Merkel "subestimou" desafio da integração, acusa vice chanceler

Sondagem do Bild am Sonntag revela que metade dos alemães são contra quarto mandato da chanceler democrata cristã.

Para Sigmar Gabriel, a chanceler Angela Merkel "subestimou" o desafio de integrar um milhão de refugiados que chegaram à Alemanha em 2015. Numa entrevista à ZDF, o vice-chanceler, também líder dos sociais-democratas do SPD - agora aliados à CDU de Merkel no executivo, mas rivais dos democratas-cristãos nas eleições do próximo ano na Alemanha - lembrou que não basta dizer "Somos capazes", como Merkel tem feito repetidamente, lembrando que é preciso criar as condições para estas pessoas viverem.

A gestão da crise dos refugiados, que atingiu o seu pico no ano passado, é uma das razões apontadas para a perda de popularidade de Merkel. Mas não a única. A onda de ataques em julho na Alemanha, dois deles reivindicados pelo Estado Islâmico e três perpetrados por requerentes de asilo, também enfraqueceram a chanceler.

Eleita pela primeira vez em 2005 e várias vezes considerada a mulher mais poderosa do mundo, Merkel é candidata a um quarto mandato nas eleições do outono de 2017. Uma sondagem publicada ontem no jornal Bild am Sonntag, mostra que 50% dos inquiridos estão contra a reeleição de Merkel, enquanto 42% dos 500 inquiridos respondeu apoiar um novo mandato da chanceler.

Merkel, que se distinguiu de muitos dos congéneres europeus quando aplicou uma política de portas abertas em relação aos refugiados, ainda não esclareceu se é candidata à reeleição, tentando bater o recorde no poder do seu mentor, Helmut Kohl - 16 anos, entre 1982 e 1998. Segundo o site em inglês da rádio alemã Deutsche Welle, a chanceler estará à espera de perceber se tem o apoio da CSU, a irmã bávara da sua CDU.

Pelo meio, a CDU tem ainda o teste das eleições, já a 4 de setembro, no estado do Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental. Isto depois da subida da Alternativa para a Alemanha (AfD, extrema-direita, anti-imigração) em três escrutínios regionais em março, estando agora o partido de Frauke Petry perto dos 10% a nível nacional.

Os sociais-cristãos da CSU têm sido dos mais críticos em relação à política de imigração de Merkel. O último a atacar a chanceler foi Markus Soeder. O ministro das Finanças da Baviera garantiu que, "mesmo com a melhor vontade do mundo, seria impossível integrarmos tanta gente de tantas culturas diferentes". Segundo Soeder, o que Berlim tem de fazer é enviar milhares de refugiados de volta aos seus países de origem nos próximos três anos, em vez de trazer as suas famílias para a Alemanha.

Ontem ainda, Frank-Juergen Weise, diretor do Gabinete Federal para as Migrações e Refugiados, garantiu esperar a entrada de, no máximo, 300 mil refugiados na Alemanha este ano, bastantes menos que em 2015. Segundo Sigmar Gabriel, no início deste ano letivo, as escolas alemãs vão receber mais 300 mil alunos devido ao fluxo migratório e explicou que este é um ritmo impossível de gerir pelo sistema, até por falta de professores suficientes.

Merkel, que ontem abriu as portas da chancelaria, em Berlim, aos cidadãos, deu ainda uma entrevista à ARD na qual criticou os parceiros europeus que recusam receber refugiados muçulmanos, mas admitiu que a União Europeia talvez aceite reduzir as quotas previstas para cada um em troca de apoio financeiro. A chanceler deixou ainda um apelo aos cidadãos de origem turca que vivem na Alemanha - uns três milhões - para não trazerem para solo alemão os conflitos que os opõem na Turquia. As relações entre Berlim e Ancara estão tensas desde que a Alemanha reconheceu como genocídio o massacre de arménios em 1915 pelas forças otomanas. O golpe falhado de 15 de julho na Turquia veio piorar as coisas e pôr em causa o acordo entre Bruxelas e Ancara para esta travar o fluxo de migrantes.

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