Marina lidera nas sondagens enquanto Lula e Aécio estão em queda

Ecologista pode ter ambiente favorável para 2018. Ex-presidente ainda 2.º em quase todos os cenários. PSDB está dividido em três.

No meio dos destroços da política brasileira, ainda atordoada com o depoimento forçado de Lula da Silva na Polícia Federal, a sua nomeação e consequente suspensão como ministro da Casa Civil de Dilma Rousseff e a divulgação de escutas telefónicas do ex-presidente pelo juiz da Lava-Jato Sérgio Moro, Marina Silva emerge na frente das sondagens para as presidenciais de 2018. A ecologista ganha nos quatro cenários propostos pelo centro de pesquisas Datafolha. Lula, ainda assim, fica em segundo em três deles, Aécio Neves é o melhor posicionado no campo da oposição e Jair Bolsonaro e Ciro Gomes, como Marina, são opções fora do eixo PT-PSDB que ocupa o Planalto desde 1995.

Pode estar a desenhar-se o cenário ideal para Marina Silva, que já foi candidata duas vezes à presidência e em ambas chegou como terceira mais votada. Por um lado, o escândalo do Petrolão pode implodir o PT, atingir as vísceras do PMDB e fazer estragos no próprio PSDB, onde Aécio também vem sendo salpicado por denúncias. Por outro, a ambientalista, que nunca esteve confortável no Partido Verde, pelo qual concorreu em 2010, e que se sentiu intrusa no PSB, de que foi inesperada candidata em 2014 devido à morte em desastre aéreo de Eduardo Campos, tem agora um partido feito à sua medida: o Rede.

Marina tem 21 pontos contra 19 de Aécio e 17 de Lula. Caso pelo PSDB concorram Geraldo Alckmin ou José Serra em vez do líder do partido, a ecologista sobe para 23 e 24 pontos e Lula assume a vice-liderança à frente dos barões tucanos.

O lulismo, que é por natureza maior do que o petismo no Brasil, embora tenha caído na ordem dos quatro pontos quando comparadas estas sondagens com as de dezembro, ainda se mantém vivo, mesmo que os dados do Datafolha tenham sido contabilizados em plena ressaca da divulgação das escutas.

Os tucanos

O PSDB, que se não houvesse uma clivagem crescente entre eleitorado e partidos tradicionais, poderia ser o beneficiado da crise económica, do impasse político e da Lava-Jato, também viu Aécio e os outros presidenciáveis caírem nas pesquisas.

Os três - Aécio, candidato derrotado por Dilma em 2014, Alckmin, governador de São Paulo reeleito há ano e meio com quase 60 pontos, e Serra, veterano senador - jogam com calendários diferentes.

A Aécio interessa eleições o mais depressa possível para surfar no bom desempenho de há ano e meio, por isso prefere, em vez do impeachment, que daria a chefia de Estado ao vice-presidente Michel Temer, a destituição de ambos, Dilma e Temer, por irregularidades nas contas da última campanha, facto que precipitaria novo sufrágio.

Alckmin, embora marche pelo impeachment na Avenida Paulista de braço-dado com Aécio, deseja que a presidente sobreviva até 2018 para que, com o tempo, o rival interno deixe de se apresentar como candidato natural do partido.

E Serra, esse sim, torce pela destituição da presidente e ascensão de Temer, de quem já terá a garantia de ser ministro da Fazenda. Da Fazenda para a candidatura ao Planalto em 2018, pelas contas de Serra, seria um passo.

No cenário que inclui os três juntos, Marina e Lula somam 17 pontos, Aécio 14, Serra seis e Alckmin cinco. O Datafolha incluiu também o apartidário juiz Sérgio Moro, em quem oito por cento dos brasileiros votaria.

Entretanto, os três já foram batidos em presidenciais ou por Lula e Dilma (Serra), ou só por Lula (Alckmin) ou só por Dilma (Aécio). Ao contrário de Fernando Henrique Cardoso, que venceu Lula em duas eleições, e mesmo com 86 anos em 2018 seria visto pelos donos do PIB como o único nome capaz de reunificar o país. Em entrevista ontem ao jornal O Estado de S. Paulo, FHC não fala em candidatura mas, pela primeira vez, defende o impeachment de Dilma e a prisão de Lula.

Na sondagem Datafolha, além de Marina, que se define como portadora da "nova política" por oposição à "velha política" representada por PT, PSDB ou o pivô PMDB, outros nomes podem assumir o papel de outsider. O ultradireitista Jair Bolsonaro, que foi carregado em ombros nas manifestações pró-impeachment de dia 13, ou Ciro Gomes, do PDT, que chegou a ser tido em conta nas eleições de 2010 mas que se eclipsou desde então. Como FHC, Ciro também foi entrevistado e partiu para o ataque: "Nomeação de Lula foi maior erro que já vi, PMDB e PSDB são cleptocratas".

São Paulo

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