'Mayor' trabalhista de Londres apoia Cameron contra o 'brexit'

Apesar de o primeiro-ministro conservador o ter acusado de apoiar extremistas islâmicos, Sadiq Kahn não hesitou em fazer campanha ao seu lado para defender os londrinos

Há um mês, em plena campanha eleitoral para a câmara de Londres e face à possibilidade de derrota do candidato conservador, o primeiro-ministro britânico, David Cameron, não hesitou em acusar o trabalhista Sadiq Khan de ligações ao extremismo islâmico. Mas a ameaça do brexit faz esquecer animosidades antigas e Cameron surgiu ontem sorridente ao lado do mayor londrino, que apelidou de "muçulmano orgulhoso" e "britânico orgulhoso", num comício a defender a continuação do Reino Unido na União Europeia (UE).

"Há muitas coisas sobre as quais eu e o primeiro-ministro vamos discordar. Mas o que importa é que quando é preciso o mayor e o governo trabalharem juntos no interesse dos londrinos, nós vamos trabalhar em estreita colaboração", afirmou Khan, que no dia 5 derrotou Zac Goldsmith e se tornou no primeiro muçulmano à frente de uma capital ocidental. Os conservadores foram acusados de liderar uma campanha racista, ao alegarem que Khan apoiava os extremistas islâmicos, por ter partilhado o palco com eles em alguns eventos quando era advogado de direitos humanos. Na realidade, o indivíduo em causa tinha defendido a existência de um estado islâmico e não apoiado o grupo terrorista Estado Islâmico.

No comício de lançamento do autocarro da campanha anti-brexit, em Roehampton (sudoeste da capital), Cameron apertou a mão a Khan e felicitou-o pela vitória. "Tenho orgulho de estar aqui com o mayor de Londres, o mayor trabalhista de Londres, neste assunto vital", disse o primeiro-ministro. Cameron saudou o facto de alguém que é "um muçulmano orgulhoso, um britânico orgulhoso e um londrino orgulhoso se poder tornar no mayor da melhor cidade do planeta", indicando que "isso diz algo" sobre o país.

O primeiro-ministro admitiu que espera ter muitos desentendimentos com o presidente da câmara de Londres, mas que neste momento ambos fazem parte de "uma grande e incrível campanha" a favor da permanência do país na UE. Khan causou a ira de vários vereadores londrinos (nomeadamente dos independentistas do UKIP) quando, a 23 de maio, ordenou que a bandeira da União Europeia fosse içada ao lado da bandeira do Reino Unido no exterior do edifício da Câmara Municipal. O anterior mayor, o conservador Boris Johnson, é hoje o principal rosto da campanha a favor do brexit.

O líder dos trabalhistas, Jeremy Corbyn, recusa fazer campanha ao lado de Cameron - o facto de ambos os partidos terem estado juntos no referendo escocês foi apontado como uma das razões para o desaire eleitoral do Labour nas legislativas de 2015. Mas Khan aceitou partilhar o palco com o primeiro-ministro conservador. Segundo o mayor, "mais de meio milhão de empregos" em Londres dependem da permanência do país na UE. "Um voto para "ficar" significa empregos e oportunidades", defendeu, apelando aos jovens para que se envolvam mais na campanha e se inscrevam para votar no referendo de 23 de junho.

Contestação nos Tories

O apoio de Khan, um dos trabalhistas mais populares neste momento, chega em boa hora para Cameron, cujo partido está dividido em relação ao brexit. Pelo menos três deputados conservadores eurocéticos já vieram a público dizer que estão a pensar submeter o líder a um voto de não confiança caso o brexit ganhe - o que seria uma derrota para o primeiro-ministro que se tem empenhado na campanha para ficar na União Europeia. Um dos deputados conservadores, Andrew Bridgen, diz que já conta com o apoio de mais de 50 colegas - o número mínimo para obrigar a uma disputa de liderança. Contudo, seriam necessários os votos negativos de 165 (metade dos 330 deputados do partido) para afastar Cameron.

Além disso, o ex-mayor de Londres Boris Johnson e o ministro do Trabalho, Michael Grove, principais rostos do brexit, lançaram um ataque pessoal contra Cameron no domingo, acusando-o de ter falhado no controlo da imigração. No manifesto eleitoral, o primeiro-ministro tinha prometido reduzir para cem mil as entradas de imigrantes, com os dois políticos a considerar que a impossibilidade de o fazer "corrói a confiança do público". Só o brexit, alegaram numa carta aberta, tornará possível cumprir essa promessa.

O primeiro-ministro já reagiu aos "rebeldes", falando numa "conspiração". Johnson trocou a hipótese de concorrer a um terceiro mandato na câmara de Londres por um de deputado que lhe permita disputar a liderança dos Tories, quando Cameron sair. Também o ex-líder conservador, Ken Clarke, acusou os críticos de quererem pôr Johnson em Downing Street, comparando-o ao candidato republicano à Casa Branca, Donald Trump.

Exclusivos