Começamos pelo fim: Miriam Rodríguez Martínez foi morta com 13 tiros a 10 de maio de 2017 à porta de casa, em San Fernando, no estado de Tamaulipas. Nesse dia, assinalou-se o Dia da Mãe no México. Não era coincidência. Miriam teve durante anos uma missão: encontrar e levar à justiça dos homens que tinham raptado e assassinado a sua filha Karen, de 20 anos, em 2014. Graças ao seu trabalho de detetive, que incluiu o uso de disfarces, operações de vigilância e fazer-se passar por outras pessoas, conseguiu deter dez membros de um cartel local que estavam envolvidos.

A história de Miriam foi contada pelo jornalista Azam Ahmed no The New York Times e gerou grande interesse. De tal forma que os direitos para a sua adaptação (resta saber se ao grande ou ao pequeno ecrã) já foram comprados pela produtora norte-americana Blumhouse. Não é a primeira vez que uma reportagem do jornal acaba por ser adaptada: The 1619 Project, sobre a escravatura nos EUA, está a ser produzido por Oprah Winfrey, e uma história sobre os falsos descendentes de família real Awadh, foi transformada em série para a Amazon.

Mas voltamos a Miriam. Tudo começou a 23 de janeiro de 2014 com o rapto da filha, que se preparava para regressar a casa depois de um dia de trabalho na loja da mãe, Rodeo Boots. Os raptores encostaram ao lado da pickup, forçaram a entrada, empurraram-na e levaram-na. Os raptos eram uma forma de o cartel local, os Zetas, se financiarem.

Para pagar o primeiro pedido de resgate, a família de Karen pediu um empréstimo ao banco. O marido de Miriam seguiu as instruções à letra, deixando o dinheiro onde tinha sido ordenado, mas a filha não foi entregue. Em desespero, a mãe pediu para se encontrar com os membros do cartel dos Zetas e estes aceitaram. Diante da súplica da mãe, disseram não ter a filha, mas ofereceram-se para ajudar em troca de dinheiro. Miriam pagou. Outros pedidos de dinheiro foram chegando, eles pagaram sempre.

Até que um dia Miriam soube que nunca mais iria ver Karen e prometeu à outra filha, Azalea, não descansar enquanto não encontrasse os responsáveis. O ponto de partida foi o nome do membro do cartel com quem se encontrou, Sama (tinha ouvido o nome a ser dito por um walkie-talkie). Começou a perseguição online, à procura dele e de pistas. Tinha-o encontrado, mas precisava de mais dados. Cortou o cabelo, pintou-o de vermelho, para ele não a reconhecer, disfarçou-se com um uniforme governamental antigo que tinha e fingiu realizar uma sondagem na zona.

Com os dados foi à polícia, mas recebeu muitas negativas até encontrar alguém que a ajudasse. Nessa altura era tarde de mais, Sama já tinha desaparecido, voltando a reaparecer a 15 de setembro na loja do filho de Miriam, Luís. Ele telefonou à mãe e seguiu o suspeito até que a polícia o apanhou. Preso, ajudou a identificar outros suspeitos do rapto de Karen. Um deles, ainda menor de 18 anos, acabaria por revelar a verdade, levando as autoridades até a uma campa comum, onde foi identificado um fémur de Karen.

A investigação de Miriam não ficou por aí, encontrando aos poucos outros membros do grupo que raptara a filha. Alguns já estavam presos, outros mortos, outros procuravam refazer a vida: taxistas, homens do gás, um deles tinha-se virado para a religião. Depois de falar com a avó dele e descobrir a igreja que frequentava, Miriam passou os dados à polícia. Ele foi preso no interior do templo. Outro vendia flores e ela apontou-lhe uma arma até chegar a polícia.

Miriam tinha entretanto ganhado fama e tornara-se ativistas pelas famílias de outros desaparecidos, tornando-se a diretora da organização Colectivo de Desaparecidos de San Fernando. Os amigos temiam as consequências, mas ela não. "Não me importo se me matarem. Morri no dia que mataram a minha filha. Quero que isto acabe. Vou acabar com as pessoas que fizeram mal à minha filha e eles podem fazer o que quiserem", disse a uma amiga, citada na reportagem do The New York Times.

Em março de 2017, houve uma fuga da prisão onde estavam os responsáveis pela morte de Karen. Ela pediu proteção às autoridades e a polícia disse ter enviado patrulhas regulares à sua casa e ao seu local de trabalho. Ela continuava atrás dos últimos responsáveis, incluindo uma jovem mulher cuja casa vigiou durante dias.

Em maio, veio o desfecho. Um dos grupos que tinha fugido da prisão apanhou-a à porta de casa. Dois dos responsáveis foram presos uns meses depois, um deles morto num tiroteio. Mas não se sabe quem deu a ordem para a matar. Mas o trabalho que Miriam fez de perseguir os responsáveis pela morte da filha continuou a dar frutos: outra responsável foi detida em junho, graças à informação que ela tinha recolhido.

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