Merkel na Turquia para salvar acordo sobre refugiados

Chanceler alemã ouviu líder turco dizer que quer dinheiro prometido pela UE para os sírios, liberalização de vistos em junho e abertura de um novo capítulo nas negociações de adesão

Angela Merkel foi ontem à Turquia visitar o campo de refugiados de Nizip 2, em Gaziantep, na esperança de dar um novo fôlego à implementação do acordo UE-Ancara, em vigor desde 20 de março. "Hoje vimos de perto os esforços que a Turquia tem feito no que toca à questão dos refugiados. Foi muito importante ter esta visão no terreno", disse a chanceler alemã, numa conferência de imprensa conjunta com o primeiro-ministro turco, o presidente do Conselho Europeu e o vice-presidente da Comissão Europeia, respetivamente, Ahmet Davutoglu, Donald Tusk e Frans Timmermans

O líder turco e os responsáveis europeus inauguraram um centro de proteção para crianças em Gaziantep em conjunto com a Unicef. "As crianças são as que mais sofrem com a tragédia na Síria. Temos que encontrar uma solução para a pior crise humanitária desde a Segunda II Mundial. Somos todos responsáveis por encontrar uma solução", disse Davutoglu, sublinhando que os turcos farão a sua parte e por isso também esperam que a UE cumpra a sua.

À luz do acordo UE-Turquia, Ancara comprometeu-se a receber migrantes e refugiados que entraram ilegalmente na Grécia. Assim, por cada refugiado sírio que entre na Turquia, vindo da Grécia, outro é reencaminhado para um país da União Europeia (num limite de até 72 mil vagas disponíveis). Enquanto a Comissão Europeia esperava recolocar pelo menos seis mil pessoas por mês e chegar a meados de maio com um total de 20 mil pessoas recolocadas, até agora apenas 208 pessoas foram recolocadas à luz do acordo UE-Turquia. Além deste mecanismo, a UE comprometeu-se a dar aos turcos apoio financeiro no valor de três mil milhões de euros, tendo eles exigido posteriormente mais três mil milhões. "Estamos aqui para fazer esta ajuda visível e a UE, como prometido, vai mobilizar a ajuda prometida", acrescentou ontem o chefe do governo turco.

Ancara registou a entrada de 2,7 milhões de refugiados sírios no seu território e, com isso, logrou ligar a crise migratória ao seu processo de negociações de adesão à UE. "Haverá liberalização de vistos em junho. É essa a nossa promessa aos cidadãos turcos. Em junho, também, o capítulo 33.º será aberto. Assim esperamos que aconteça", prosseguiu Davutoglu. Já na sessão de perguntas dos jornalistas, o líder turco garantiu que o acordo entre a UE e a Turquia e a liberalização dos vistos estão ligados.

Para que seja concedida, Ancara tem de cumprir 72 condições do acordo até dia 4 de maio, mas fontes diplomáticas citadas pela BBC e familiarizadas com o ritmo de implementação do acordo dizem que só metade dessas condições foram até cumpridas. A 4 de maio a Comissão Europeia divulgará um relatório sobre o assunto. Sobre o tema a chanceler alemã limitou-se a sublinhar o acordado, o que os turcos têm que fazer e a constatar que a Comissão Europeia irá divulgar então a sua avaliação.

O campo de refugiados que os responsáveis europeus ontem visitaram acolhe em prefabricados cerca de cinco mil refugiados sírios, entre os quais 1 900 são crianças, segundo números oficiais. "A Turquia é o melhor exemplo para o mundo de como se deve tratar os refugiados e não tem lições a receber por parte de ninguém", declarou Donald Tusk. "Nós, europeus, devemos dizer que vocês não estão sós e temos que mostrar a mesma solidariedade do lado europeu", afirmou Frans Timmermans.

A segurança foi reforçada para a visita da chanceler alemã, do presidente do Conselho Europeu e do vice-presidente da Comissão. Seis estrangeiros suspeitos de ligações ao Estado Islâmico foram detidos na Turquia e acusados de estarem a planear um ataque contra "dignitários de Estado". As detenções ocorreram durante a madrugada de ontem em Konya, que fica no centro da Turquia.

Crítico da abordagem alemã em relação à crise migratória, o primeiro-ministro da Hungria acusou a UE se entregar à Turquia. "Nós, membros da UE, já pagámos três mil milhões de euros à Turquia, em breve teremos de pagar três mil milhões suplementares. Impossível de prever onde isto vai acabar. Entregámo-nos à Turquia. Tal coisa não é nunca boa", disse Viktor Órban numa entrevista ontem publicada pelo semanário económico alemão Wirtschaftswoche.

Segundo uma sondagem publicada na sexta-feira pela estação pública de televisão alemã ZDF, 80% dos alemães pensam que é preciso desconfiar da fiabilidade da Turquia no que toca à crise migratória. E três em cada cinco alemães desaprovam a decisão de Merkel em aceitar o pedido da Turquia no sentido de abrir um processo contra o humorista Jan Böhmermann. Este declamou, a 31 de março, um poema de conteúdo sexual referente ao presidente Recep Erdogan no programa "Neo Magazin Royale", transmitido na ZDF.

Questionada sobre este caso e sobre as restrições à liberdade de imprensa na Turquia, Merkel afirmou que essa preocupação "já foi expressa várias vezes". E que os europeus falam com os turcos "sobre estes assuntos de uma forma muito franca e aberta". Em resposta, Davutoglu afirmou por sua vez: "Sabemos que os europeus discutem tudo de forma aberta. O que não podemos aceitar é que as pessoas só tenham uma visão de nós a partir do exterior". E numa referência ao caso do humorista alemão Jan Böhmermann, o primeiro-ministro turco esclareceu o que o seu país não pode tolerar: "Insultos contra o nosso presidente".

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