Merkel e Hollande dizem que é preciso proteger a "casa comum"

Chefe de estado da França e chanceler alemã assinalaram o centenário da batalha de Verdun, uma das mais marcantes da I Guerra

Entre fevereiro e dezembro de 1906 travou-se, em solo francês, um dos mais longos e sangrentos combates da primeira guerra mundial. Alemanha e França enfrentaram-se no campo de batalha. Ontem, para assinalar o centenário de Verdun, a chanceler Angela Merkel e o presidente François Hollande juntaram-se, olharam para os dias de hoje e apelaram à união da Europa, tentando passar uma mensagem de esperança.

A crise económica, os recentes ataques terroristas em Paris e em Bruxelas, a crise dos refugiados, o crescimento da extrema-direita - nomeadamente em França, com a Frente Nacional, e na Alemanha, com a AfD - e o referendo britânico sobre a permanência na UE, marcado para 23 de junho, são as espadas que por estes dias vão encostando a Europa à parede, ameaçando-lhe a coesão e debilitando-lhe o sistema imunitário. "A Europa é um espaço frágil que é preciso proteger", afirmou Hollande, ontem, ao lado de Merkel, no discurso conjunto que marcou o final das cerimónias do centenário de Verdun. "E a França e a Alemanha têm particulares responsabilidades, nomeadamente no acolhimento às populações que fogem dos dramas e dos massacres", vincou ainda o presidente francês.

Para a chanceler alemã também não restam dúvidas sobre o caminho a seguir: "Para garantir a sobrevivência da União Europeia não podemos fecharmo-nos sobre nós próprios. Temos de nos abrir ao outro".

De mãos dadas

No meio das trincheiras da I Guerra, o projeto de uma eventual União Europeia seria no mínimo uma espécie de ficção científica demasiado inverosímil.

Em 1916, durante dez longos meses, o exército alemão e as tropas gaulesas enfrentaram-se nos campos de Verdun. As mortes foram-se acumulando. Os soldados caindo por terra. No total, cerca de 300 mil homens perderam a vida: 160 mil franceses e 140 mil alemães.

Ironias do passado, o comandante das tropas francesas era Philippe Pétain. O mesmo que, anos mais tarde, durante a segunda guerra, viria a liderar o governo fantoche de Vichy, e acabaria acusado de traidor da pátria por colaboracionismo com o regime nazi de Hitler.

França e Alemanha, inimigos mortais nas duas grandes guerras do século XX, mas também cúmplices na construção do projeto europeu pós-Holocausto.

Um dos momentos mais simbólicos dessa reconciliação deu-se em 1984, precisamente em Verdun, quando François Mitterrand, o presidente francês, e Helmut Kohl, o chanceler alemão, deram as mãos nas celebrações do aniversário da batalha.

O gesto de carinho diplomático entre os dois líderes ficou imortalizado pelas fotografias. "É uma imagem que está gravada na memória das duas nações", sublinhou Angela Merkel, na véspera de se deslocar a Verdun para, num dia invernoso, caminhar lado a lado com Hollande, ao longo do cemitério, abrigados debaixo do mesmo chapéu-de-chuva.

"A nossa casa comum". Assim se referiram os dois governantes à Europa, sublinhando a necessidade de proteger o lar das tempestades que sobre ele se têm abatido. "O nosso dever sagrado está impresso nestas terras. Sim, devemos amar os nossos países, mas devemos também proteger essa nossa casa comum que é a Europa. Uma casa sem a qual ficaríamos expostos às intempéries da história", afirmou o presidente francês durante as celebrações do centenário da batalha de Verdun. O dia de ontem foi a data escolhida por uma questão simbólica: foi precisamente a 29 de maio que o general Charles de Gaulle, em 1966, celebrou os 50 anos dos combates.

Num discurso na câmara municipal, a chanceler alemã chamou a atenção para a necessidade de aprender com o sangue derramado há 100 anos: "Temos de saber preservar a memória de Verdun. Só aqueles que conhecem o passado podem retirar as devidas lições para o futuro".

Angela Merkel e François Hollande foram acompanhados, durante parte do dia, pelos presidentes da Comissão Europeia e do Parlamento Europeu, Jean-Claude Juncker e Martin Schulz.

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